Todos os dias sinto-me prisioneiro dentro de um corpo que não é meu, que não reconheço como meu.
Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem.
Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba,
quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a
engrossar.
Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias
feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como
era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado
dos anos 60. Tive que emigrar.
Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na
realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a
felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia,
mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.
Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece
que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para
me aceitar.
A minha família não me aceita também. E eu não posso
aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou.
Por isso, agora que olho
pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva,
tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo.
Vou
tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser
totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.
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