É difícil explicar o apego telúrico. Compras um pedaço de terra ou
recebes esse pedaço como herança. E sem te aperceberes vais ficando com
tantas boas recordações desse terreno que se torna impensável vendê-lo.
O meu pai deu-me um terreno quando eu tinha 30 anos. Na altura eu não
queria aceitar, porque não percebia nada de agricultura, mas acabei por ficar com ele.
Comecei por pedir indicações ao meu pai e aos vizinhos sobre como
semear e quando semear na terra. Batatas, cebolas, feijão, ervilhas,
alface, tomates foram as minhas primeiras experiências nas minhas horas
vagas.
Ao fim de um ano pensei que estava a correr tão bem que me podia
aventurar noutros voos mais altos. Então plantei uma vinha ao fundo da
horta.
No ano seguinte decidi começar a plantar árvores de fruto.
Laranjeiras, limoeiros, nespereiras, cerejeiras, pessegueiros,
ameixeiras, macieiras, pereiras, romãzeiras, figueiras. Tudo em
carreiras que dividiam a terra em pequenas porções de horta.
Foi assim que a minha terra se tornou uma das mais cobiçadas da zona.
Fazia vista um terreno assim. Até consegui arrastar a minha mulher para
os trabalhos agrícolas - ela que era uma alfacinha de gema e nunca tinha
pegado numa enxada antes de nos conhecermos.
Por várias vezes tive propostas para vender o terreno. Houve quem me
dissesse que eu podia fazer um bom dinheiro. Mas eu nunca quis. Aquilo
que no princípio era um simples rectângulo de terra tornou-se num pedaço
de mim.
Tantas horas passei ali quando estava alegre e quando estava
triste, quando estava com aqueles que amo ou quando estava sozinho.
Sempre que precisava de pôr as ideias em ordem pegava no carro e ia até
lá. Sentava-me no chão e ficava horas assim.
Até que um dia veio o fogo. Um incêndio florestal chegou às imediações
em menos de nada e queimou-me tudo. Nesse dia estava na maternidade
porque ia nascer o meu terceiro filho. Nunca tinha compreendido até
então como um mesmo dia pode ser tão feliz e tão infeliz em simultâneo.
Quando recebi a notícia do incêndio fui para o terreno o mais depressa
que pude, mas quando lá cheguei só encontrei terra queimada. Era como se
tivesse morrido um pedaço de mim. Chorei como uma criança.
Apesar de toda a gente me incitar a pôr de novo mãos à obra, decidi não
arriscar mais. Decidi tentar esquecer a terra. Convenci a minha mulher a
voltar para Lisboa. Pensei que a vivência da cidade me iria fazer
esquecer o mundo rural onde fora tão feliz.
Não podia estar mais
enganado. Já se passaram 30 anos e hoje ainda sofro por ter vendido a
terra que me deixou tão boas recordações e que agora não passa de um pedaço de terra onde há uma pocilga.
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