Em quase todas as famílias ricas há divergências políticas. Em casa de Crispim também assim era.
O pai sempre fora socialista, mesmo antes do 25 de Abril. A mãe fora na juventude trotskista, mas depois da Revolução passou por vários partidos que viriam a desaparecer até aterrar finalmente nos sociais-democratas. A avó era comunista desde pequena, só que fingia ser de direita desde que começou a namorar com o avô. Uma longa história que mete vira-casacas ao barulho, mentiras, amores e desaguisados. Enfim, cada um tinha a sua tendência política. Menos Crispim.
Sempre achara que a política era um mero jogo de interesses e conveniências, lutas de poder e prepotência, histórias de dinheiro e de guerra. Nada disso lhe interessava. Desde criança que só queria jogar à bola, fintar as miúdas, passar a vida a passear de bicicleta e fazer novos amigos. Chegou a ter três namoradas na escola, todas da mesma turma. A tendência manteve-se pela vida fora e agora que era jogador de futebol profissional tinha quantas raparigas queria.
Em casa esta carreira era uma dor de cabeça. O pai queria que ele tivesse estudado Direito, fizesse parte de uma juventude partidária e se tornasse deputado e quiçá secretário de Estado. A mãe gostava que ele fosse engenheiro mecânico e liderasse uma grande empresa do ramo automóvel. Podia arranjar uma bela e rica mulher que seria a nora perfeita para qualquer sogra de bem. A avó dizia que teria gosto em ter um neto gestor de empresas ou gerente de um banco ou então presidente da Câmara. Só que na realidade ela queria que ele fosse manifestante profissional, daqueles que se vêem diariamente nas manifestações na televisão. Como seria fantástico ter um neto que seguisse o caminho que ela não pôde seguir por amor. Mas isso ela não confessaria em voz alta.
Naquela família havia dinheiro a rodos, mas toda a gente andava angustiada. Filho único e neto único, Crispim concentrava muitas expectativas. A gota de água foi quando anunciou que iria casar com uma modelo, que na realidade era uma antiga concorrente de um programa de variedades da televisão, um "reality show".
Ninguém daquela casa foi ao casamento de Crispim. Mal saberiam que daí a três dias iriam ao seu funeral. Teve um acidente na noite depois do casamento. A noiva sobreviveu e só no hospital soube que afinal estava grávida. O pai, a mãe e a avó de Crispim arrependeram-se de não terem ido ao casamento, de não abraçarem e beijarem Crispim naquele dia tão importante da sua vida. O último dia da sua vida.
Agora que a família iria ter um descendente, decidiram passar uma borracha sobre o passado e não voltar a cometer os mesmos erros. Acolheram a grávida em casa e ajudariam a criar o bebé, educando-o sem pressões para que fosse o que bem entendesse na vida e não escolhesse apenas uma profissão para contrariar a família. Mal sabiam que daí a 40 anos o rapaz viria a ser primeiro-ministro.
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