Uma pedra dá uma sombra maior do que um pau. À sombra desta pedra, no
cimo desta serra, avisto tanto quanto vejo. Avisto o mundo. O que não
vejo daqui não pertence ao mundo.
A minha mulher trocou-me por um pedreiro com os dentes desbotados do
vinho e eu fiquei para aí com as minhas ovelhas e cabras. Eu não bebo
vinho há quinze anos, desde que ela me deixou.
Não preciso de mulheres para nada. Só servem para deixar a cabeça mais
pesada a um homem. Aquele par de cornos que ela me pôs nunca mais saiu
da minha testa.
O serviço de casa e a comida aprendi a fazer sozinho
desde que ela me deixou. Consegui levar a vida avante sem ela. Não preciso de mulheres para nada.
Ela dizia sempre que eu não tinha ambições, que era por isso que o nosso
filho não queria saber de nós e que tinha vergonha de nós. Eu é que não quero
saber disso para nada. Se eu mandasse, ele seria pastor como eu, ajudaria
o pai a juntar ovelhas e cabras. Não seria engravatadinho, não
trabalharia num banco, não viveria na cidade, não alimentaria o capital.
Mas eu só mando em mim e nos meus animais e isso já me basta por agora. Vivo entre
a serra e as pedras, vivo comigo mesmo e à noite deito-me com a
solidão.
Deixo a aldeia duas vezes por mês para comprar coisas na vila.
Não sei o que são feriados ou fins-de-semana. Férias são os dias que
passo na Quinta da Atalaia com os meus camaradas a ajudar a montar e a fazer a Festa do
Avante.
Agora que tudo acabou mais uma vez estou de volta a casa e à
vida ensimesmada. Olho à volta e só vejo sombras. Até eu sou uma sombra
do que fui. Resta-me contar os dias até voltar ao Avante e poder viver numa extensão do mundo, num mundo irreal com que sonho em todos os outros dias do ano.
Sem comentários:
Enviar um comentário