segunda-feira, 30 de março de 2015

Corpo alheio

Todos os dias sinto-me prisioneiro dentro de um corpo que não é meu, que não reconheço como meu.

Nasci homem mas desde que me lembro que nunca gostei de ser homem. Recordo o pavor que tive quando me nasceram os primeiros pêlos de barba, quando as pernas começaram a ficar cabeludas e quando a voz começou a engrossar.


Quando tive idade suficiente para lutar contra as ideias feitas do meu pai saí de casa. Fui para a cidade grande assumir-me como era. Mas a capital não estava preparada para mim no Portugal retrógrado dos anos 60. Tive que emigrar.

Tornei-me travesti e todas as noites podia ser quem eu queria ser na realidade. Fui muito feliz. Mas na verdade não conseguia ver que a felicidade seria ainda maior se eu pudesse ser mulher 24 horas por dia, mesmo fora dos clubes noturnos e daquela vida que eu levava.


Agora que estou velho consigo ver isso. Voltei à minha aldeia e parece que aquelas cabeças ficaram paradas no tempo e não estão preparadas para me aceitar. 


A minha família não me aceita também. E eu não posso aceitar tão pouco quem não me ama como eu sou. 

Por isso, agora que olho pela janela do comboio e vejo a minha vida a passar em retrospectiva, tomo uma decisão. Vou fazer uma operação de mudança de sexo. 

Vou tornar-me por fora a mulher que já sou por dentro. Só assim poderei ser totalmente feliz e estar em paz comigo mesmo - ou melhor, comigo mesma.

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