segunda-feira, 23 de junho de 2014

Zita

No ar havia um cheiro inebriante a cravinas. Plantadas a toda a volta da casa, davam também cor à parede de cal. Até as flores agora eram outras. Tudo estava diferente.

No pátio à entrada havia agora uma mesa branca, e, em cima, um chapéu com uma fita florida. Era como o da minha infância aqui no Alentejo dos anos 20. Uma lágrima rolou pela minha face ao vê-lo. À memória veio a imagem da minha mãe, linda e sorridente, a pegar-me no chapéu com uma mão e com a outra a ajeitar-me o vestido. Há quantos anos partiste minha mãe, há quantos anos eu não vinha a esta casa.

De repente senti uma não no ombro, forte e carnuda como a de meu saudoso pai. Era o meu primo Ernesto. As palavras não foram precisas agora, como nunca foram entre nós. Bastou um olhar de mel enternecido como o de um irmão. Bastou um abraço enorme a derreter o gelo de décadas de separação, a apagar os anos de mal-entendidos, a sobrevoar o mar de quilómetros que nos separara.

Há sentimentos que não se explicam e agora que estou perto da meta da minha vida compreendo isso melhor. Sobretudo hoje. E eu não podia faltar ao funeral da Zita. Minha melhor amiga e confidente entre searas douradas à luz do Verão, minha prima por casamento com Ernesto. Só este turbilhão de saudades me poderia fazer regressar ao meu Alentejo, à casa onde tantas vezes sorri e chorei.

Toda a gente me quis apedrejar com calúnias e infâmias quando me souberam grávida de um homem casado. Médico, e eu pobre. Rico, e eu ceifeira. Toda a gente menos tu, Zita. Toda a gente menos tu, Ernesto. Meu primo, meu irmão. 

Agora, no meio de toda a dor pela partida do teu grande amor olhámo-nos e enlaçámos as mãos em silêncio. Ficámos só nós dois e as memórias do que já foi e não mais volta a ser.

Um silvo interrompeu a nossa telepatia. Havia pessoas a chegar; desataram-se as nossas mãos. No portão, uma rapariga de feições delicadas e de uma brancura alva. Logo tive uma tontura, a minha vista turvou-se. Parecia a minha Zita. 

Na realidade, era a neta, eterno espelho do que outrora fui e fomos ao sermos as duas um só segredo, uma só alma. Se aqui estivesses tudo permaneceria como antes entre nós, Zita. Seríamos amigas e confidentes. Apesar da distância e do tempo, o amor não se apaga. Amor verdadeiro não se explica, sente-se até doer.

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