terça-feira, 10 de junho de 2014

O caixote do lixo que era uma cama

Já passava das onze da noite quando Ana acabou de arrumar a cozinha. Depois de um dia de trabalho, ir buscar os miúdos à escola, dar banho a ambos, ajudar a fazer os trabalhos de casa, fazer o jantar e toda a lengalenga de um dia normal, ela estava estourada e o que mais lhe apetecia era cair redonda na cama. Só que ainda tinha que passar roupa a ferro.

Quando ia pegar na tábua de engomar levou a mão à cabeça ao lembrar-se de que não tinha despejado o lixo. Ainda por cima, no dia seguinte de manhã só o conseguiria fazer com recurso a um exercício de malabarismo, tal era a quantidade de coisas que tinha de levar para a festa da escola do filho mais novo. Pousou a tábua e foi espreitar os miúdos. Pareciam dois anjinhos a dormir. Não haveria problema de dar um pulo à rua para despejar o lixo.


A descer as escadas, a cabeça de Ana ia a ferver de pensar que ainda tinha tanta coisa para fazer antes de ir dormir. E o marido que nunca mais conseguia mudar de emprego para deixar de trabalhar à noite. Com tanto pensamento a correr de um lado para o outro, Ana nem pensou no que estava a fazer e deixou cair as chaves de casa para dentro do contentor junto com o saco preto.


- Era o que me faltava agora, desabafou em voz alta.


Esticou o braço mas não conseguia chegar aos sacos. Esticou o outro, e nada. Lembrou-se de saltar para dentro do contentor, mas hesitou. Olhou em volta, observou as janelas dos prédios onde havia luz. Ninguém parecia preocupado com o que se passava na rua. 


Decidiu levar a sua ideia avante. Empoleirou-se no papelão que ficava ao lado do contentor do lixo indiferenciado, sentou-se lá em cima, e preparava-se para saltar para dentro quando viu no meio dos sacos uma mão aberta com as suas chaves. Ana deu um pulo com o susto.

- Não se assuste que eu não lhe faço mal, minha senhora. - disse uma voz de criança que vinha de dentro.


Ana viu uma cabeça com caracóis castanhos, um rosto de pele morena e uma roupa esburacada. Era um rapaz do tamanho do seu filho mais velho, com uns nove anos. O único aspecto cómico daquela visão era uma casca de banana nos ombros da criança. 


Como mãe, Ana não consentiria que uma criança procurasse comida num caixote do lixo e decidiu levá-lo para casa. Dar-lhe banho, roupa, comida. Uma cama, um lar.

Não foi fácil convencê-lo a subir. O rapaz tinha fugido de casa há umas semanas, depois de os pais morrerem num acidente de carro. Ele não queria ir para um orfanato, dizia, pedindo para ela o deixar ficar a dormir dentro do caixote do lixo. Após muitos argumentos e promessas lá o convenceu a subir.


Quando o marido chegou a casa, Ana estava a dormitar sentada no chão, ao lado do sofá onde uma criança dormia. Acordou a mulher para saber o que se passava. Quem era o miúdo. 


Apesar de achar que a ideia dela de adoptar a criança era de doidos lá assentiu, pensando que ela iria acabar por desistir. A verdade é que não só não desistiria, como acabaria por consegui-lo.

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