Acordei a sufocar. Na realidade não tinham passado mais de cinco minutos
desde que tinha olhado para o relógio pela última vez.
Não consigo
dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é
que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia.
E que devo contar
carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11
anos de vida.
Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe.
Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as
estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.
Mas
não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a
razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de
Portugal.
O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre
quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho.
Antes de morrer ela
disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas.
Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito
inigualável na nossa mente.
Regressamos outra pessoa. Mais rica e com
uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer,
mas espero descobrir quando voltar a Portugal.
Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a
pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só
sei que as ruas são sujas e cheias de vacas.
Há gente por todo o lado,
num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem
simpáticas.
Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer
passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é
parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha
cidade e da minha mãe.
Sem comentários:
Enviar um comentário