segunda-feira, 9 de março de 2015

Guerra

A noite escura traz-me os maus pensamentos que queria esquecer. Não consigo dormir e arrasto-me pela casa como um fantasma.

Olho para a minha mulher a dormir. Passo pelo quarto dos miúdos e vejo dois anjinhos de olhos fechados. Quem me dera voltar a ser criança. Não saber o que se passa no mundo, não conhecer a miséria humana, não ter ido à guerra, não ter vivido nada do que vivi nos últimos meses.


Nunca senti tanto nojo de mim próprio como agora. Olho para as minhas mãos à luz ténue do candeeiro que ilumina a sala e só vejo sangue. Sinto que tenho as mãos sujas para sempre. 


Fecho os olhos para tentar esquecer, mas é pior. Só me aparecem imagens de cenas de guerra. Cruas. Cruéis. Frias. Negras. Flashes que não consigo apagar da memória. Sobretudo os momentos em que matei pessoas. 

Sim, eu matei. Eu tirei a vida a pessoas. Não eram inimigos. Eram pessoas. Tomei consciência disso de cada vez que as via tombar por minha causa.

Não sei lidar com isto. Como pode alguém ter o direito de tirar a vida de outra pessoa? Tudo me parecia bem resolvido na minha cabeça antes desta minha primeira missão na guerra. Agora sei que não fui feito para isto. 


É como se a cada morte eu visse acorrer à volta do corpo toda uma família que ficou desfeita e indefesa. Eu não tinha o direito de lhe tirar a vida. Eu não tinha.

A minha mulher já me perguntou o que se passava, porque sente que eu não estou bem. Mas eu não tenho coragem de lhe confessar a verdade. Sinto vergonha só de olhar para ela. Tão pura, tão limpa, tão longe daquele mundo pérfido por onde andei. 


Eu cheguei há três dias e ainda não fui capaz de ir para a cama com ela. Sinto-me sujo e sinto que não a posso manchar.

Passo as noites em branco a pensar numa solução para isto. O meu chefe acha que eu preciso de tratamento psicológico. Eu acho que preciso de sair do exército. 


Não consigo mais pegar numa arma. Tenho que mudar de vida. Preciso de me afastar desse mundo. Amanhã vou falar com o meu chefe. Amanhã vou falar com a minha mulher. Amanhã vou mudar.

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