Fecho os olhos e passam diante de mim crianças a correr. Riem, cantam e
gritam. Ouço a porta de casa a abrir e chega junto de mim o meu marido.
Pergunta-me por que estamos no jardim com este calor. Chama os miúdos e
põe-lhe os chapéus e os bonés na cabeça. Sinto a sua mão grande pousada na
minha barriga. Sorrimos.
De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de
há quarenta anos.
Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher
feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a
minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais
infeliz da minha vida.
Quando os vi juntos perdi o homem que amava com
todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única
naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto
levou-me abaixo. Bati no fundo.
Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria
divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu
querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que
eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não
tinha emprego.
A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em
casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu
reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os
meus filhos.
Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo
de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido
uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará.
Se ele ou ela fosse vivo
como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus
cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.
Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão
feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à
memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste
espaço.
É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades
desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos.
Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do
jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.
Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no
canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser
uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a
força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família.
Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam
de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia
da minha vida.
O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco,
perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa
da Misericórdia. Excepto esta casa.
Amanhã vou doar o recheio à Igreja e
depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de
idosos aqui. Um edifício novo, moderno.
A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os
dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar
atrás das grades por todo o mal que me fizeram.
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