segunda-feira, 18 de maio de 2015

Buraco

Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um tortuoso cano são insuportáveis.

Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto. Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.


Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia, lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz passar a pior vergonha da vida. 


Eu, do alto dos meus quatro anos, recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me. E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando. 

As outras pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E obrigou-me a sentar-me na sanita.

Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é um vale estreito e não uma abertura arredondada. 


Não sei explicar esta minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir repulsa por este tipo de sanitas.

Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive que passar. 


Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que agora não interessam.

Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte da minha vida em que me deixei dominar por ele. 


Talvez seja uma coisa de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.

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