Desprendo as mangas que me atam os braços. Dispo as calças que me cobrem
as pernas. Atiro com os pedaços de couro que me tapam os pés. Ficam a rebolar pela duna abaixo.
Corro pela areia molhada e fecho os olhos ao sentir o vento a bater-me
no rosto e nos cabelos. Rodopio pela praia que esta manhã é só minha. A
maresia fresca enche-me o peito. É como se voltasse a ser jovem. Não
preciso de mais nada para me sentir bem. Melhor só: mergulhar nas ondas
frias que me deixam a pele eriçada.
Abro os olhos ao vir à tona e logo regressa o pensamento da minha filha.
Vim aqui para me distrair, mas é difícil. Não há dor maior neste mundo
do que perder uma filha. Ela tinha 40 anos. Deixou um menino de 12 anos.
Deixou uma vida por concretizar, planos por realizar, caminhos por
percorrer, deixou tudo por viver.
Não devia ser permitido que um filho morresse antes dos pais. Não é
natural, não é justo. Um AVC não é nome que se dê a uma morte. A falta
de idas ao médico e o excesso de trabalho são culpados, mas não deviam
ser razões suficientes para morrer.
A minha revolta salta-me do peito
de cada vez que me lembro do seu sorriso puro, que me remete para aquele
tempo em que era uma menina de sete anos com um vestido aos lacinhos
amarelos e um chapéu de palha a pedir-me para lhe descascar uma maçã
enquanto apontava para uma macieira na quinta do meu pai em Felgueiras.
Não posso aceitar que a morte a tenha roubado à minha vida.
As lágrimas que me escorrem pelo pescoço misturam-se com a água salgada
que boia à minha volta. Quem me dera ser como esta espuma branca e não
sentir nada. Não ter que sentir o coração dilacerado de cada vez que
olho para o rosto amargurado do meu marido.
Sentado na sua cadeira de
rodas, agarrado ao andarilho, ou virado de lado na cama, os seus olhos
têm sempre a mesma mensagem. É um pai que não sabe mais onde há-de meter
tanta dor. E eu queria ajudá-lo mas não sei como. É também com
dificuldade que lido com a minha cruz, com este peso que me puxa para o chão de cada vez que dou um passo.
Saio da praia, pego no carro e volto para casa. Ao fundo do prédio as
vizinhas olham-me com compaixão enquanto se acotovelam a mirar-me ao
caminhar naquela direcção. De nada me serve a pena delas.
Uma decide
continuar a conversa e dizer que a receita que a outra lhe sugeria era
muito complicada. "É complicado", apontava com a sua voz fininha e impertinente. Só me apetecia dizer-lhe: "Minha
senhora, nada é complicado nesta vida. Tudo se faz, tudo tem solução.
Complicado é mesmo o que não tem remédio. Complicado é morrer aos 40 anos."
Engulo a minha vontade em seco. Atiro um bom dia às três e rodo a chave
na porta do prédio. De repente, penso que a minha filha não gostaria de me ver assim
vergada ao peso da dor. Endireito as costas, levanto a cabeça e subo as
escadas. Acabo de decidir mudar após estes penosos meses de luto. Hoje vou levar o meu marido a almoçar fora. Enquanto cá
estamos a vida é para ser vivida, já dizia o meu pai.
Sem comentários:
Enviar um comentário