Não gosto de sanitas. Ponto final. Nunca gostei, nem nunca hei-de gostar
por mais anos que viva. Os buracos no chão ainda vá que não vá. Agora
aqueles monstros que não dizem ao que vão e que escondem o buraco com um
tortuoso cano são insuportáveis.
Quando eu era nova não havia nada disso. Fazias no campo, a céu aberto.
Ou então no penico. Depois havia o tal buraco, invenção mais moderna, com um
sistema de autoclismo e tudo. A técnica era simples: punhas os pés nos
locais indicados por um rasto antiderrapante, abrias as pernas e fazias o
que tinhas a fazer. Aprendi isto no dia em que fui para a escola
primária. Já lá vão uns 60 anos, portanto.
Quanto a sanitas, a primeira que vi foi quando fui com os meus pais a
Lisboa pela primeira vez. Fomos de comboio. Chegados a Santa Apolónia,
lá fomos às retretes. A minha mãe levava-me pela mão quando eu a fiz
passar a pior vergonha da vida.
Eu, do alto dos meus quatro anos,
recusava-me a entrar naquele compartimento onde estava uma coisa que a
minha mãe chamava de sanita. Ela explicava-me que eu só precisava de me
sentar lá e fazer o que costumava fazer ao ar livre. Mas eu recusava-me.
E como? Gritando, berrando a plenos pulmões, chorando.
As outras
pessoas deviam pensar que a minha mãe me tinha batido ou alguma coisa do
género para eu chorar assim. Mas não. Ela bateu-me foi depois. E
obrigou-me a sentar-me na sanita.
Guardo essa memória traumática como se se tivesse passado hoje. O que
mais me atemorizava era o que eu chamava e ainda hoje chamo de "sanita
em U". Basicamente, é uma sanita das antigas, em que a parte do buraco é
um vale estreito e não uma abertura arredondada.
Não sei explicar esta
minha aversão por este tipo de sanitas, mas confesso que ainda hoje se
mantém. Passei muitos anos em que procurava outra sanita quando numa
qualquer casa de banho pública me aparecia uma sanita em U. Hoje já
ultrapassei isso e consigo usá-la, mas a verdade é que continuo a sentir
repulsa por este tipo de sanitas.
Um dos meus problemas quando me casei e fui instituída dona de casa foi
ter que limpar a sanita, pelo menos semanalmente. Pôr lá em baixo uma
esponja com a minha mão é das coisas mais tenebrosas pelas quais tive
que passar.
Mais tarde deixei de o fazer e a sujidade acumulou-se. O meu
marido invocou esse motivo para se divorciar de mim naquele país
retrógrado em que vivíamos. Claro que ele já andava enrolado com a
secretária com quem se viria a casar pelo civil. O que ele não sabia é
que eu andava enrolada com o porteiro, mas isso são outras conversas que
agora não interessam.
Facto, facto é que nunca soube explicar este meu problema com as
sanitas. Parece tão ridículo, mas foi muito determinante durante a parte
da minha vida em que me deixei dominar por ele.
Talvez seja uma coisa
de vidas passadas, como diz a Célia que passa a vida a viajar para a
Índia. Ou então é mesmo uma coisa inexplicável. O certo é que haverá
sempre coisas mais bonitas na vida do que as sanitas.
Sem comentários:
Enviar um comentário