segunda-feira, 15 de junho de 2015

Índia

Acordei a sufocar. Na realidade não tinham passado mais de cinco minutos desde que tinha olhado para o relógio pela última vez. 

Não consigo dormir há várias noites e a única coisa que os adultos me sabem dizer é que tenho que me habituar ao calor sufocante da Índia. 

E que devo contar carneiros. Como se isso alguma vez tivesse resultado comigo nos meus 11 anos de vida.

Eu sei muito bem que o meu problema é só um: ter perdido a minha mãe. Morreu de cancro na semana passada. Não faleceu, nem partiu para as estrelas. Morreu. Tenho que o aceitar. Já sou uma menina crescida.


Mas não sei como explicar ao meu irmão de cinco anos. Nem sei como explicar a razão da nossa vinda para este país tão distante e diferente de Portugal.

O meu pai quis viajar. Diz que é uma homenagem à minha mãe, que sempre quis vir à Índia e nunca concretizou o sonho. 


Antes de morrer  ela disse-me que gostava que eu conhecesse outros países e culturas. Explicou-me que nunca somos a mesma pessoa no regresso de uma viagem. Ver coisas que nunca vimos produz um efeito inigualável na nossa mente. 

Regressamos outra pessoa. Mais rica e com uma visão mais abrangente da vida. Não sei bem o que isso quer dizer, mas espero descobrir quando voltar a Portugal.

Só sei que aqui está sempre tanto calor que não consigo dormir e acabo a pensar na minha mãe. Só sei que aqui a comida é picante e estranha. Só sei que as ruas são sujas e cheias de vacas. 


Há gente por todo o lado, num burburinho sem fim. Os rios são sujos. Mas as pessoas parecem simpáticas. 

Tenho que me habituar a este país, porque o meu pai quer passar cá um mês. Prometeu levar-me à praia e a Goa. Dizem que é parecido com Lisboa. Talvez assim eu não sinta tantas saudades da minha cidade e da minha mãe.

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