Já passava das onze da noite quando Ana acabou de arrumar a cozinha.
Depois de um dia de trabalho, ir buscar os miúdos à escola, dar banho a ambos, ajudar a fazer os trabalhos de casa, fazer o jantar e toda a
lengalenga de um dia normal, ela estava estourada e o que mais lhe
apetecia era cair redonda na cama. Só que ainda tinha que passar roupa a
ferro.
Quando ia pegar na tábua de engomar levou a mão à cabeça ao lembrar-se
de que não tinha despejado o lixo. Ainda por cima, no dia seguinte de manhã
só o conseguiria fazer com recurso a um exercício de malabarismo, tal era a
quantidade de coisas que tinha de levar para a festa da escola do filho
mais novo. Pousou a tábua e foi espreitar os miúdos. Pareciam dois
anjinhos a dormir. Não haveria problema de dar um pulo à rua para
despejar o lixo.
A descer as escadas, a cabeça de Ana ia a ferver de pensar que ainda
tinha tanta coisa para fazer antes de ir dormir. E o marido que nunca
mais conseguia mudar de emprego para deixar de trabalhar à noite. Com
tanto pensamento a correr de um lado para o outro, Ana nem pensou no que
estava a fazer e deixou cair as chaves de casa para dentro do contentor
junto com o saco preto.
- Era o que me faltava agora, desabafou em voz alta.
Esticou o braço mas não conseguia chegar aos sacos. Esticou o outro, e
nada. Lembrou-se de saltar para dentro do contentor, mas hesitou. Olhou
em volta, observou as janelas dos prédios onde havia luz. Ninguém
parecia preocupado com o que se passava na rua.
Decidiu levar a sua
ideia avante. Empoleirou-se no papelão que ficava ao lado do contentor
do lixo indiferenciado, sentou-se lá em cima, e preparava-se para saltar
para dentro quando viu no meio dos sacos uma mão aberta com as suas
chaves. Ana deu um pulo com o susto.
- Não se assuste que eu não lhe faço mal, minha senhora. - disse uma voz de criança que vinha de dentro.
Ana viu uma cabeça com caracóis castanhos, um rosto de pele morena e uma
roupa esburacada. Era um rapaz do tamanho do seu filho mais velho, com
uns nove anos. O único aspecto cómico daquela visão era uma casca de
banana nos ombros da criança.
Como mãe, Ana não consentiria que uma
criança procurasse comida num caixote do lixo e decidiu levá-lo para
casa. Dar-lhe banho, roupa, comida. Uma cama, um lar.
Não foi fácil convencê-lo a subir. O rapaz tinha fugido de casa há umas
semanas, depois de os pais morrerem num acidente de carro. Ele não
queria ir para um orfanato, dizia, pedindo para ela o deixar ficar a
dormir dentro do caixote do lixo. Após muitos argumentos e promessas lá o
convenceu a subir.
Quando o marido chegou a casa, Ana estava a dormitar sentada no chão, ao
lado do sofá onde uma criança dormia. Acordou a mulher para saber o que
se passava. Quem era o miúdo.
Apesar de achar que a ideia dela de adoptar a criança era de
doidos lá assentiu, pensando que ela iria acabar por desistir. A verdade é que não só não desistiria, como acabaria por consegui-lo.
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