segunda-feira, 8 de junho de 2015

Noite

A noite era escura como breu. Escuridão por fora. Escuridão por dentro de mim. Tinha pegado no volante há uma meia-hora e conduzia sem destino. Só me apetecia fugir de tudo e de todos. Pena não poder fugir de mim. 


Não conseguia admitir que me tinha tornado num alcoólico, que só vivia com comprimidos e licor barato. Não conseguia admitir que pudesse ter perdido a minha família por causa disso. Primeiro foi a minha mulher que me deixou. Naquela noite acabei com a vida da minha filha ao envergonhá-la perante o noivo.

A minha vida já não tinha sentido naquela noite. Ainda por cima o meu clube tinha perdido o campeonato de futebol. Nada mais me restava. Até o emprego no banco estava em vias de perder por causa dos meus atrasos pela manhã e do meu hálito a água-ardente que incomodava os clientes.

Pensando em tudo o que o álcool estava a fazer na minha vida só me sentia perdido, porque não sabia como sair daquele beco sem saída em que me sentia.

Foi nessa altura em que conduzia sem destino pela noite escura numa estrada rural que vi uma luz muito clara que não me deixava ver o caminho. O carro parou sozinho e quando dei por mim estava a ser puxado para a rua por um extraterrestre. Levou-me para a nave. 

Lembro-me que lá dentro estava um humano que me disse para não ter medo, porque eles só queriam fazer experiências científicas comigo. Não me lembro de mais nada. Só me lembro que acordei na minha cama.

O relógio marcava oito horas. Vesti-me e fui apressadamente para o banco. Quando lá cheguei apercebi-me que tinham passado dois dias. Mas ninguém acreditava na minha história e diziam que era alucinação de bêbado. O que valeu foi que cheguei a horas e não cheirava a água-ardente nesse dia. Não sei explicar como, mas desde então não toco numa gota de álcool.

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