Houve um tempo em que eu não acreditava que existia uma força invisível
que nos puxa e nos impele a fazer determinadas acções sem percebermos
por que é que as fazemos e sem pensarmos como as fazemos. Depois conheci Lisboa. Então acreditei no fado.
O destino torna-nos marionetas e faz com que sejamos puxados por fios
invisíveis que nos levam para certas direcções e não para outras. Hoje
que estou velha consigo ver isso. Olho para a minha vida sentada nesta
cama de hospital. Tenho 95 anos e sei que não duro muito mais aqui. Mas
sei também que não me arrependo de nada que fiz. Tenho a certeza.
Em todas estas noites que passo em branco sofro por não conseguir
dormir. Ouço os gemidos dos outros doentes em sofrimento e tento
abstrair-me. Penso no que passou. Passo a minha vida em revista. Vejo as
coisas claras. E escrevo-vos esta carta porque vos amo acima de tudo no
mundo e sei que vou morrer em paz por saber que partilhei com a minha
família um pouco daquilo que aprendi nesta vida. Com cada um de vocês
todos, que eu amo com todas as forças que me restam.
Meus amores, a felicidade é uma atitude. Se tu - falo para cada um de vós
- decidires que tens tudo para seres feliz, então vais mesmo ser feliz.
Vais lutar por isso. Todos os dias. Mesmo quando te digam que não pode
ser. Porque para quem luta por aquilo em que acredita não há
impossíveis. Porque os lutadores desta vida sabem que ninguém lhes pode
tirar o direito de ser feliz. Porque a garra e a força gritam mais alto e
ultrapassam todos os obstáculos. Já diz o ditado que dos fracos não
reza a história.
Olhem para mim, que nasci num tempo em que a mulher não tinha os mesmos
direitos do que o homem. Consegui estudar e ser médica, realizando o meu
sonho, mesmo contra o meu pai, tudo porque consegui o apoio financeiro
da família de uma amiga que acreditava no meu valor.
Fui para países
distantes lutar por aquilo em que acreditava: ajudar os mais afectados
pela fome e pela guerra. Renegada pela minha família rica e hipócrita,
voltei à minha cidade já casada com um ex-militar negro que tinha sido
meu paciente. Um escândalo no Porto conservador daquela época.
O resto
da minha vida não preciso de vos contar, porque bem sabem. Sempre a
lutar pela saúde dos mais pobres, dando-lhes até de comer, mesmo quando a
comida já era pouca para os meus. Mas quem dá, recebe sempre em dobro,
nunca se esqueçam.
E nunca se esqueçam de que a única pessoa que nos pode impedir de sermos
felizes é aquela que nos olha no espelho quando estamos sozinhos. Se
não podemos mudar os outros, é bem verdade que nos podemos mudar a nós
próprios. Reconhecermos que estamos errados é uma grande virtude. A
mudança é o motor da vida. É só preciso ter força de vontade, porque querer é mesmo poder e a nossa mente tem um poder infinito.
A atenção plena - agora tão na moda - sempre foi o meu lema desde que
fui à Índia e conheci o meu segundo marido, pai e avô de alguns de
vocês. A atenção plena é um dos caminhos para a felicidade. Assim
aprendemos a olhar e a gozar de todos os momentos felizes que temos ao
longo do dia, maximizando o prazer de viver.
Também aprendemos com os
erros e corrigimos posturas perante a vida que nos deixam
desconfortáveis connosco próprios. Reprogramamos a nossa forma de pensar
e isso basta para termos consciência de que afinal há muita coisa na
vida que nos pode fazer felizes. Porque acredito que viemos ao mundo
para sermos felizes. Já que cá estamos, vamos apreciar a vida em toda a
sua plenitude.
Em Lisboa consolidei esta visão junto do meu terceiro marido. O maior amor de toda a minha vida, aquele que me fez acreditar no destino. Que éramos como marionetas que passámos toda a vida a mover-nos na direcção um do outro até nos encontrarmos no aeroporto da Portela e nunca mais nos largarmos.
Só com a maturidade aceitei que me é dada a liberdade de fazer o meu destino, mas que há coisas maiores em que não mandamos, porque já nos estão predestinadas.
Espero que esta minha carta vos seja útil, resumindo os meus ensinamentos, aqueles que recolhi nesta minha longa vida.
Até sempre meus amores,
Filomena.
Sem comentários:
Enviar um comentário