segunda-feira, 23 de março de 2015

O sentido da vida

Suspirou enquanto dava a última dentada na sandes enxabida que tinha ido buscar à máquina para servir de almoço naquela segunda-feira maldita. O relógio dizia que tinha que se despachar porque tinha muito trabalho para fazer naquele dia.

Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida: qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo  para pensar nisso agora. Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.

Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.


Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer, despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa, dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.

Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher maravilhosa.


Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e de como isso era precisamente o motor da sua vida. 

Porém, continuava sem ter a resposta à pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão. Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora de almoço. A pergunta voltou então. 

De novo martelava na cabeça em cada pedaço de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o amante de quem mais gostava. 

Depois de estacionar o carro à porta do prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo. Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as pequenas coisas da vida.

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