- De que cor são os sonhos, a que cheiram e a que sabem?
A pergunta da miúda de oito anos deixou a avó inquieta, sem saber o que
responder. A neta estava à espera da resposta à frente dela.
Os olhos
azuis esbugalhados, as pestanas bem abertas, o cabelo ruivo com a franja
em desalinho e os deditos pautados por sardas a puxar a saia azul
rodada para cima.
A miúda começava a mostrar sinais de impaciência, mas
em 70 anos de vida nunca lhe tinham feito tal pergunta.
- Bem, a avó vai tentar responder. O que eu penso é que... Os sonhos têm
exactamente a cor, o cheiro e o sabor que lhes quisermos dar. Não há
limite para os sonhos e não devemos deixar nunca que nos limitem ou
impeçam de sonhar. Sonho é progresso. Sonho é vida.
- Não sei se estou perceber, vó! Isso quer dizer que morremos se não sonharmos?
- O que quero dizer é que é muito importante termos objectivos na vida.
Coisas que queremos fazer, aprender, conhecer. Se não tivermos sonhos
não nos sentimos vivos. É como se a vida não tivesse valor ou não lhe
déssemos o valor que realmente tem.
- Mas o que é que se sente quando se realiza um sonho? E depois o que é que acontece? Ficas sem sonhos? Ficas vazia?
A avó soltou uma gargalhada sonora. Ajeitou o cabelo grisalho na testa,
tirou os óculos pretos e aclarou a voz pigarreando. A miúda começou a
reclamar que queria saber qual era a graça das suas perguntas e queria
respostas. De dedito em riste, mostrava desagrado com a lentidão da avó.
- Tem calma. Tu tens muitas perguntas, Ritinha. E a avó podia
responder-te com muitos exemplos da minha experiência. Mas há alguns que
só te posso contar quando fores mais velha.
O que posso dizer agora é que quando realizas um sonho não te sentes
vazia. Pelo contrário. Sentes-te preenchida. É uma sensação fantástica.
Se lutaste muito para concretizar o sonho ainda te sentes melhor,
sentes-te recompensada.
Sabes finalmente nessa altura se o que sonhaste
corresponde ao que é a realidade. Pode ser pior ou melhor mas é sempre
uma sensação de preenchimento por concretizares algo que deu tanto
trabalho a conquistar.
Não deixes nunca de sonhar. Independentemente da tua idade. Sobretudo
quando fores mais velha. Não deixes nunca que te tirem a capacidade de
sonhar e de lutar por aquilo em que acreditas. Se alguém te disser o
contrário é porque está errado.
Hoje em dia há quem tenha os pés
assentes demais na terra e não dê valor a coisas abstractas como os
sonhos. Nunca deixes que ninguém te tire a força de lutar pelos sonhos,
porque só assim terás a vida que te fará feliz.
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segunda-feira, 11 de maio de 2015
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Sonhos autopsiados
- Triste de quem tem sonhos e nunca os realiza. Triste de quem tem sonhos e
nunca faz nada para os realizar. -atirou Manel, batendo a mão no tampo
da mesa onde jazia um corpo pálido.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
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