Detestava a rotina. Acordar, levantar, tomar um duche, vestir, comer, lavar os dentes, apanhar o elétrico e ir para o trabalho. Lidar com clientes mal-educados, mal-dispostos, mal-encarados. Sorrir. Sorrir, mesmo quando lhe dava vontade de lhes dar uma resposta torta. A mesma que lhe apetecia dar ao chefe quando se armava em rei da loja.
Com esta vida infernal, o único consolo era um mealheiro enorme de barro que tinha comprado há três anos.
Finalmente estava cheio. Passou três noites a olhar para ele. Finalmente estava cheio, tendo dinheiro suficiente para cumprir o desígnio para o qual foi comprado. Poderia fazer uma viagem. Só ainda não sabia para onde iria. Passou três noites a olhar para ele, até escolher três países para onde queria viajar. Japão, Índia e Austrália. Estes seriam obrigatórios e o resto logo se veria.
No dia seguinte fez tudo aquilo que sempre quis fazer. Respondeu mal aos clientes, insultou o chefe, despediu-se da loja. Avisou que nunca mais lá poria os pés.
Como ainda eram duas da tarde e na véspera tinha recebido o ordenado do mês, foi a um restaurante de um hotel de cinco estrelas. A seguir ao almoço foi ao SPA e foi fazer compras à Avenida da Liberdade. Foi para casa de táxi.
Ao chegar a casa teve uma visão que não esperava. Tinham assaltado o apartamento. A porta tinha sido arrombada e estava tudo de pantanas. Foi a correr para o quarto à procura do mealheiro. O porco de barro estava desfeito em mil pedaços.
Sofia desatou num pranto, rasgou a camisola de raiva, partiu o resto das coisas que os ladrões tinham deixado intactas. Não podia acreditar que isto lhe tinha acontecido. Estava sem emprego, tinha derretido quase todo o ordenado do mês naquela tarde, os ladrões levaram as coisas de valor da casa, e o pior era que tinham levado o dinheiro que tinha juntado no mealheiro durante três anos.
Toca o telemóvel. Olhou para o ecrã enevoado pelas lágrimas. É o palhaço do Vítor, pensou. Tinham sido namorados, mas ela tinha acabado com ele há três anos, porque queria ir viver para Lisboa e ele queria ficar no Fundão.
Continuava a olhar para o ecrã do telemóvel sem saber se queria falar com ele agora ou não. Decidiu atender. Afinal foi a decisão mais sensata que tomou naquele dia.
Ele estava a telefonar porque ganhou o jackpot do Euromilhões e queria convidá-la para fazer uma viagem à volta do mundo sem data para regressar. Sabia que era o sonho dela, acrescentou Vítor. Ela aceitou sem pensar duas vezes. O nosso destino somos nós próprios que o fazemos.
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