segunda-feira, 7 de julho de 2014

Uma mentira contada mil vezes...

Num reino não muito distante do meu Alentejo de searas queimadas ao sol e de casas caiadas pela luz há um outro reino onde o cheiro é rei.

Para dizer a verdade nunca lá fui, mas agora que penso nisso vou pedir ao ti Firmino que me diga o caminho para lá. Foi ele que chegou um dia aqui à aldeia com essa notícia. 

O filho trabalha num parque de animais, um género de jardim zoológico que há por aí - também não me perguntem onde ao certo que não sou bom a dar indicações como já perceberam - e, numa das vezes em que foi buscar camelos ao deserto, quando vinha em Espanha tranquilamente a conduzir o camião cheio de animais foi sobressaltado por um cheiro.

Era um cheiro doce e ao mesmo tempo agressivo, viciante e possessivo. Sem se aperceber, o Manel da Rosa Matildes - que é como quem diz, o filho do ti Firmino - já tinha saído da estrada e estava a conduzir num caminho de terra batida. O cheiro é que o conduzia, ele não tinha controlo sobre o camião. 

Quando se apercebeu disso tentou encostar na berma para poder destapar a tampa do farnel e cheirar a comida que guardava para o almoço foi impedido por uma força que não lhe deixava sequer guinar o volante. E as mãos pareciam estar coladas àquela roda, tantas vezes companheira e agora diabólica. 

Como não funcionou a ideia de tentar neutralizar aquele cheiro que abria as narinas e chegava a fazer doer os pulmões, o Manel da Rosa Matildes lá se resignou a continuar pelo caminho de terra batida que começava a ser polvilhado por pétalas de rosa. Não eram umas pétalas de tamanho normal - alertou várias vezes o ti Firmino quando contou isto pela primeira vez na adega do Bartolomeu do Rómulo. As pétalas eram do tamanho de pratos, e, como se tivessem sido moldadas numa forma, eram encovadas no meio, como um prato de sopa. Vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-laranja e até azuis, as pétalas estavam por toda a estrada já.

Aos poucos começaram a ver-se debruçadas para o caminho umas roseiras com um botões enormes, que se percebia serem as mães das pétalas espalhadas pelo chão.

Nos campos à volta trabalhavam mulheres e homens muito pequenos. Não eram anões, gosta de frisar o ti Firmino sempre que conta isto. Eram maiores do que os anões, mas mais pequenos do que a altura média normal. Vestiam-se com panos coloridos, a condizer com as roseiras. Quem se vestia de azul estava atrás da roseira azul, quem se vestia de amarelo estava atrás da roseira amarela, quem se vestia de branco estava atrás da roseira branca, e assim por diante. O Manel da Rosa Matildes não conseguiu perceber o que faziam ao certo nos campos, mas podia jurar que estavam a podar roseiras.

O camião continuou imparável por um caminho assim durante largos quilómetros de modo que o Manel da Rosa Matildes acabou por adormecer. De repente acordou sobressaltado por um cheiro ainda mais doce e agressivo e possessivo. Ato contínuo, levou o pé ao travão para imobilizar a viatura - como gosta de dizer desde que tirou a carta em Évora há dez anos - e conseguiu mesmo parar o camião.

Olhou em frente e viu uma casa apalaçada, enorme, forrada com as tais pétalas de roseiras que se enlaçavam às paredes a partir dos cantos. De dentro da porta saiu um homem alto, com uns dois metros de altura, vestido com uns panos de várias cores, as cores das roseiras. Seguiam-no uns vinte homens do tamanho dos que vira nos campos, mas vestidos com panos iguais aos do gigante.

O Manel da Rosa Matildes decidiu sair do camião e foi quando os criados do gigante o rodearam. Ele queria falar e nada lhe conseguia sair da garganta. Ele queria mexer-se e não conseguia. Eles falavam numa língua que ele não entendia e quando se moviam cheiravam a rosas secas. Ninguém o olhou nos olhos até que o gigante se aproximou e lhe falou em português com um sotaque castelhano.

- Prestaste um serviço importante à nossa comunidade. Nós precisamos mais dos camelos e do camião do que o teu zoozinho lastimável. Vamos ficar com tudo o que tens. Podes ir para casa e levar o teu farnel. Não te preocupes que não te fazemos mal e os teus camelos estão em boas mãos.

- Mas como é que vou para casa se nem sei onde estou?

- Vais adormecer daqui a nada e quando acordares já estás no teu Alentejo. Não adianta virem à procura do camião e dos camelos, porque não nos vão encontrar. O nosso reino só se deixa ver e cheirar por quem nos é útil e quando nós queremos, apesar de vivermos debaixo do vosso nariz. O cheiro é o nosso rei e as rosas as rainhas. É a única coisa que te posso revelar.

Nesta altura o Manel da Rosa Matildes sentiu as narinas a serem inundadas por um perfume forte e simultaneamente picante, sensual e vibrante. E adormeceu.

Quando acordou estava à beira de uma estrada para os lados de Mora. Teve que vir à boleia de camionistas até casa. Chegou num domingo de Páscoa, quando já ninguém acreditava que estava vivo, a não ser a Rosa Matildes. Tinha passado um mês e as polícias portuguesa e espanhola andavam a investigar o desaparecimento, mas sem grandes avanços.

Toda a gente aqui acreditou nesta história do reino das roseiras e do cheiro forte, agressivo e possessivo. Menos eu. Desde que ouvi o ti Firmino contar isto na adega do Bartolomeu do Rómulo naquele domingo de Páscoa que me cheirou logo a patranha. 

Cá para mim ele meteu-se em negócios escuros, vendeu o camião mais os camelos e foi abandonado à beira de uma estrada sem nada. E depois inventou esta história para se safar. Ninguém me tira isto da mioleira.

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