segunda-feira, 22 de junho de 2015

Céu estrelado



Tinha anoitecido há pouco. O céu ainda era mais claro do lado em que o sol se tinha posto. As estrelas começavam timidamente a aparecer no firmamento. As cigarras cantavam num prenúncio de noite quente. Os pirilampos começavam a semear pontos de luz amarela pelo meio dos pinheiros.


Vítor sentia-se num paraíso. Não podia estar melhor. Aliás, podia. Se a namorada se calasse um segundo. Não parava de se queixar das picadas de insectos.


Ana estava sentada ao lado, numa manta estendida no chão atapetado de agulhas de pinheiro. A mão esquerda coçava o pescoço enquanto a mão direita coçava a testa. Não parava de rogar pragas aos mosquitos e às melgas. Se soubesse que ia ser assim nunca tinha concordado em acampar com o namorado.


Era a primeira vez na vida em que não ia dormir numa cama. Uma tenda, um saco-cama, dormir no campo - eram experiências novas. E estava a detestar.


Pelo contrário, João já tinha acampado dezenas de vezes. E adorava. O que mais gostava era poder ver o céu estrelado. Adorava olhar para os planetas e constelações longe das luzes da cidade. Apontava os dedos para cima e ia desenhando as formas do que ao simples leigo parecem apenas pequenos pontos de luz no negro firmamento.


Esta era a primeira vez em que acampava com Ana. E foi a primeira vez em que detestou acampar. Passar a noite a aturar as manias e queixas dela foi um verdadeiro pesadelo.


Na altura em que teve a ideia de acamparem juntos mal sonhava que esta noite iria pôr fim à relação. Há uma música que diz que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. João diria que não se ama alguém que em relação à vida não tem a mesma visão.

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