segunda-feira, 4 de maio de 2015

Furacão

Fecho os olhos e passam diante de mim crianças a correr. Riem, cantam e gritam. Ouço a porta de casa a abrir e chega junto de mim o meu marido. Pergunta-me por que estamos no jardim com este calor. Chama os miúdos e põe-lhe os chapéus e os bonés na cabeça. Sinto a sua mão grande pousada na minha barriga. Sorrimos.

De repente abro os olhos e está tudo vazio. Ao contrário daquela tarde de Verão de há quarenta anos. 

Estava grávida do meu quinto filho. Era uma mulher feliz com o meu casamento, sem sonhar que o meu marido me traía com a minha própria irmã. Só o descobriria horas mais tarde. Foi o dia mais infeliz da minha vida. 

Quando os vi juntos perdi o homem que amava com todas as minhas forças e perdi a minha irmã. Passei a ser filha única naquele instante. O choque foi tão grande que perdi também o bebé. O aborto levou-me abaixo. Bati no fundo.

Nem me quero lembrar daquela altura terrível da minha vida. Queria divorciar-me e tive que lutar contra os meus pais para o fazer. O meu querido marido, que era e é advogado, fez-me a vida negra. Fez com que eu ficasse sem nada. E conseguiu a guarda dos filhos, porque eu não tinha emprego.


A minha família passou a ser a Inês, a minha melhor amiga. Que me acolheu em casa dela. Que me ajudou a voltar ao que era. Que me apoiou no momento de procurar trabalho. Que me permitiu reencontrar-me. Após uma longa luta nos tribunais, consegui muito mais tarde reaver os meus filhos.


Hoje já não existe em mim a sede de vingança. Hoje já não existe o medo de voltar a ser enganada por quem amo. Há apenas a dor por ter perdido uma vida que estava a ser gerada dentro de mim. Essa dor nunca passará. 


Se ele ou ela fosse vivo como seria? Às vezes dou por mim a imaginar o seu rosto, os seus cabelos, as suas mãos, a sua voz. Mas nunca saberei como seria. Nessas alturas não consigo evitar as lágrimas.

Passadas quatro décadas voltei finalmente aqui, à casa onde fui tão feliz e onde me tornei tão infeliz. Basta fechar os olhos para me virem à memória os sons, cheiros, imagens que fazem a minha história neste espaço. 


É estranho em todos estes quarenta anos não ter tido saudades desta laranjeira ao pé da qual gostava de me sentar a ler os clássicos. Nem da cerejeira que dava frutos carnudos e saborosos todas as Primaveras. Nem de ouvir o rouxinol que cantava noite fora nas árvores do jardim. Aliás, passei a detestar tudo isso.

Sorrio ao olhar para as cravinas e para as orquídeas alinhadas no canteiro junto à relva. A vida é irónica. Quem diria que eu viria a ser uma mulher rica, dona de um império de jóias conquistado a pulso com a força do meu trabalho. Sem precisar de qualquer homem ou de qualquer família. 


Não é à toa que no mundo dos negócios me chamam de furacão. Ao pensar nisto solto uma gargalhada. Acho que este está a ser o melhor dia da minha vida.

O meu ex-marido e a minha irmã presos por desviarem dinheiro do banco, perderam tudo e eu comprei tudo o que tinham. Vou dar tudo à Santa Casa da Misericórdia. Excepto esta casa. 


Amanhã vou doar o recheio à Igreja e depois mando uma máquina arrasar isto tudo. Vou construir um lar de idosos aqui. Um edifício novo, moderno. 

A minha velhice vai ser passada neste lugar para me rir todos os dias que me restarem ao lembrar-me da ironia da vida que os fez pagar atrás das grades por todo o mal que me fizeram.

Sem comentários:

Enviar um comentário