Há pessoas que têm o dom da palavra e outras que não têm. Ana Enxabida definitivamente não tinha.
Toda a sua vida foi passada na aldeia onde nasceu, tirando uma ou outra ida a médicos no Porto ou à cidade vizinha. Quando andava na escola e na catequese era sempre posta de parte pelos colegas e professores, porque estava sempre encolhida e raramente falava, mesmo quando lhe perguntavam alguma coisa. Foi por isso que lhe começaram a chamar Enxabida. E quando uma alcunha pega numa aldeia é para toda a vida.
Nunca passou da quarta classe e mesmo para isso teve que lá andar 15
anos. Os pais também nunca a souberam ajudar, até porque eles também não
tinham grandes amizades com a expressão oral. Depois de sair da escola,
Ana Enxabida foi ajudar o pai a guardar o gado, mas nem para isso se
ajeitava. Ficava encolhida junto a um carvalho ou uma oliveira enquanto o
cão pastor fazia o trabalho todo sozinho.
O que ninguém sabia era que ela tinha grande aptidão para as artes plásticas. A mãe sabia apenas que ela passava todo o tempo livre a olhar para desenhos coloridos que encontrava no computador, na internet ou lá o que é. E que sempre que juntava dinheiro ia à loja dos chineses nas idas à cidade vizinha.
Um dia a mãe percebeu que ela estava no quarto
com umas tintas como aquelas de pintar paredes, mas em tubos mais pequenos.
Pintava uns papéis ou tecidos brancos com uns pincéis mais pequenos do
que as trinchas. A única coisa que pensou dessa vez é que o melhor era
deixá-la entretida. Seria menos um empecilho na cozinha. E das vezes
seguintes que viu o cenário pensou o mesmo.
Um dia quando foi à cidade Ana Enxabida viu um cartaz com um desenho colorido como os que gostava de pintar e leu que um pintor de Guimarães iria estar ali dentro de duas semanas para mostrar os seus novos quadros. A caminho de casa, na camioneta de carreira, Ana Enxabida não pensou noutra coisa. Até que no dia seguinte lhe ocorreu aparecer na tal exposição com alguns dos seus quadros.
- Fauvismo! - atirou o conhecido pintor ao ver as três telas. Isto é uma obra de arte menina!
Magia ou não, ao fim de mais de 20 anos a língua dela soltou-se, endireitou as costas e apontou com ar resoluto:
- Fui eu que pintei. E tenho muitas mais em casa. Se me aceitar como discípula podemos dividir lucros de exposições que eu venha a fazer.
Dez anos depois regressou à aldeia natal para ir ao funeral da mãe. Bem vestida e de pose altiva, de braço dado com um rico marido pintor francês, ninguém mais se atreveu a chamar-lhe Enxabida. A partir daí passou a ser conhecida por lá como Ana Desenxabida.

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