Antigamente ela não acreditava nesta força invisível que prende ao chão ou
impele a tomar determinadas decisões em detrimento de outras.
Porém,
agora tinha a consciência de que todos os seres humanos eram como
marionetas: presos uns aos outros e a algo maior que algures lá no alto
puxa os cordéis e faz as pessoas se moverem de uma forma em vez de
outra.
Iulia ganhara esta consciência pouco depois de deixar a sua fria Rússia,
trocando-a por Portugal. Sentiu-se livre pela primeira vez na vida
quando abandonou Vladimir, com quem ia casar daí a duas semanas apenas
para cumprir o desejo dos pais.
Fez a maior loucura que tinha feito na
vida e decidiu embarcar na proposta que lhe tinha feito o homem por quem
se apaixonara desde que se conheceram na loja de roupa masculina onde
trabalhava em Moscovo.
Ele era português, piloto de uma companhia aérea portuguesa. Ficou
hipnotizado pelos olhos verdes e a pele clara daquela jovem russa desde o
primeiro momento em que a viu a dobrar roupa junto a uma prateleira.
Arranjou um pretexto para falar com ela. A partir de então, ia à loja
sempre que voava para Moscovo.
Um dia convidou-a para almoçar, depois
para lanchar, para jantar, e para sair à noite. Ele tornou-se confidente
dela. E, sem se aperceberem, estavam perdidamente apaixonados. O namorado
dela desconfiava que algo se passava, porque ela evitava-o cada vez
mais. Iulia teve que passar a dizer a Vladimir que se encontrava com uma
amiga sempre que saía com João.
O dia do casamento aproximava-se irremediavelmente. E ela ia ficando
cada vez mais triste. Até que João lhe propôs que viajasse com ele para
Lisboa. A sua casa era grande e poderia ficar lá a viver.
Iulia
estranhou e perguntou-lhe se a namorada dele não se importaria. Ele
respondeu que já não tinha namorada. Não havia qualquer outra mulher no
mundo para além de Iulia. Confusa, mas com uma alegria que lhe fazia o
umbigo saltar com as borboletas que lhe esvoaçavam na barriga, ela
abraçou-o, como faz a criança que está feliz por lhe darem o presente que
tanto desejava.
Deixou tudo sem dar o mínimo indício a alguém de que iria fugir. Para
trás ficou apenas uma carta para a mãe onde dizia que fugira para longe e
que iria em busca da sua felicidade. "Não me procurem", pedia. Estava
farta de seguir as ideias dos outros e de procurar mais a alegria dos
outros do que a sua própria.
Assim que deixou de viver em função dos
outros e aterrou em Lisboa, Iulia sentiu-se uma nova mulher. Não sabia
explicar esta felicidade, mas era como se voltasse a ter sete anos e até
algo simples como uma pequena flor no passeio lhe trouxesse boas energias.
Como Iulia sabia falar várias línguas, rapidamente arranjou emprego numa
recepção de hotel, onde conheceria Carmen. A jovem de Sevilha era um
espírito vibrante que irradiava alegria.
As colegas de trabalho riam tanto por tudo e
por nada, cochichando permanentemente. Dava impressão que se conheciam há décadas. Um dia
a espanhola contou-lhe que era cartomante e que tinha poderes
sobrenaturais. E sabia que tinham sido amantes noutra vida. Carmen e
Iulia tinham vivido uma paixão escaldante e proibida. Viriam mesmo a
morrer por causa dela.
Ao ouvir isto Iulia tinha uma expressão incrédula, mas havia alguma coisa
que a impelia a acreditar. Desde que conhecera Carmen a sua relação com João mudara. Parecia que havia um íman que a aproximava da espanhola e a afastava do português.
Carmen tinha um poder especial sobre ela,
atraía-a para si e Iulia não podia já passar sem ela. Pouco a pouco, começou a
acreditar na tal força invisível que a puxava para a espanhola como se
fosse uma marioneta.
E nada conseguiu fazer quando se beijaram pela
primeira vez no quarto de Carmen e uma explosão inexplicável as levou a
envolverem-se de uma forma que Iulia nunca pensara vir a envolver-se com
uma mulher. A russa nem pensou duas vezes quando a amante lhe propôs que deixassem Lisboa e fossem viver juntas para Miami.
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