Suspirou enquanto dava a última dentada na sandes enxabida que tinha ido
buscar à máquina para servir de almoço naquela segunda-feira maldita. O
relógio dizia que tinha que se despachar porque tinha muito trabalho para fazer naquele dia.
Enquanto mastigava o último pedaço, veio-lhe à cabeça a eterna dúvida:
qual é o sentido da vida? Mas não tinha tempo para pensar nisso agora.
Para mais, ainda há um mês quase tinha dado em doida a pensar nisso.
Na altura, pensava nisso em qualquer instante em que o pensamento corria livre - no
trânsito, a passar a ferro, ou até na sanita. Não chegara a qualquer
conclusão. Continuava sem saber qual o sentido de andar aqui em cima da
terra. A fazer peso ao chão, como alguns dizem.
Todos os dias era o mesmo: levantar, tomar banho, vestir, comer,
despachar os miúdos, ir levá-los à escola, atravessar a cidade para
chegar ao trabalho, ter que ouvir comentários machistas no trabalho nos
dias em que lhe apetecia levar uma saia mais curta ou uma maquilhagem
mais carregada, levar com o mau feitio do chefe prepotente que diz a
toda a hora que já não se fazem secretárias como antigamente e apetecer
dar-lhe com o dossiê na cabeça mas nada poder fazer, voltar para casa,
dar banho aos miúdos, comer a comida insossa que o marido fez, passar a
ferro a ver uma qualquer série em que os outros são sempre felizes no
final do episódio, ir dormir. E no outro dia: começar tudo de novo.
Tentou fazer o exercício ao contrário, e ver as coisas positivas da sua
vida. Tinha dois filhos lindos, saudáveis e inteligentes. Tinha o melhor
marido do mundo, que a adorava e que ela adorava. Tinha dois amantes que a faziam sentir-se uma mulher
maravilhosa.
Conseguia gerir o tempo ao centésimo de segundo, de forma
que se desdobrava entre todos os papéis da sua vida sem ninguém se
queixar. Como o fazia não sabia. Aliás, nunca tinha pensado nisso. Era
uma capacidade inata: mentir, manipular. Só agora se dava conta disso e
de como isso era precisamente o motor da sua vida.
Porém, continuava sem ter a resposta à
pergunta sobre o sentido da vida. E foi então que decidiu ir afastando essa questão.
Até ao momento em que trincava aquela sanduíche na segunda-feira à hora
de almoço. A pergunta voltou então.
De novo martelava na cabeça em cada pedaço
de tempo livre. E até lhe começou a tirar a concentração no trabalho. Foi uma semana terrível. Mas lá veio a sexta-feira. Era um dia de que
gostava particularmente, porque a hora de almoço era passada com o
amante de quem mais gostava.
Depois de estacionar o carro à porta do
prédio onde se encontravam habitualmente, olhou para o retrovisor e ajeitou o cabelo.
Sorriu para o reflexo do espelho e viu uma mulher quarentona - mas feliz. E só então - de forma repentina e inexplicavelmente - compreendeu que o sentido da vida é ser feliz, sentindo-se feliz com as
pequenas coisas da vida.
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