É difícil explicar o apego telúrico. Compras um pedaço de terra ou
recebes esse pedaço como herança. E sem te aperceberes vais ficando com
tantas boas recordações desse terreno que se torna impensável vendê-lo.
O meu pai deu-me um terreno quando eu tinha 30 anos. Na altura eu não
queria aceitar, porque não percebia nada de agricultura, mas acabei por ficar com ele.
Comecei por pedir indicações ao meu pai e aos vizinhos sobre como
semear e quando semear na terra. Batatas, cebolas, feijão, ervilhas,
alface, tomates foram as minhas primeiras experiências nas minhas horas
vagas.
Ao fim de um ano pensei que estava a correr tão bem que me podia
aventurar noutros voos mais altos. Então plantei uma vinha ao fundo da
horta.
No ano seguinte decidi começar a plantar árvores de fruto.
Laranjeiras, limoeiros, nespereiras, cerejeiras, pessegueiros,
ameixeiras, macieiras, pereiras, romãzeiras, figueiras. Tudo em
carreiras que dividiam a terra em pequenas porções de horta.
Foi assim que a minha terra se tornou uma das mais cobiçadas da zona.
Fazia vista um terreno assim. Até consegui arrastar a minha mulher para
os trabalhos agrícolas - ela que era uma alfacinha de gema e nunca tinha
pegado numa enxada antes de nos conhecermos.
Por várias vezes tive propostas para vender o terreno. Houve quem me
dissesse que eu podia fazer um bom dinheiro. Mas eu nunca quis. Aquilo
que no princípio era um simples rectângulo de terra tornou-se num pedaço
de mim.
Tantas horas passei ali quando estava alegre e quando estava
triste, quando estava com aqueles que amo ou quando estava sozinho.
Sempre que precisava de pôr as ideias em ordem pegava no carro e ia até
lá. Sentava-me no chão e ficava horas assim.
Até que um dia veio o fogo. Um incêndio florestal chegou às imediações
em menos de nada e queimou-me tudo. Nesse dia estava na maternidade
porque ia nascer o meu terceiro filho. Nunca tinha compreendido até
então como um mesmo dia pode ser tão feliz e tão infeliz em simultâneo.
Quando recebi a notícia do incêndio fui para o terreno o mais depressa
que pude, mas quando lá cheguei só encontrei terra queimada. Era como se
tivesse morrido um pedaço de mim. Chorei como uma criança.
Apesar de toda a gente me incitar a pôr de novo mãos à obra, decidi não
arriscar mais. Decidi tentar esquecer a terra. Convenci a minha mulher a
voltar para Lisboa. Pensei que a vivência da cidade me iria fazer
esquecer o mundo rural onde fora tão feliz.
Não podia estar mais
enganado. Já se passaram 30 anos e hoje ainda sofro por ter vendido a
terra que me deixou tão boas recordações e que agora não passa de um pedaço de terra onde há uma pocilga.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Aniversário
À entrada havia uma buganvília. Vermelha. Frondosa. Do lado de dentro do muro um jardim recheado de arbustos com pequenas flores coloridas. A casa branca e baixa espelhava o sol de Verão. O espaço refletia a alegria que a família vivia naquele dia em que Tânia fazia 18 anos.
Os empregados de mesa afadigavam-se a transportar travessas de comida para as mesas dispostas em rectângulo à volta da piscina. A dona da casa dava ordens de forma enérgica para que tudo estivesse em ordem quando chegassem os convidados para a festa da filha. Só Tânia não estava feliz.
Toda a sua vida estava programada desde o seu nascimento. E toda a gente sabia que o passo que se seguia à festa do 18.• aniversário era a ida para uma universidade privada na Suíça. Iria estudar gestão para ser futuramente a líder da empresa da família. Não passava pela cabeça de ninguém naquela família perguntar-lhe o que é que ela queria fazer com a sua vida. Ela não podia ter vontade própria.
Por isso mesmo ela decidiu trocar-lhes às voltas. E fez tudo para engravidar do grande amor - o primeiro e único que tinha tido até então - que era o jardineiro da casa. O plano correu bem. Conseguiu e ia anunciá-lo no dia do aniversário.
O problema foi que nem tudo correu como esperado. Depois de cantarem os parabéns, Tânia pediu para dizer algumas palavras sobre aquele momento. Tinha a intenção de anunciar a gravidez da qual nem o pai do bebé tinha conhecimento. Mas teve uma quebra de tensão e desmaiou, caindo para dentro da piscina. Bateu com a cabeça na esquina e ficou a sangrar.
Já no hospital fizeram-lhe exames e descobriram que estava grávida. Os médicos contaram aos pais, que a confrontaram com esta notícia. E lhe disseram prontamente que tinham decidido que ela ia fazer um aborto.
Só que pela primeira vez na vida Tânia fez-lhes frente e recusou-se a cumprir uma ordem. Ameaçaram deserdá-la sem saberem que seria um alívio para ela tal destino. Ela e o pai do filho estavam livres para fazerem o que quisessem da vida. Mal sonhavam naquela altura que iriam ser obrigados a pedir emprego na cadeia de supermercados da família por não arranjarem trabalho em mais lado nenhum.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Comboio
Muitas pessoas não têm consciência de como uma conversa de circunstância
pode aplacar a solidão de alguém. Hoje entrei num elevador de um prédio
juntamente com um homem dos seus 80 anos que tinha um saco de
supermercado na mão. Estava curvado pelo peso dos anos. Quem olhava para
a roupa e para os óculos pensava logo que teria vindo numa cápsula do
tempo dos anos 70 para 2015.
Carreguei no número do andar para o qual queria ir. O oitavo. Ele carregou no quinto. Olhou para mim e a sorrir perguntou se eu morava no céu. Com alguma graça, porque eu ia para o último andar do prédio. Sorri e disse que ia apenas visitar alguém que morava lá. Foi então que reparei no capachinho que lhe encimava a fronte. Há muito tempo que não via ninguém de capachinho.
Na viagem até ao quinto andar comentou ainda o estado do tempo, como os portugueses tanto gostam. Está muito calor. O que é natural, respondi. É meio-dia e estamos em Julho. Se não estiver calor no Verão quando vai estar? Concordou comigo. Reparei que o olhar é de quem passa muito tempo sozinho e tem a vista enevoada pela tristeza.
Fiquei a pensar nele durante o resto do dia. Fiquei a imaginar como seria a sua vida solitária. Quantas horas passa na solidão sem ter com quem falar. Quantas pessoas queridas já viu partir. Ou talvez nunca as tenha tido.
Dizem que a vida é como uma viagem. E há algumas mais longas do que as outras. Eu diria que é mais como uma viagem de comboio. Este é composto por várias carruagens, que são as fases da vida - somos bebés, crianças, jovens, adultos e idosos.
Nessas várias carruagens vão entrando pessoas. E outras vão saindo. Há algumas que ficam pouco tempo nas nossas vidas. Outras que nos acompanham sempre e ainda outras que entram mais tarde e vão connosco até à última carruagem, ajudando a suportar os contratempos da viagem. Estão presentes nos bons e nos maus momentos.
O certo é que na recta final da viagem a velocidade abranda. São cada vez menos as pessoas dentro da carruagem. Há muitos solavancos nesta parte da viagem. É fácil saber quem gosta de nós e se importa connosco nesta fase da vida.
Talvez o homem que se cruzou comigo no elevador tivesse muito pouca gente - ou quem sabe ninguém - na sua última carruagem. Há muita gente que vai sozinha pelos carris da vida e por isso a viagem parece mais difícil do que pareceria se tivessem com quem partilhar a sucessão dos dias.
Nada é para sempre, bem sei. Mas há pessoas quem nem chegam a aquecer o lugar onde se sentam na carruagem. Às vezes é doloroso ver as pessoas sair do comboio, sobretudo em andamento.
Nestes casos é preferível pensar que foi por alguma boa razão que entraram na carruagem, mesmo que depois tenham saído. Fizeram crescer um pouco e aprender com os erros.
Na volta, sem sabermos, era importante para nós que entrassem naquele ponto da viagem, mesmo que viessem a sair pouco depois. E a deixar a carruagem mais vazia, ficando para trás os ecos de uma curta passagem plena de tristeza ou de felicidade.
Carreguei no número do andar para o qual queria ir. O oitavo. Ele carregou no quinto. Olhou para mim e a sorrir perguntou se eu morava no céu. Com alguma graça, porque eu ia para o último andar do prédio. Sorri e disse que ia apenas visitar alguém que morava lá. Foi então que reparei no capachinho que lhe encimava a fronte. Há muito tempo que não via ninguém de capachinho.
Na viagem até ao quinto andar comentou ainda o estado do tempo, como os portugueses tanto gostam. Está muito calor. O que é natural, respondi. É meio-dia e estamos em Julho. Se não estiver calor no Verão quando vai estar? Concordou comigo. Reparei que o olhar é de quem passa muito tempo sozinho e tem a vista enevoada pela tristeza.
Fiquei a pensar nele durante o resto do dia. Fiquei a imaginar como seria a sua vida solitária. Quantas horas passa na solidão sem ter com quem falar. Quantas pessoas queridas já viu partir. Ou talvez nunca as tenha tido.
Dizem que a vida é como uma viagem. E há algumas mais longas do que as outras. Eu diria que é mais como uma viagem de comboio. Este é composto por várias carruagens, que são as fases da vida - somos bebés, crianças, jovens, adultos e idosos.
Nessas várias carruagens vão entrando pessoas. E outras vão saindo. Há algumas que ficam pouco tempo nas nossas vidas. Outras que nos acompanham sempre e ainda outras que entram mais tarde e vão connosco até à última carruagem, ajudando a suportar os contratempos da viagem. Estão presentes nos bons e nos maus momentos.
O certo é que na recta final da viagem a velocidade abranda. São cada vez menos as pessoas dentro da carruagem. Há muitos solavancos nesta parte da viagem. É fácil saber quem gosta de nós e se importa connosco nesta fase da vida.
Talvez o homem que se cruzou comigo no elevador tivesse muito pouca gente - ou quem sabe ninguém - na sua última carruagem. Há muita gente que vai sozinha pelos carris da vida e por isso a viagem parece mais difícil do que pareceria se tivessem com quem partilhar a sucessão dos dias.
Nada é para sempre, bem sei. Mas há pessoas quem nem chegam a aquecer o lugar onde se sentam na carruagem. Às vezes é doloroso ver as pessoas sair do comboio, sobretudo em andamento.
Nestes casos é preferível pensar que foi por alguma boa razão que entraram na carruagem, mesmo que depois tenham saído. Fizeram crescer um pouco e aprender com os erros.
Na volta, sem sabermos, era importante para nós que entrassem naquele ponto da viagem, mesmo que viessem a sair pouco depois. E a deixar a carruagem mais vazia, ficando para trás os ecos de uma curta passagem plena de tristeza ou de felicidade.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Magnetismo
Duas noites parece pouco, mas podem durar uma eternidade. Uma mão
estendida pode parecer uma ajuda, mas pode estar a puxar-nos para um
poço. Nem tudo o que parece é. Nem sempre as pessoas são o que aparentam
ser.
Foi num fim de tarde de Verão que vi pela primeira vez a mulher mais fantástica que já conheci. Eu estava sentado na esplanada da praia a beber uma cerveja antes de ir para casa. No momento em que pouso o copo gelado na mesa os meus olhos pousam nela.
Alta, morena, bem-constituída. O sol salgava-lhe a pele banhada de areia. Tinha um olhar verde profundo, enigmático, magnético. Vinha enrolada num daqueles panos de praia que as mulheres usam. E vinha na minha direcção. Eu estava em êxtase com aquela visão quando ela tropeçou e caiu a meus pés.
Peguei naquelas mãos delicadas e ajudei-a a levantar-se. Ela agradeceu com um sorriso que me apertou o coração. Ofereci-lhe uma água ou o que quisesse para que se recompusesse. Acenou positivamente com a cabeça. Ficámos à conversa por largas horas. Até o bar fechar. Na mesa ficou um monte de pratos esvaziados de petiscos e de copos nus.
Nunca tinha conhecido uma mulher tão bonita e com uma história de vida tão impressionante. Dava gosto ouvir também as suas opiniões e a sua visão do mundo. Conversar com ela era um prazer. Decidi convidá-la para beber um licor em minha casa. Aceitou o convite. Seguiu-me num pequeno carro utilitário até minha casa. Entrámos, servi o licor. Ela pediu um copo de água. Fui à cozinha buscar. Não me lembro do que se passou a seguir.
Só sei que acordei no chão do meu quarto. Estava vestido. Fita-cola grossa tapava-me a boca e envolvia-me os pés e as mãos. Olhei à volta e não restava nada a não ser os móveis e a estrutura da cama.
Decidi arrastar-me e procurar o telefone de casa. Quando finalmente cheguei à sala, vi que estava vazia. Só ficaram os sofás. Comecei a entrar em desespero. Ainda me arrastei lentamente até à porta para fazer barulho batendo com os pés na porta. Mas ninguém me ouvia. Os vizinhos deviam estar todos fora.
Não sei quanto tempo permaneci imóvel no chão. Sei que pareceu uma eternidade. Tinha fome, tinha sede, tinha vontade de ir à casa-de-banho. Pensei em formas de me desenvencilhar da fita-cola, mas nada me ocorria.
Acabei por adormecer no meio do desespero. Fui acordado por uma chave que rodava na porta. Era a mulher que me vinha limpar a casa uma vez por semana.
Afinal era terça-feira. E eu fui roubado e enganado por aquela mulher no domingo. Nunca mais consegui confiar em desconhecidas.
Foi num fim de tarde de Verão que vi pela primeira vez a mulher mais fantástica que já conheci. Eu estava sentado na esplanada da praia a beber uma cerveja antes de ir para casa. No momento em que pouso o copo gelado na mesa os meus olhos pousam nela.
Alta, morena, bem-constituída. O sol salgava-lhe a pele banhada de areia. Tinha um olhar verde profundo, enigmático, magnético. Vinha enrolada num daqueles panos de praia que as mulheres usam. E vinha na minha direcção. Eu estava em êxtase com aquela visão quando ela tropeçou e caiu a meus pés.
Peguei naquelas mãos delicadas e ajudei-a a levantar-se. Ela agradeceu com um sorriso que me apertou o coração. Ofereci-lhe uma água ou o que quisesse para que se recompusesse. Acenou positivamente com a cabeça. Ficámos à conversa por largas horas. Até o bar fechar. Na mesa ficou um monte de pratos esvaziados de petiscos e de copos nus.
Nunca tinha conhecido uma mulher tão bonita e com uma história de vida tão impressionante. Dava gosto ouvir também as suas opiniões e a sua visão do mundo. Conversar com ela era um prazer. Decidi convidá-la para beber um licor em minha casa. Aceitou o convite. Seguiu-me num pequeno carro utilitário até minha casa. Entrámos, servi o licor. Ela pediu um copo de água. Fui à cozinha buscar. Não me lembro do que se passou a seguir.
Só sei que acordei no chão do meu quarto. Estava vestido. Fita-cola grossa tapava-me a boca e envolvia-me os pés e as mãos. Olhei à volta e não restava nada a não ser os móveis e a estrutura da cama.
Decidi arrastar-me e procurar o telefone de casa. Quando finalmente cheguei à sala, vi que estava vazia. Só ficaram os sofás. Comecei a entrar em desespero. Ainda me arrastei lentamente até à porta para fazer barulho batendo com os pés na porta. Mas ninguém me ouvia. Os vizinhos deviam estar todos fora.
Não sei quanto tempo permaneci imóvel no chão. Sei que pareceu uma eternidade. Tinha fome, tinha sede, tinha vontade de ir à casa-de-banho. Pensei em formas de me desenvencilhar da fita-cola, mas nada me ocorria.
Acabei por adormecer no meio do desespero. Fui acordado por uma chave que rodava na porta. Era a mulher que me vinha limpar a casa uma vez por semana.
Afinal era terça-feira. E eu fui roubado e enganado por aquela mulher no domingo. Nunca mais consegui confiar em desconhecidas.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Distâncias
Os longos braços abetos transformaram-se num abraço que envolveu por completo a pequena criança. A pele luzidia e negra de ambos parecia gritar felicidade. A mulher rodopiava o filho incessantemente no ar num sorriso comum a ambos. Até que o miúdo pediu à mãe que o pusesse no chão.
Uma estação de comboios tem destas coisas. Os reencontros ou os pontos finais nas separações físicas de pessoas que se querem muito. Mas tem também o oposto. Os que partem para mais longe ou mais perto, os que vão por mais ou menos tempo.
Como o casal de idosos que entrou no comboio lavado em lágrimas, deixando do lado de fora da cidade uma família a acenar. Ou a namorada que ficou em terra a morder o lábio enquanto escreve uma mensagem de amor no telemóvel para o rapaz que vai sentado na primeira carruagem fardado de branco.
Porque não podem estar sempre perto aqueles que amamos? Porque há distâncias físicas tão grandes a separar quem nunca se queria longe? Há muitas respostas ou talvez nenhuma. O facto é que quando se reencontram duas pessoas que se querem bem a sensação é de que é preciso aproveitar a vida intensamente até que um comboio ou outro meio de transporte qualquer os separe de novo.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Céu estrelado
Tinha anoitecido há pouco. O céu ainda era mais claro do
lado em que o sol se tinha posto. As estrelas começavam timidamente a aparecer
no firmamento. As cigarras cantavam num prenúncio de noite quente. Os
pirilampos começavam a semear pontos de luz amarela pelo meio dos pinheiros.
Vítor sentia-se num paraíso. Não podia estar melhor. Aliás, podia. Se a namorada se calasse um segundo. Não parava de se queixar das picadas de insectos.
Ana estava sentada ao lado, numa manta estendida no chão
atapetado de agulhas de pinheiro. A mão esquerda coçava o pescoço enquanto a
mão direita coçava a testa. Não parava de rogar pragas aos mosquitos e às
melgas. Se soubesse que ia ser assim nunca tinha concordado em acampar com o
namorado.
Era a primeira vez na vida em que não ia dormir numa cama. Uma tenda, um saco-cama, dormir no campo - eram experiências novas. E estava a detestar.
Pelo contrário, João já tinha acampado dezenas de vezes. E adorava. O que mais gostava era poder ver o céu estrelado. Adorava olhar para os planetas e constelações longe das luzes da cidade. Apontava os dedos para cima e ia desenhando as formas do que ao simples leigo parecem apenas pequenos pontos de luz no negro firmamento.
Esta era a primeira vez em que acampava com Ana. E foi a primeira vez em que detestou acampar. Passar a noite a aturar as manias e queixas dela foi um verdadeiro pesadelo.
Na altura em que teve a ideia de acamparem juntos mal
sonhava que esta noite iria pôr fim à relação. Há uma música que diz que não se
ama alguém que não ouve a mesma canção. João diria que não se ama alguém que em
relação à vida não tem a mesma visão.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Índia
Acordei a sufocar. Na realidade não tinham passado mais de cinco minutos
desde que tinha olhado para o relógio pela última vez.
Não consigo dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia.
E que devo contar carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11 anos de vida.
Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe. Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.
Mas não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de Portugal.
O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho.
Antes de morrer ela disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas. Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito inigualável na nossa mente.
Regressamos outra pessoa. Mais rica e com uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer, mas espero descobrir quando voltar a Portugal.
Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só sei que as ruas são sujas e cheias de vacas.
Há gente por todo o lado, num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem simpáticas.
Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha cidade e da minha mãe.
Não consigo dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia.
E que devo contar carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11 anos de vida.
Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe. Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.
Mas não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de Portugal.
O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho.
Antes de morrer ela disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas. Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito inigualável na nossa mente.
Regressamos outra pessoa. Mais rica e com uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer, mas espero descobrir quando voltar a Portugal.
Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só sei que as ruas são sujas e cheias de vacas.
Há gente por todo o lado, num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem simpáticas.
Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha cidade e da minha mãe.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Noite
A noite era escura como breu. Escuridão por fora. Escuridão por dentro de mim. Tinha pegado no volante há uma meia-hora e conduzia sem destino. Só me apetecia fugir de tudo e de todos. Pena não poder fugir de mim.
O relógio marcava oito horas. Vesti-me e fui apressadamente para o banco. Quando lá cheguei apercebi-me que tinham passado dois dias. Mas ninguém acreditava na minha história e diziam que era alucinação de bêbado. O que valeu foi que cheguei a horas e não cheirava a água-ardente nesse dia. Não sei explicar como, mas desde então não toco numa gota de álcool.
Não conseguia admitir que me tinha tornado num alcoólico, que só vivia com comprimidos e licor barato. Não conseguia admitir que pudesse ter perdido a minha família por causa disso. Primeiro foi a minha mulher que me deixou. Naquela noite acabei com a vida da minha filha ao envergonhá-la perante o noivo.
A minha vida já não tinha sentido naquela noite. Ainda por cima o meu clube tinha perdido o campeonato de futebol. Nada mais me restava. Até o emprego no banco estava em vias de perder por causa dos meus atrasos pela manhã e do meu hálito a água-ardente que incomodava os clientes.
A minha vida já não tinha sentido naquela noite. Ainda por cima o meu clube tinha perdido o campeonato de futebol. Nada mais me restava. Até o emprego no banco estava em vias de perder por causa dos meus atrasos pela manhã e do meu hálito a água-ardente que incomodava os clientes.
Pensando em tudo o que o álcool estava a fazer na minha vida só me sentia perdido, porque não sabia como sair daquele beco sem saída em que me sentia.
Foi nessa altura em que conduzia sem destino pela noite escura numa estrada rural que vi uma luz muito clara que não me deixava ver o caminho. O carro parou sozinho e quando dei por mim estava a ser puxado para a rua por um extraterrestre. Levou-me para a nave.
Lembro-me que lá dentro estava um humano que me disse para não ter medo, porque eles só queriam fazer experiências científicas comigo. Não me lembro de mais nada. Só me lembro que acordei na minha cama.
Lembro-me que lá dentro estava um humano que me disse para não ter medo, porque eles só queriam fazer experiências científicas comigo. Não me lembro de mais nada. Só me lembro que acordei na minha cama.
O relógio marcava oito horas. Vesti-me e fui apressadamente para o banco. Quando lá cheguei apercebi-me que tinham passado dois dias. Mas ninguém acreditava na minha história e diziam que era alucinação de bêbado. O que valeu foi que cheguei a horas e não cheirava a água-ardente nesse dia. Não sei explicar como, mas desde então não toco numa gota de álcool.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Espião
Quando me tornei espião em 1969 nunca imaginei no que me iria tornar. Esta "profissão" deu-me muitas vantagens, mas também me trouxe dissabores.
No capítulo das coisas boas conto as boas missões que fiz, que me deram satisfação pessoal e profissional. Viajei por todo o mundo, conheci pessoas fantásticas e lugares incríveis, tive experiências que não teria tido a oportunidade de ter se nunca tivesse saído da minha aldeiazinha da Beira Baixa. Conheci mulheres lindas que deixariam qualquer homem em êxtase.
Mas a verdade é que não pude dar a felicidade que merecia a única mulher que verdadeiramente me amou em toda a minha vida - e que eu também amei apesar de durante muitos anos não me aperceber disso. A mulher com quem casei ainda antes de ser espião, a mãe dos meus quatro filhos, a avó dos meus oito netos. Quem me dera poder voltar atrás para poder valorizá-la mais.
Também negativo foi não ter visto os meus filhos e os meus netos nascer e crescer. Não ter acompanhado os primeiros passos, palavras, papas, nem sequer o primeiro dia de escola ou de faculdade. Até faltei ao casamento de dois filhos.
Para além disso, vivi a minha vida dupla baseada num chorrilho de mentiras. Chega a um ponto em que já não se sabe o que é verdade ou não. Um espião é um mentiroso profissional. Só que, olhando agora para trás, tomo consciência de que não há verdade na minha vida. A única verdade era mesmo a minha família, mas até isso me tiraram.
Afinal, a minha mulher procurou consolo noutros homens e os dois filhos do meio são de um outro homem. Um amigo meu de infância. Portanto, a única réstia de verdade que existia na minha vida desvaneceu. Morreu. Tal como eu vou morrer quando terminar esta carta.
Não culpem a vossa mãe, porque o único culpado sou eu. Não peço o vosso perdão, mas quero apenas que saibam finalmente quem fui na realidade e o que fiz de verdade em toda a minha vida. Hoje sei que vos amo mais do que tudo - aos quatro, pois amo-vos todos por igual. Eu tinha que vos proteger e fi-lo. Mas já chega. Não suporto mais. Chegou a hora de pôr termo a todas as mentiras e engodos.
Até sempre,
O vosso pai.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Puto
Nunca pensei que chegasse a este ponto. Sou puto, sim, confesso.
Prostituto, melhor dizendo. Faço isto há três anos e já não sei como
sair desta vida.
Na altura estava farto de estar desempregado. Fiz um curso superior, estudei anos e anos graças ao sacrifício dos meus pais, mas depois não tinha emprego. Nem como designer, nem de qualquer outra forma. Para já, custa muito veres o teu sonho de ser designer ir por água abaixo. Depois de tanta nega, lá te mentalizas que tens que procurar outro emprego. Mas nem isso eu consegui.
Tentei tudo e mais alguma coisa - desde empregado de supermercado a segurança de discoteca. Não consegui. Cheguei a um ponto em que estava desesperado. E não queria pedir ajuda a ninguém e muito menos aos meus pais.
Lá longe em Trás-os-Montes, achavam que eu trabalhava num supermercado quando na verdade eu vivia de pequenos trabalhos de freelancer, que mal me davam para comer. É que na realidade eu nem sequer tinha subsídio de desemprego, porque nunca tinha trabalhado.
Um dia abri um jornal nas páginas dos classificados, enquanto trincava uma sandes ao almoço. Foi o princípio desta vida que levo hoje. Comecei a pôr anúncios em jornais. Tornei-me prostituto ao domicílio para satisfazer os desejos de mulheres carentes.
A maioria são mulheres ricas de homens de negócios que passam a vida a viajar. Mulheres cujos casamentos acabaram há muito, mas que querem continuar a sentir-se vivas.
Muitas vezes nem chego a tirar a roupa. É mais um trabalho de psicólogo. Fico horas a ouvi-las falar e a fazer-lhes companhia.
Uma vez ia correndo mal, porque a filha e o genro chegaram mais cedo a casa e tive que me esconder no quarto dela até que estivessem a dormir.
O facto é que é uma vida boa. Ganho muito dinheiro e tenho um horário flexível. Não preciso de me consumir num trabalho rotineiro, nem de obedecer a chefes. Já comprei a minha casa, o meu carro e tenho tudo o que preciso de comprar com dinheiro. O reverso da medalha é que estou mais sozinho do que nunca.
A mentira afasta-nos do mundo. E a mentira que fui contando aos meus amigos e família sobre a minha vida afastou-me de todos. Nem sequer tenho Facebook para não correr o risco de ser descoberto.
Vivo na solidão. Só um amigo meu é que sabe a verdade. Há dias que passo a chorar com nojo de mim. Sinto que me vendi, que perdi a dignidade, que há três anos havia outras hipóteses de trabalho e eu é que optei pelo mais fácil. Mas não sei como sair deste ciclo vicioso.
Agora tenho um problema de consciência adicional. Comecei a namorar com uma rapariga, mas não sei como lhe contar a verdade. Se souber o que eu faço, corro o risco de ficar sem ela. Se eu não lhe contar corro o risco de ela descobrir e também ficar sem ela. E agora? O que faço?
Na altura estava farto de estar desempregado. Fiz um curso superior, estudei anos e anos graças ao sacrifício dos meus pais, mas depois não tinha emprego. Nem como designer, nem de qualquer outra forma. Para já, custa muito veres o teu sonho de ser designer ir por água abaixo. Depois de tanta nega, lá te mentalizas que tens que procurar outro emprego. Mas nem isso eu consegui.
Tentei tudo e mais alguma coisa - desde empregado de supermercado a segurança de discoteca. Não consegui. Cheguei a um ponto em que estava desesperado. E não queria pedir ajuda a ninguém e muito menos aos meus pais.
Lá longe em Trás-os-Montes, achavam que eu trabalhava num supermercado quando na verdade eu vivia de pequenos trabalhos de freelancer, que mal me davam para comer. É que na realidade eu nem sequer tinha subsídio de desemprego, porque nunca tinha trabalhado.
Um dia abri um jornal nas páginas dos classificados, enquanto trincava uma sandes ao almoço. Foi o princípio desta vida que levo hoje. Comecei a pôr anúncios em jornais. Tornei-me prostituto ao domicílio para satisfazer os desejos de mulheres carentes.
A maioria são mulheres ricas de homens de negócios que passam a vida a viajar. Mulheres cujos casamentos acabaram há muito, mas que querem continuar a sentir-se vivas.
Muitas vezes nem chego a tirar a roupa. É mais um trabalho de psicólogo. Fico horas a ouvi-las falar e a fazer-lhes companhia.
Uma vez ia correndo mal, porque a filha e o genro chegaram mais cedo a casa e tive que me esconder no quarto dela até que estivessem a dormir.
O facto é que é uma vida boa. Ganho muito dinheiro e tenho um horário flexível. Não preciso de me consumir num trabalho rotineiro, nem de obedecer a chefes. Já comprei a minha casa, o meu carro e tenho tudo o que preciso de comprar com dinheiro. O reverso da medalha é que estou mais sozinho do que nunca.
A mentira afasta-nos do mundo. E a mentira que fui contando aos meus amigos e família sobre a minha vida afastou-me de todos. Nem sequer tenho Facebook para não correr o risco de ser descoberto.
Vivo na solidão. Só um amigo meu é que sabe a verdade. Há dias que passo a chorar com nojo de mim. Sinto que me vendi, que perdi a dignidade, que há três anos havia outras hipóteses de trabalho e eu é que optei pelo mais fácil. Mas não sei como sair deste ciclo vicioso.
Agora tenho um problema de consciência adicional. Comecei a namorar com uma rapariga, mas não sei como lhe contar a verdade. Se souber o que eu faço, corro o risco de ficar sem ela. Se eu não lhe contar corro o risco de ela descobrir e também ficar sem ela. E agora? O que faço?
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Buraco
Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar
por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora
aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um
tortuoso cano são insuportáveis.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
A cor dos sonhos
- De que cor são os sonhos, a que cheiram e a que sabem?
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida. Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa, tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica. Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor, sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos, porque só assim terás a vida que te fará feliz.
segunda-feira, 4 de maio de 2015
Furacão
Fecho os olhos e passam diante de mim crianças a correr. Riem, cantam e
gritam. Ouço a porta de casa a abrir e chega junto de mim o meu marido.
Pergunta-me por que estamos no jardim com este calor. Chama os miúdos e
põe-lhe os chapéus e os bonés na cabeça. Sinto a sua mão grande pousada na
minha barriga. Sorrimos.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Estrelas
No céu escuro sobressaíam alguns pontos brilhantes. Uns maiores do que
os outros. A noite de Primavera no campo dava ainda direito a uma
sinfonia de grilos. A cantoria chegava a ser ensurdecedora.
João olhava para as estrelas e procurava o seu significado com a ajuda de uma aplicação de telemóvel quando o avô se fez anunciar com a sua tosse característica.
- P'ra qu'é essa traquitana que tens a apontar para o céu?
- É para ver as constelações, vô.
- Sabes bem que não preciso de nada disso.
Resmungando entre dentes, o velho sentou-se no banco de pedra e foi desenhando linhas no céu com o dedo indicador. Mostrava os planetas e os conjuntos de estrelas, ao mesmo tempo que ia contando as histórias do costume.
- Ó rapaz, sabes o que é que se vê na lua? É um homem com uma foice na mão a cortar silvas. Foi mandado para lá de castigo por trabalhar ao domingo, sabias?
- Sim, vô, já me tinhas dito. Tenho que ir dormir, que amanhã é dia de te ajudar na horta. O trabalho vai ser duro.
A meio da noite, João acordou com suores frios. Olhou à volta e esfregou os olhos. Não se lembrava de onde estava. Acendeu a luz. Estava em casa dos avós. Ao lado, a sua mulher dormia profundamente. Mas ele não conseguia fechar os olhos, porque ainda tinha bem presente o sonho que o fez acordar.
Estava na rua com o avô a olhar para o céu de fim de tarde quando viram do lado nascente dezenas de pequenas naves espaciais. Umas combatiam contra as outras.
Eram todas iguais, sombras pretas recortadas no horizonte, mas de umas saíam raios de luz vermelhos e de outros saíam raios de luz verdes. Iam ficando cada vez maiores, o que dava impressão de que estavam a aproximar-se.
O avô começou a gritar que viessem salvá-lo dos terráqueos. Acto contínuo, começou a esfregar a cara e a tirar o plástico que lhe dava a aparência humana. Abriu um fecho de alto a baixo do corpo. Parecia que estava a despir um fato-macaco.
Lá de dentro saiu uma criatura extraterrestre, verde e azul. Cresceram-lhe rapidamente duas antenas e os olhos esbugalhados vermelhos irradiavam luz como uns faróis de um carro. Agarrou na mão do neto a gritar.
- João, tu não és deste mundo. E eu também não. Viemos cá para salvar os humanos, mas eles não quiseram preservar o planeta deles. Está na hora de irmos embora. No nosso sistema solar precisam de nós para transmitimos os conhecimentos que aprendemos na Terra. Para a semana tens que dar um workshop de agricultura.
- O quê? Mas eu não percebo nada do assunto! Foi para isso que me chamaste cá este fim-de-semana? Mais valia ter ido com a Miranda à praia.
O diálogo estranho entre avô e neto seria interrompido por um raio que caiu entre eles, abrindo uma fenda na estrada. O espaço entre eles foi aumentando e do chão brotou uma nave espacial colorida e brilhante. Uma luz branca puxava João para dentro do aparelho quando acordou e se apercebeu de que tudo não tinha passado de um sonho.
Pelo sim, pelo não, foi espreitar o avô ao quarto dele. Pé ante pé, percorreu o corredor até à porta amarela. Rodou a maçaneta e empurrou o rectângulo de madeira com cuidado para não o acordar.
Olhou em frente e viu que o avô não estava na cama. À direita estava uma cadeira com uma espécie de fato-macaco que era a fotocópia do avô. Parecia mesmo aquele que o tinha visto despir.
Aterrado, mas sem conseguir deixar de espreitar para o quarto, João avançou e instintivamente olhou para a janela.
Do lado de fora não havia árvores, nem erva, nem flores, nem montanhas. Aquela não era a paisagem que rodeava a casa do avô. Do lado de fora havia montes brancos e uma paisagem árida. O céu era de um verde fluorescente e nele passeavam pequenas naves espaciais de várias cores. Confuso, João levou as mãos à cabeça e gritou.
- Onde é que estou?
Nesse momento, sentiu um toque frio no ombro esquerdo. Olhou para trás e lá estava o avô com formas extraterrestres.
João olhava para as estrelas e procurava o seu significado com a ajuda de uma aplicação de telemóvel quando o avô se fez anunciar com a sua tosse característica.
- P'ra qu'é essa traquitana que tens a apontar para o céu?
- É para ver as constelações, vô.
- Sabes bem que não preciso de nada disso.
Resmungando entre dentes, o velho sentou-se no banco de pedra e foi desenhando linhas no céu com o dedo indicador. Mostrava os planetas e os conjuntos de estrelas, ao mesmo tempo que ia contando as histórias do costume.
- Ó rapaz, sabes o que é que se vê na lua? É um homem com uma foice na mão a cortar silvas. Foi mandado para lá de castigo por trabalhar ao domingo, sabias?
- Sim, vô, já me tinhas dito. Tenho que ir dormir, que amanhã é dia de te ajudar na horta. O trabalho vai ser duro.
A meio da noite, João acordou com suores frios. Olhou à volta e esfregou os olhos. Não se lembrava de onde estava. Acendeu a luz. Estava em casa dos avós. Ao lado, a sua mulher dormia profundamente. Mas ele não conseguia fechar os olhos, porque ainda tinha bem presente o sonho que o fez acordar.
Estava na rua com o avô a olhar para o céu de fim de tarde quando viram do lado nascente dezenas de pequenas naves espaciais. Umas combatiam contra as outras.
Eram todas iguais, sombras pretas recortadas no horizonte, mas de umas saíam raios de luz vermelhos e de outros saíam raios de luz verdes. Iam ficando cada vez maiores, o que dava impressão de que estavam a aproximar-se.
O avô começou a gritar que viessem salvá-lo dos terráqueos. Acto contínuo, começou a esfregar a cara e a tirar o plástico que lhe dava a aparência humana. Abriu um fecho de alto a baixo do corpo. Parecia que estava a despir um fato-macaco.
Lá de dentro saiu uma criatura extraterrestre, verde e azul. Cresceram-lhe rapidamente duas antenas e os olhos esbugalhados vermelhos irradiavam luz como uns faróis de um carro. Agarrou na mão do neto a gritar.
- João, tu não és deste mundo. E eu também não. Viemos cá para salvar os humanos, mas eles não quiseram preservar o planeta deles. Está na hora de irmos embora. No nosso sistema solar precisam de nós para transmitimos os conhecimentos que aprendemos na Terra. Para a semana tens que dar um workshop de agricultura.
- O quê? Mas eu não percebo nada do assunto! Foi para isso que me chamaste cá este fim-de-semana? Mais valia ter ido com a Miranda à praia.
O diálogo estranho entre avô e neto seria interrompido por um raio que caiu entre eles, abrindo uma fenda na estrada. O espaço entre eles foi aumentando e do chão brotou uma nave espacial colorida e brilhante. Uma luz branca puxava João para dentro do aparelho quando acordou e se apercebeu de que tudo não tinha passado de um sonho.
Pelo sim, pelo não, foi espreitar o avô ao quarto dele. Pé ante pé, percorreu o corredor até à porta amarela. Rodou a maçaneta e empurrou o rectângulo de madeira com cuidado para não o acordar.
Olhou em frente e viu que o avô não estava na cama. À direita estava uma cadeira com uma espécie de fato-macaco que era a fotocópia do avô. Parecia mesmo aquele que o tinha visto despir.
Aterrado, mas sem conseguir deixar de espreitar para o quarto, João avançou e instintivamente olhou para a janela.
Do lado de fora não havia árvores, nem erva, nem flores, nem montanhas. Aquela não era a paisagem que rodeava a casa do avô. Do lado de fora havia montes brancos e uma paisagem árida. O céu era de um verde fluorescente e nele passeavam pequenas naves espaciais de várias cores. Confuso, João levou as mãos à cabeça e gritou.
- Onde é que estou?
Nesse momento, sentiu um toque frio no ombro esquerdo. Olhou para trás e lá estava o avô com formas extraterrestres.
segunda-feira, 20 de abril de 2015
Decisões
Ela estava cansada de ver todos os dias as mesmas pessoas, os mesmos
passeios, as mesmas casas, as mesmas estradas, as mesmas árvores.
Detestava a rotina. Acordar, levantar, tomar um duche, vestir, comer, lavar os dentes, apanhar o elétrico e ir para o trabalho. Lidar com clientes mal-educados, mal-dispostos, mal-encarados. Sorrir. Sorrir, mesmo quando lhe dava vontade de lhes dar uma resposta torta. A mesma que lhe apetecia dar ao chefe quando se armava em rei da loja.
Com esta vida infernal, o único consolo era um mealheiro enorme de barro que tinha comprado há três anos.
Finalmente estava cheio. Passou três noites a olhar para ele. Finalmente estava cheio, tendo dinheiro suficiente para cumprir o desígnio para o qual foi comprado. Poderia fazer uma viagem. Só ainda não sabia para onde iria. Passou três noites a olhar para ele, até escolher três países para onde queria viajar. Japão, Índia e Austrália. Estes seriam obrigatórios e o resto logo se veria.
No dia seguinte fez tudo aquilo que sempre quis fazer. Respondeu mal aos clientes, insultou o chefe, despediu-se da loja. Avisou que nunca mais lá poria os pés.
Como ainda eram duas da tarde e na véspera tinha recebido o ordenado do mês, foi a um restaurante de um hotel de cinco estrelas. A seguir ao almoço foi ao SPA e foi fazer compras à Avenida da Liberdade. Foi para casa de táxi.
Ao chegar a casa teve uma visão que não esperava. Tinham assaltado o apartamento. A porta tinha sido arrombada e estava tudo de pantanas. Foi a correr para o quarto à procura do mealheiro. O porco de barro estava desfeito em mil pedaços.
Sofia desatou num pranto, rasgou a camisola de raiva, partiu o resto das coisas que os ladrões tinham deixado intactas. Não podia acreditar que isto lhe tinha acontecido. Estava sem emprego, tinha derretido quase todo o ordenado do mês naquela tarde, os ladrões levaram as coisas de valor da casa, e o pior era que tinham levado o dinheiro que tinha juntado no mealheiro durante três anos.
Toca o telemóvel. Olhou para o ecrã enevoado pelas lágrimas. É o palhaço do Vítor, pensou. Tinham sido namorados, mas ela tinha acabado com ele há três anos, porque queria ir viver para Lisboa e ele queria ficar no Fundão.
Continuava a olhar para o ecrã do telemóvel sem saber se queria falar com ele agora ou não. Decidiu atender. Afinal foi a decisão mais sensata que tomou naquele dia.
Ele estava a telefonar porque ganhou o jackpot do Euromilhões e queria convidá-la para fazer uma viagem à volta do mundo sem data para regressar. Sabia que era o sonho dela, acrescentou Vítor. Ela aceitou sem pensar duas vezes. O nosso destino somos nós próprios que o fazemos.
Detestava a rotina. Acordar, levantar, tomar um duche, vestir, comer, lavar os dentes, apanhar o elétrico e ir para o trabalho. Lidar com clientes mal-educados, mal-dispostos, mal-encarados. Sorrir. Sorrir, mesmo quando lhe dava vontade de lhes dar uma resposta torta. A mesma que lhe apetecia dar ao chefe quando se armava em rei da loja.
Com esta vida infernal, o único consolo era um mealheiro enorme de barro que tinha comprado há três anos.
Finalmente estava cheio. Passou três noites a olhar para ele. Finalmente estava cheio, tendo dinheiro suficiente para cumprir o desígnio para o qual foi comprado. Poderia fazer uma viagem. Só ainda não sabia para onde iria. Passou três noites a olhar para ele, até escolher três países para onde queria viajar. Japão, Índia e Austrália. Estes seriam obrigatórios e o resto logo se veria.
No dia seguinte fez tudo aquilo que sempre quis fazer. Respondeu mal aos clientes, insultou o chefe, despediu-se da loja. Avisou que nunca mais lá poria os pés.
Como ainda eram duas da tarde e na véspera tinha recebido o ordenado do mês, foi a um restaurante de um hotel de cinco estrelas. A seguir ao almoço foi ao SPA e foi fazer compras à Avenida da Liberdade. Foi para casa de táxi.
Ao chegar a casa teve uma visão que não esperava. Tinham assaltado o apartamento. A porta tinha sido arrombada e estava tudo de pantanas. Foi a correr para o quarto à procura do mealheiro. O porco de barro estava desfeito em mil pedaços.
Sofia desatou num pranto, rasgou a camisola de raiva, partiu o resto das coisas que os ladrões tinham deixado intactas. Não podia acreditar que isto lhe tinha acontecido. Estava sem emprego, tinha derretido quase todo o ordenado do mês naquela tarde, os ladrões levaram as coisas de valor da casa, e o pior era que tinham levado o dinheiro que tinha juntado no mealheiro durante três anos.
Toca o telemóvel. Olhou para o ecrã enevoado pelas lágrimas. É o palhaço do Vítor, pensou. Tinham sido namorados, mas ela tinha acabado com ele há três anos, porque queria ir viver para Lisboa e ele queria ficar no Fundão.
Continuava a olhar para o ecrã do telemóvel sem saber se queria falar com ele agora ou não. Decidiu atender. Afinal foi a decisão mais sensata que tomou naquele dia.
Ele estava a telefonar porque ganhou o jackpot do Euromilhões e queria convidá-la para fazer uma viagem à volta do mundo sem data para regressar. Sabia que era o sonho dela, acrescentou Vítor. Ela aceitou sem pensar duas vezes. O nosso destino somos nós próprios que o fazemos.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Ensinamentos
Houve um tempo em que eu não acreditava que existia uma força invisível
que nos puxa e nos impele a fazer determinadas acções sem percebermos
por que é que as fazemos e sem pensarmos como as fazemos. Depois conheci Lisboa. Então acreditei no fado.
O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.
Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês todos, que eu amo com todas as forças que me restam.
Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós - decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz. Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não reza a história.
Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro da família de uma amiga que acreditava no meu valor.
Fui para países distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita, voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época.
O resto da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro, nunca se esqueçam.
E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.
A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao longo do dia, maximizando o prazer de viver.
Também aprendemos com os erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a sua plenitude.
Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos.
Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.
Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.
Até sempre meus amores,
Filomena.
O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.
Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês todos, que eu amo com todas as forças que me restam.
Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós - decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz. Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não reza a história.
Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro da família de uma amiga que acreditava no meu valor.
Fui para países distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita, voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época.
O resto da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro, nunca se esqueçam.
E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.
A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao longo do dia, maximizando o prazer de viver.
Também aprendemos com os erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a sua plenitude.
Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos.
Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.
Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.
Até sempre meus amores,
Filomena.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Marionetas
Antigamente ela não acreditava nesta força invisível que prende ao chão ou
impele a tomar determinadas decisões em detrimento de outras.
Porém, agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de outra.
Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia, trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas para cumprir o desejo dos pais.
Fez a maior loucura que tinha feito na vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde trabalhava em Moscovo.
Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira. Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja sempre que voava para Moscovo.
Um dia convidou-a para almoçar, depois para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma amiga sempre que saía com João.
O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver.
Iulia estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que tanto desejava.
Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos outros do que a sua própria.
Assim que deixou de viver em função dos outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.
Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um espírito vibrante que irradiava alegria.
As colegas de trabalho riam tanto por tudo e por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a morrer por causa dela.
Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.
Carmen tinha um poder especial sobre ela, atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se fosse uma marioneta.
E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.
Porém, agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de outra.
Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia, trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas para cumprir o desejo dos pais.
Fez a maior loucura que tinha feito na vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde trabalhava em Moscovo.
Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira. Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja sempre que voava para Moscovo.
Um dia convidou-a para almoçar, depois para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma amiga sempre que saía com João.
O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver.
Iulia estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que tanto desejava.
Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos outros do que a sua própria.
Assim que deixou de viver em função dos outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.
Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um espírito vibrante que irradiava alegria.
As colegas de trabalho riam tanto por tudo e por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a morrer por causa dela.
Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.
Carmen tinha um poder especial sobre ela, atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se fosse uma marioneta.
E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.
segunda-feira, 30 de março de 2015
Corpo alheio
Todos os dias sinto-me prisioneiro dentro de um corpo que não é meu, que não reconheço como meu.
Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem. Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba, quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a engrossar.
Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado dos anos 60. Tive que emigrar.
Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia, mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.
Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para me aceitar.
A minha família não me aceita também. E eu não posso aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou.
Por isso, agora que olho pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva, tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo.
Vou tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.
Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem. Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba, quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a engrossar.
Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado dos anos 60. Tive que emigrar.
Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia, mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.
Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para me aceitar.
A minha família não me aceita também. E eu não posso aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou.
Por isso, agora que olho pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva, tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo.
Vou tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.
segunda-feira, 23 de março de 2015
O sentido da vida
Suspirou enquanto dava a última dentada na sandes enxabida que tinha ido
buscar à máquina para servir de almoço naquela segunda-feira maldita. O
relógio dizia que tinha que se despachar porque tinha muito trabalho para fazer naquele dia.
Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.
Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.
Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.
Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.
Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida.
Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então.
De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava.
Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.
Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.
Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.
Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.
Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.
Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida.
Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então.
De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava.
Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Amor
Não há maior e melhor amor na vida do que o amor por um filho. Já tive
muitos homens em meio século de vida, mas nenhum se equipara ao amor pelo meu filho.
O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais.
Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.
Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo - e sobretudo com a convivência.
Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.
Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo.
Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.
O amor por um qualquer homem só leva à perdição, à desgraça, à miséria, à ignomínia. Pelo contrário, o amor por um filho eleva-nos, torna-nos superiores e quase celestiais.
Temos a oportunidade de nos aperfeiçoarmos naquela figura e temos a ilusão de que podemos mudar o mundo com a sua educação. Pura ilusão. Mas impossível de ser afastada.
Facto é que nunca deixarei de amar o meu filho, ao passo que o amor por um homem muda de cambiante, transfigura-se e desvanesce com o tempo - e sobretudo com a convivência.
Não preciso desses amores banais para viver. São como fósforos. Existem às centenas. Acendem-se, iluminam e depois apagam-se. Mas não saberia viver sem o amor do meu filho.
Não conseguiria mais respirar se não o pudesse ver mais na vida. Ouvir a sua voz, abraçá-lo, beijá-lo. Preferia atirar-me para a morte, qual Anna Karenina. Não suportaria ficar sem o amor mais puro, verdadeiro e eterno que existe neste mundo.
Quem pensa de outro modo está enganado. Ou então teve a felicidade de encontrar um amor pleno num qualquer homem. Daqueles que se encontram uma vez de cem em cem anos.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Guerra
A noite escura traz-me os maus pensamentos que queria esquecer. Não consigo dormir e arrasto-me pela casa como um fantasma.
Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.
Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre.
Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas.
Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.
Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto.
É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.
A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei.
Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.
Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército.
Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.
Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.
Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre.
Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas.
Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.
Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto.
É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.
A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei.
Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.
Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército.
Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.
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