segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Pão-de-forma enfaixada num camião

O sol vaidoso de Verão invadia todas as ruas. Era meio-dia em ponto. O sino da torre da igreja não dava margem para enganos. Olhou para o relógio que a mãe lhe dera num aniversário e que agora levava sempre no bolso. Era já pequeno demais para o seu pulso.

Fechou os olhos na direção do sol e viu o sorriso da mãe por cima da bola amarela radiante. Abriu o olho esquerdo enquanto fechava o outro com força. Depois abriu o esquerdo enquanto tinha o direito fechado. Abriu os dois e só via pequenos pontos amarelos pontuados pelos lábios maternais. Se lhe prometessem o sorriso da mãe de volta, ela seria capaz de dar o sol em troca.

Sentou-se na calçada do passeio e foi assim que o namorado a encontrou.


- Amor, desculpa a demora mas a bomba aqui perto estava fechada e tive que voltar para trás para abastecer o carro na cidade! - desculpou-se Ivo com voz melosa.


- Não faz mal. O único problema é estarmos 40 minutos atrasados. Coisa pouca, portanto - atirou Raquel com um tom irónico, ao mesmo tempo que entrava na carrinha pão-de-forma.


 A viagem foi feita em silêncio. Apenas aquecia o ambiente uma cassete velha que passava música dos anos 80. O cão ladrava de quando em quando na parte de trás da carrinha, como se cantasse em coro as músicas de que mais gostava.


Só quando iam perto de Odemira é que Ivo ganhou coragem para falar.

- Sei que gostas que respeite o teu silêncio, mas estamos há 200 quilómetros sem falar. Preciso de saber o que se passa contigo. Estamos a começar as férias, não estamos a ir para um funeral para estares assim. Que cara é essa? É só por causa do meu atraso?


- Não só, mas também. O tempo que me deixaste à espera fez-me lembrar o dia em que os meus pais tiveram o acidente de carro e nunca mais apareciam na escola para me buscar. Ainda por cima pus-me a fazer contas e descobri que há dois dias fez 13 anos que aconteceu o acidente. E faz hoje 13 anos que foi o funeral da minha mãe.


- Desculpa o atraso, Raquel. A sério que o problema foi mesmo a falta de combustível. Eu saí de casa a tempo de te ir buscar à hora combinada.


- Ivo, eu não preciso de justificações. Preciso de acções. Preciso que nunca mais me deixes à espera. Preciso que caminhes ao meu lado e me dês a mão. É só isso que eu preciso.


Ele olhou para ela, com aquele olhar profundo que só os apaixonados podem entender. Com toda a ternura do mundo, mas por dentro a sentir-se culpado por se ter atrasado por ter estado aos beijos com a dita melhor amiga de Raquel. A sentir-se perdido por saber que ia ser cada vez mais difícil escolher uma das duas, condição essencial para ter uma vida sem traições nem mentiras.


E foi no momento em que ele tirou a mão da alavanca das mudanças para apertar com força a mão da namorada que ouviram uma buzina. Desviaram o olhar um do outro e a última coisa que viram foi um camião a bater de frente na carrinha. Morreram de mão dada.

O cão viria a ser encontrado morto na valeta, ao lado da carrinha pão-de-forma enfaixada no camião.

Raquel pôde finalmente abraçar a mãe e Ivo não precisou de escolher entre duas mulheres. Passou a eternidade de mão dada com Raquel.

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