No capítulo das coisas boas conto as boas missões que fiz, que me deram satisfação pessoal e profissional. Viajei por todo o mundo, conheci pessoas fantásticas e lugares incríveis, tive experiências que não teria tido a oportunidade de ter se nunca tivesse saído da minha aldeiazinha da Beira Baixa. Conheci mulheres lindas que deixariam qualquer homem em êxtase.
Mas a verdade é que não pude dar a felicidade que merecia a única mulher que verdadeiramente me amou em toda a minha vida - e que eu também amei apesar de durante muitos anos não me aperceber disso. A mulher com quem casei ainda antes de ser espião, a mãe dos meus quatro filhos, a avó dos meus oito netos. Quem me dera poder voltar atrás para poder valorizá-la mais.
Também negativo foi não ter visto os meus filhos e os meus netos nascer e crescer. Não ter acompanhado os primeiros passos, palavras, papas, nem sequer o primeiro dia de escola ou de faculdade. Até faltei ao casamento de dois filhos.
Para além disso, vivi a minha vida dupla baseada num chorrilho de mentiras. Chega a um ponto em que já não se sabe o que é verdade ou não. Um espião é um mentiroso profissional. Só que, olhando agora para trás, tomo consciência de que não há verdade na minha vida. A única verdade era mesmo a minha família, mas até isso me tiraram.
Afinal, a minha mulher procurou consolo noutros homens e os dois filhos do meio são de um outro homem. Um amigo meu de infância. Portanto, a única réstia de verdade que existia na minha vida desvaneceu. Morreu. Tal como eu vou morrer quando terminar esta carta.
Não culpem a vossa mãe, porque o único culpado sou eu. Não peço o vosso perdão, mas quero apenas que saibam finalmente quem fui na realidade e o que fiz de verdade em toda a minha vida. Hoje sei que vos amo mais do que tudo - aos quatro, pois amo-vos todos por igual. Eu tinha que vos proteger e fi-lo. Mas já chega. Não suporto mais. Chegou a hora de pôr termo a todas as mentiras e engodos.
Até sempre,
O vosso pai.
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