- Triste de quem tem sonhos e nunca os realiza. Triste de quem tem sonhos e
nunca faz nada para os realizar. -atirou Manel, batendo a mão no tampo
da mesa onde jazia um corpo pálido.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em
concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? -
questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir
um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências!
Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa
dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o
carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à
míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de
que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã,
que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e
deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por
ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a
tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os
outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma
velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar
na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si
próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em
que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
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