segunda-feira, 30 de junho de 2014

Desconserto

Ele era um rapaz mais alto do que os outros da sua idade. Sempre foi desde os tempos em que aprendeu a ler e escrever. Nas matinés de adolescência destacava-se entre os amigos. Era dele que as raparigas mais gostavam para desgosto dos amigos. Só que a timidez não ajudava no momento da concretização. Acabou por ter apenas namoros passageiros e agora era um quarentão solteiro e recalcado.

Agora tinha um desejo secreto que era poder beijar todas as mulheres bonitas que se cruzassem com ele. Na rua, na empresa, no metro, na praia. A sua racionalidade impediu um disparate anos a fio até um dia.

Tudo correu mal naquelas 24 horas. Acordou tarde. Não teve tempo de tomar banho e tomar o seu metódico pequeno-almoço invariavelmente composto por uma torrada queimada com pouca manteiga e um café amargo. Chegou ao trabalho atrasado e só dentro da sala de reuniões é que reparou que a pasta do planeamento tinha ficado em casa. Tal como a pen com a apresentação que teria que fazer daí a meia-hora ao chefe. Fingiu que tinha um incêndio em casa para poder lá voltar e ao regressar inventou que o suposto telefonema que recebera era um falso alarme.

A meio da apresentação começou a suar e como nem sequer tinha posto perfume, a falta de banho sentiu-se em toda a sala. A apresentação medíocre que preparara até às tantas da manhã não ajudou. O cliente não fechou o negócio e ainda o acusou de não saber o que é tomar banho.

Ao almoço deu conta de que a carteira tinha ficado em casa e teve que se contentar com um copo de água. À tarde foi chamado ao gabinete do chefe para levar um valente raspanete pela lista de erros que cometera nas horas anteriores. Ainda por cima tinha chegado aos ouvidos do chefe que ele andara a fazer investidas à sua mulher na festa da empresa na semana anterior. Foi despedido e por justa causa.

Voltou à secretária e com os nervos espalhou os papéis todos, entornando água no computador. Foi a chacota de toda a sala. Saiu com as suas pastas, tropeçou e foi cair em frente à secretária do seu rival na empresa. Um desastre.

Pegou no carro para ir embora, mas à saída descuidou-se e bateu no carro do único amigo que tinha na empresa. A seguir teve que levar com o trânsito até casa, ainda pior do que o normal devido à chuva torrencial.

Quando chegou a casa tinha uma pequena inundação. Um cano roto e tudo molhado. Ainda tentou fazer alguma coisa, sem sucesso. Teve que chamar um canalizador. Horas depois, já com bastante dinheiro a menos no bolso, decidiu ir tentar contrariar a maré de azar com uma noite no casino. Só que perdeu tudo o que apostou.

Já a madrugada ia alta quando saiu do edifício luminoso. Bêbado que nem um cacho, o seu bafo podia provocar um incêndio. Mas quem se queimou foi mesmo ele. Viu uma beldade aproximar-se e decidiu dar largas ao seu desejo reprimido, decidiu beijá-la na boca. 

Arrebatou-a nos braços e ela começou a gritar. Em vez de sentir os lábios da donzela em botão, sentiu o enxerto de porrada que o marido dela lhe aplicou. Estatelado no chão já deitava sangue por todo o parque de estacionamento. Não se conseguia mexer e acabou por perder os sentidos.

Quando acordou estava no hospital. Olhou para si e só via fios e ligaduras. Soro, máquinas, batas brancas. Pensou que estava afinal no céu quando viu a sua paixão de infância à sua frente. Maria era agora médica no Hospital de São João. Mal ele sabia naquele momento que iria consertar a sua vida e o seu coração.

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