Tinha anoitecido há pouco. O céu ainda era mais claro do
lado em que o sol se tinha posto. As estrelas começavam timidamente a aparecer
no firmamento. As cigarras cantavam num prenúncio de noite quente. Os
pirilampos começavam a semear pontos de luz amarela pelo meio dos pinheiros.
Vítor sentia-se num paraíso. Não podia estar melhor. Aliás, podia. Se a namorada se calasse um segundo. Não parava de se queixar das picadas de insectos.
Ana estava sentada ao lado, numa manta estendida no chão
atapetado de agulhas de pinheiro. A mão esquerda coçava o pescoço enquanto a
mão direita coçava a testa. Não parava de rogar pragas aos mosquitos e às
melgas. Se soubesse que ia ser assim nunca tinha concordado em acampar com o
namorado.
Era a primeira vez na vida em que não ia dormir numa cama. Uma tenda, um saco-cama, dormir no campo - eram experiências novas. E estava a detestar.
Pelo contrário, João já tinha acampado dezenas de vezes. E adorava. O que mais gostava era poder ver o céu estrelado. Adorava olhar para os planetas e constelações longe das luzes da cidade. Apontava os dedos para cima e ia desenhando as formas do que ao simples leigo parecem apenas pequenos pontos de luz no negro firmamento.
Esta era a primeira vez em que acampava com Ana. E foi a primeira vez em que detestou acampar. Passar a noite a aturar as manias e queixas dela foi um verdadeiro pesadelo.
Na altura em que teve a ideia de acamparem juntos mal
sonhava que esta noite iria pôr fim à relação. Há uma música que diz que não se
ama alguém que não ouve a mesma canção. João diria que não se ama alguém que em
relação à vida não tem a mesma visão.
Sem comentários:
Enviar um comentário