João olhava para as estrelas e procurava o seu significado com a ajuda de uma aplicação de telemóvel quando o avô se fez anunciar com a sua tosse característica.
- P'ra qu'é essa traquitana que tens a apontar para o céu?
- É para ver as constelações, vô.
- Sabes bem que não preciso de nada disso.
Resmungando entre dentes, o velho sentou-se no banco de pedra e foi desenhando linhas no céu com o dedo indicador. Mostrava os planetas e os conjuntos de estrelas, ao mesmo tempo que ia contando as histórias do costume.
- Ó rapaz, sabes o que é que se vê na lua? É um homem com uma foice na mão a cortar silvas. Foi mandado para lá de castigo por trabalhar ao domingo, sabias?
- Sim, vô, já me tinhas dito. Tenho que ir dormir, que amanhã é dia de te ajudar na horta. O trabalho vai ser duro.
A meio da noite, João acordou com suores frios. Olhou à volta e esfregou os olhos. Não se lembrava de onde estava. Acendeu a luz. Estava em casa dos avós. Ao lado, a sua mulher dormia profundamente. Mas ele não conseguia fechar os olhos, porque ainda tinha bem presente o sonho que o fez acordar.
Estava na rua com o avô a olhar para o céu de fim de tarde quando viram do lado nascente dezenas de pequenas naves espaciais. Umas combatiam contra as outras.
Eram todas iguais, sombras pretas recortadas no horizonte, mas de umas saíam raios de luz vermelhos e de outros saíam raios de luz verdes. Iam ficando cada vez maiores, o que dava impressão de que estavam a aproximar-se.
O avô começou a gritar que viessem salvá-lo dos terráqueos. Acto contínuo, começou a esfregar a cara e a tirar o plástico que lhe dava a aparência humana. Abriu um fecho de alto a baixo do corpo. Parecia que estava a despir um fato-macaco.
Lá de dentro saiu uma criatura extraterrestre, verde e azul. Cresceram-lhe rapidamente duas antenas e os olhos esbugalhados vermelhos irradiavam luz como uns faróis de um carro. Agarrou na mão do neto a gritar.
- João, tu não és deste mundo. E eu também não. Viemos cá para salvar os humanos, mas eles não quiseram preservar o planeta deles. Está na hora de irmos embora. No nosso sistema solar precisam de nós para transmitimos os conhecimentos que aprendemos na Terra. Para a semana tens que dar um workshop de agricultura.
- O quê? Mas eu não percebo nada do assunto! Foi para isso que me chamaste cá este fim-de-semana? Mais valia ter ido com a Miranda à praia.
O diálogo estranho entre avô e neto seria interrompido por um raio que caiu entre eles, abrindo uma fenda na estrada. O espaço entre eles foi aumentando e do chão brotou uma nave espacial colorida e brilhante. Uma luz branca puxava João para dentro do aparelho quando acordou e se apercebeu de que tudo não tinha passado de um sonho.
Pelo sim, pelo não, foi espreitar o avô ao quarto dele. Pé ante pé, percorreu o corredor até à porta amarela. Rodou a maçaneta e empurrou o rectângulo de madeira com cuidado para não o acordar.
Olhou em frente e viu que o avô não estava na cama. À direita estava uma cadeira com uma espécie de fato-macaco que era a fotocópia do avô. Parecia mesmo aquele que o tinha visto despir.
Aterrado, mas sem conseguir deixar de espreitar para o quarto, João avançou e instintivamente olhou para a janela.
Do lado de fora não havia árvores, nem erva, nem flores, nem montanhas. Aquela não era a paisagem que rodeava a casa do avô. Do lado de fora havia montes brancos e uma paisagem árida. O céu era de um verde fluorescente e nele passeavam pequenas naves espaciais de várias cores. Confuso, João levou as mãos à cabeça e gritou.
- Onde é que estou?
Nesse momento, sentiu um toque frio no ombro esquerdo. Olhou para trás e lá estava o avô com formas extraterrestres.
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