Era um daqueles dias quentes de verão em que nem sequer as formigas se
atrevem a ir para a rua. Em que só se está bem junto ao mar. Ana tinha chegado ao Alentejo há pouco tempo e não estava habituada ao calor abrasador. Ainda sem amigos na nova
aldeia, decidiu ir sozinha à praia. Pegou no chapéu-de-sol e no saco de
praia, meteu-se no carro e arrancou.
Sem GPS nem mapa que lhe valesse acabou por se perder no caminho que mal conhecia para a praia. Ainda por cima não via vivalma a quem perguntar informações.
A certa altura do pinhal viu uma casita branca ao longe. Parou o carro à beira da estrada e seguiu o caminho de caruma até ao pequeno edifício. Quando estava a chegar perto do casebre as cigarras à volta deixaram de cantar e ela parou instintivamente. Foi então que ouviu uma voz nítida de mulher.
"Eu não sou eu se não fores tu. Tu nasceste de mim como nunca ninguém tinha nascido, mas depois de ti virão outros. Eu sou a raiz. Tu és o fruto. Os ramos e a copa, a vida. A vida que tem vários braços, vários caminhos, várias encruzilhadas.
Desde que existes que eu viajo de mim ao teu encontro. Tento ver-te por dentro, saber se tens seiva, se ao teu redor as folhas permanecem verdes, escolher o melhor ramo para não te perder.
Tu és o meu fruto e ninguém pode alterar isso. Nem o tempo, nem as estações do ano, nem a distância que possa vir a existir entre mim e ti, raiz e fruto. Nada pode apagar ou mudar tudo isso num mundo em constante mudança. Não se pode mudar o que é imutável. Não se pode cortar o que está intrinsecamente ligado.
Estamos unidos desde sempre e para sempre com um
laço que não se consegue desatar. Tu és o meu fruto e sem ti a raiz que
sou eu não faz sentido. Eu sou mãe porque tu és filho. E uma mãe é uma
raiz de uma árvore que não seca. Para sempre."
Ana ficou comovida ao ouvir aquelas palavras e com um choro rompeu o silêncio que se fizera entretanto no pinhal . Ela tinha estado grávida dois anos antes, mas fez um aborto, porque o namorado da altura não queria ser pai. Acabariam por separar-se, e, até àquela altura, Ana tinha a convicção de que a decisão de abortar tinha sido a pior que tinha tomado na sua vida.
Enquanto chorava compulsivamente e repetia em voz baixa que ao menos hoje teria um filho, uma mulher assomou à janelita debruada a azul. Tinha um bebé ao colo.
Ao ver Ana de cócoras a chorar, a dona da casita branca
pousou o filho no berço e foi à rua confortá-la. Duas mulheres que não se conheciam unidas naquele instante por um laço invisível que não sabiam descrever. Houve um abraço e naquele momento as
cigarras voltaram a cantar no pinhal.
A partir daquele dia Ana não foi mais à praia sozinha. A partir daquele dia Ana ganhou novos amigos. E, verdade seja dita, naquele mesmo dia viria a conhecer aquele que hoje é o pai dos seus quatro filhos - o irmão da mulher da casita branca com janelas debruadas a azul e um bebé ao colo.
Sem comentários:
Enviar um comentário