segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Avante

Uma pedra dá uma sombra maior do que um pau. À sombra desta pedra, no cimo desta serra, avisto tanto quanto vejo. Avisto o mundo. O que não vejo daqui não pertence ao mundo.

A minha mulher trocou-me por um pedreiro com os dentes desbotados do vinho e eu fiquei para aí com as minhas ovelhas e cabras. Eu não bebo vinho há quinze anos, desde que ela me deixou.


Não preciso de mulheres para nada. Só servem para deixar a cabeça mais pesada a um homem. Aquele par de cornos que ela me pôs nunca mais saiu da minha testa. 


O serviço de casa e a comida aprendi a fazer sozinho desde que ela me deixou. Consegui levar a vida avante sem ela. Não preciso de mulheres para nada.

Ela dizia sempre que eu não tinha ambições, que era por isso que o nosso filho não queria saber de nós e que tinha vergonha de nós. Eu é que não quero saber disso para nada. Se eu mandasse, ele seria pastor como eu, ajudaria o pai a juntar ovelhas e cabras. Não seria engravatadinho, não trabalharia num banco, não viveria na cidade, não alimentaria o capital.

Mas eu só mando em mim e nos meus animais e isso já me basta por agora. Vivo entre a serra e as pedras, vivo comigo mesmo e à noite deito-me com a solidão. 


Deixo a aldeia duas vezes por mês para comprar coisas na vila. Não sei o que são feriados ou fins-de-semana. Férias são os dias que passo na Quinta da Atalaia com os meus camaradas a ajudar a montar e a fazer a Festa do Avante.

Agora que tudo acabou mais uma vez estou de volta a casa e à vida ensimesmada. Olho à volta e só vejo sombras. Até eu sou uma sombra do que fui. Resta-me contar os dias até voltar ao Avante e poder viver numa extensão do mundo, num mundo irreal com que sonho em todos os outros dias do ano.

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