Os calções esverdeados não viam a luz do dia desde o outono anterior e até cheiravam a môfo, mas nada disso importava. Tomé acreditava que aquela peça de roupa lhe dava poderes especiais com as mulheres, até mesmo se estivessem enrugados.
Afinal, todos os Verões arranjava namoradas giras e durante o resto do ano as raparigas não lhe ligavam. Só podia ser dos calções. Foi com eles que deu o primeiro beijo a sério, foi com eles que conquistou uma miúda que já tinha sido Miss Vindimas, foi com eles que foi eleito Mister Praia, foi com eles que passou tantos bons momentos. Tanto tempo que já tinham mudado de cor e ficado menos verdes com as lavagens.
Tomé ia agora a caminho da sua nova vida. Em breve teria o diploma de bombeiro profissional e então ninguém o pararia com as miúdas. Pelo menos assim pensava enquanto estacionava a sua scooter verde em frente à casa da miúda mais gira de Matosinhos.
Tinha combinado ir buscá-la para irem à praia, mas como sabia que os pais dela não estavam em casa decidiu ir mais cedo para tentar a sua sorte. Aqueles calções nunca falhavam. E não falharam também naquele dia.
O problema foi quando o pai dela entrou em casa e foi seguindo o rasto de roupas até ao quarto da filha, onde a encontrou enrolada com um rapaz. Os dois estavam tal como vieram ao mundo.
O problema foi quando o pai dela e Tomé viram a cara um do outro, o problema foi quando se olharam nos olhos, o problema foi quando perceberam a embrulhada em que se tinham metido.
É que ninguém dos três sabia que o pai de Tomé era também o pai da rapariga. Tinha duas famílias. Uma em Matosinhos e outra na Régua. E mal sonhava que naquele momento a sua filha estava grávida do seu próprio filho.
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