Muitas pessoas não têm consciência de como uma conversa de circunstância
pode aplacar a solidão de alguém. Hoje entrei num elevador de um prédio
juntamente com um homem dos seus 80 anos que tinha um saco de
supermercado na mão. Estava curvado pelo peso dos anos. Quem olhava para
a roupa e para os óculos pensava logo que teria vindo numa cápsula do
tempo dos anos 70 para 2015.
Carreguei no número do andar para o qual queria ir. O oitavo. Ele
carregou no quinto. Olhou para mim e a sorrir perguntou se eu morava no
céu. Com alguma graça, porque eu ia para o último andar do prédio. Sorri
e disse que ia apenas visitar alguém que morava lá. Foi então que
reparei no capachinho que lhe encimava a fronte. Há muito tempo que não
via ninguém de capachinho.
Na viagem até ao quinto andar comentou ainda o estado do tempo, como os
portugueses tanto gostam. Está muito calor. O que é natural, respondi. É
meio-dia e estamos em Julho. Se não estiver calor no Verão quando vai
estar? Concordou comigo. Reparei que o olhar é de quem passa muito tempo
sozinho e tem a vista enevoada pela tristeza.
Fiquei a pensar nele durante o resto do dia. Fiquei a imaginar como
seria a sua vida solitária. Quantas horas passa na solidão sem ter com
quem falar. Quantas pessoas queridas já viu partir. Ou talvez nunca as
tenha tido.
Dizem que a vida é como uma viagem. E há algumas mais longas do que as
outras. Eu diria que é mais como uma viagem de comboio. Este é composto
por várias carruagens, que são as fases da vida - somos bebés, crianças,
jovens, adultos e idosos.
Nessas várias carruagens vão entrando
pessoas. E outras vão saindo. Há algumas que ficam pouco tempo nas
nossas vidas. Outras que nos acompanham sempre e ainda outras que entram mais
tarde e vão connosco até à última carruagem, ajudando a suportar os
contratempos da viagem. Estão presentes nos bons e nos maus momentos.
O certo é que na recta final da viagem a velocidade abranda. São cada
vez menos as pessoas dentro da carruagem. Há muitos solavancos nesta
parte da viagem. É fácil saber quem gosta de nós e se importa connosco
nesta fase da vida.
Talvez o homem que se cruzou comigo no elevador
tivesse muito pouca gente - ou quem sabe ninguém - na sua última
carruagem. Há muita gente que vai sozinha pelos carris da vida e por
isso a viagem parece mais difícil do que pareceria se tivessem com quem
partilhar a sucessão dos dias.
Nada é para sempre, bem sei. Mas há pessoas quem nem chegam a aquecer o
lugar onde se sentam na carruagem. Às vezes é doloroso ver as pessoas
sair do comboio, sobretudo em andamento.
Nestes casos é preferível
pensar que foi por alguma boa razão que entraram na carruagem, mesmo que
depois tenham saído. Fizeram crescer um pouco e aprender com os erros.
Na volta, sem sabermos, era importante para nós que entrassem naquele
ponto da viagem, mesmo que viessem a sair pouco depois. E a deixar a
carruagem mais vazia, ficando para trás os ecos de uma curta passagem
plena de tristeza ou de felicidade.
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