segunda-feira, 25 de maio de 2015

Puto

Nunca pensei que chegasse a este ponto. Sou puto, sim, confesso. Prostituto, melhor dizendo. Faço isto há três anos e já não sei como sair desta vida.

Na altura estava farto de estar desempregado. Fiz um curso superior, estudei anos e anos graças ao sacrifício dos meus pais, mas depois não tinha emprego. Nem como designer, nem de qualquer outra forma. Para já, custa muito veres o teu sonho de ser designer ir por água abaixo. Depois de tanta nega, lá te mentalizas que tens que procurar outro emprego. Mas nem isso eu consegui.


Tentei tudo e mais alguma coisa - desde empregado de supermercado a segurança de discoteca. Não consegui. Cheguei a um ponto em que estava desesperado. E não queria pedir ajuda a ninguém e muito menos aos meus pais. 


Lá longe em Trás-os-Montes, achavam que eu trabalhava num supermercado quando na verdade eu vivia de pequenos trabalhos de freelancer, que mal me davam para comer. É que na realidade eu nem sequer tinha subsídio de desemprego, porque nunca tinha trabalhado.

Um dia abri um jornal nas páginas dos classificados, enquanto trincava uma sandes ao almoço. Foi o princípio desta vida que levo hoje. Comecei a pôr anúncios em jornais. Tornei-me prostituto ao domicílio para satisfazer os desejos de mulheres carentes.


A maioria são mulheres ricas de homens de negócios que passam a vida a viajar. Mulheres cujos casamentos acabaram há muito, mas que querem continuar a sentir-se vivas. 


Muitas vezes nem chego a tirar a roupa. É mais um trabalho de psicólogo. Fico horas a ouvi-las falar e a fazer-lhes companhia. 

Uma vez ia correndo mal, porque a filha e o genro chegaram mais cedo a casa e tive que me esconder no quarto dela até que estivessem a dormir.

O facto é que é uma vida boa. Ganho muito dinheiro e tenho um horário flexível. Não preciso de me consumir num trabalho rotineiro, nem de obedecer a chefes. Já comprei a minha casa, o meu carro e tenho tudo o que preciso de comprar com dinheiro. O reverso da medalha é que estou mais sozinho do que nunca.


A mentira afasta-nos do mundo. E a mentira que fui contando aos meus amigos e família sobre a minha vida afastou-me de todos. Nem sequer tenho Facebook para não correr o risco de ser descoberto. 


Vivo na solidão. Só um amigo meu é que sabe a verdade. Há dias que passo a chorar com nojo de mim. Sinto que me vendi, que perdi a dignidade, que há três anos havia outras hipóteses de trabalho e eu é que optei pelo mais fácil. Mas não sei como sair deste ciclo vicioso.

Agora tenho um problema de consciência adicional. Comecei a namorar com uma rapariga, mas não sei como lhe contar a verdade. Se souber o que eu faço, corro o risco de ficar sem ela. Se eu não lhe contar corro o risco de ela descobrir e também ficar sem ela. E agora? O que faço?

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