segunda-feira, 14 de julho de 2014

A prisão

Entrou no meu mundo e nem sequer pediu licença. Chegou quando menos esperava e encontrou-me incauto.

Eu estava à espera de nada. Aos 51 anos, já nada espero da vida ao mesmo tempo que espero tudo. No fundo é como se me tentasse convencer que o melhor é não criar demasiadas expectativas quanto ao futuro para não correr o risco de a vida me desiludir, ao mesmo tempo que me mantenho aberto a tudo o que de bom a vida me possa trazer.

Sim, de bom, que o melhor é não pensar no pior para não corrermos o risco de ele se lembrar de nós e vir ter connosco. Se isto é assim nesta idade nem quero imaginar como será daqui a trinta anos.

Mas, como dizia há pouco, ela encontrou-me incauta. Eu entrei no metro e o olhar dela veio ter comigo, abanou-me. Eu sentei-me e ela insistia em abanar-me. Eu olhava para o vidro e inconscientemente procurava o reflexo dela, onde a via a virar a cabeça para me procurar. E assim fomos pela terra fora, naquele túnel escuro que parecia não ter fim e que apenas era entrecortado pelas paragens nas estações do metro.

Finalmente quando chegou à minha paragem levantei-me para sair e quando dei por mim estava encostada a ela. Ela pegou levemente na minha mão direita e acompanhou-me na saída da carruagem. 

Já do lado de fora ficámos petrificados a olhar um para o outro até o metro arrancar em direcção a outra estação. E aquele momento em que éramos só olhos um para o outro durou até que ela decidiu desatar o nosso até então eterno silêncio com uma respiração ofegante que conduziu os seus lábios até aos meus.

O conto de fadas só terminou quando ela me disse que estava a fugir à polícia por ser acusada de roubo de corações de homens desprotegidos. Foi assim que a passei a visitar todos os domingos na prisão que é o meu amor por ela.

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