segunda-feira, 2 de junho de 2014

Viajar de avião faz mal aos adultos

Acordou com o som da televisão. Parecia que estava a ouvir desenhos animados, mas não percebia nada do que diziam.

Tentou abrir os olhos, mas tinha as pálpebras tão pesadas que só o conseguiu a custo. Viu uma luz branca diferente do habitual do lado da janela e a árvore que via na rua também não era a mesma do costume. Só então é que se lembrou de que não estava em casa.

Foi nessa altura que ouviu uma gargalhada sonora aos pés da cama. Levantou-se de um salto e viu os pais sentados no chão. Estavam a olhar para a televisão como duas crianças. Aquele cenário não fazia sentido para ele. Nunca tinha visto os pais abraçados, sentados no chão, a ver desenhos animados. Ainda por cima numa língua estranha, não percebia nada do que a televisão dizia. E ele, que tinha oito anos, foi o último a acordar. 

Terá sido da viagem de avião que ficou tudo ao contrário ou aqui é assim, questionou-se. Ou então é por estarmos num quarto de hotel, pensou. Nunca tinha dormido fora de casa antes desta viagem.

Estava tão espantado que nem sequer se tinha levantado ainda da cama quando os desenhos animados foram substituídos na televisão por paisagens de neve e pessoas a fazer esqui. Felizmente a mãe levantou-se nesse momento para ir à casa-de-banho e iria responder a todas as dúvidas, pensou boquiaberto.

Afinal a mãe explicou apenas que ela e o pai estavam felizes por recordar que foi naquele quarto de hotel em Moscovo que estavam quando a cegonha o veio entregar dentro de uma cestinha. Virou as costas e fechou a porta da casa-de-banho. Iuri ficou ainda mais baralhado.

Se os bebés são fabricados quando os pais ficam juntos na cama com a porta do quarto fechada à chave, como o Vitinho me disse lá no recreio da escola, por que é que eu tive que vir de uma cegonha?  Será que eu sou russo então? É por isso que tenho este nome diferente dos meus amigos? Mas se fosse também percebia o que dizem na televisão! E na Rússia há cegonhas? Pensava que a neve que está lá fora as matava todas!

Quis pôr todas estas perguntas ao pai, mas ele passou em silêncio e foi ter com a mãe à casa-de-banho. Quando voltaram, Iuri ainda olhava para a televisão, estranhando umas letras esquisitas que apareciam em rodapé.

Os pais tiveram que gritar para que ele acordasse daquela espécie de sonambulismo sentado na cama. Tinha que se vestir e despachar depressa que ainda havia um avião para apanhar para outro país.

A ditadura dos adultos é uma seca. Podem fazer e dizer tudo o que querem e depois passam parte do tempo a ignorar o que as crianças dizem, lamentou-se em voz baixa. Tentou pedir ajuda para abotoar a camisa, mas os pais pareciam mais interessados em vestir-se um ao outro.

Desceram apressados para tomar o pequeno-almoço junto com as irmãs mais velhas, que tinham ficado noutro andar do hotel. Pelo menos há alguém que fica feliz de me ver, pensou enquanto elas o abraçavam e beijavam. Pelo menos nem todos os adultos ficam idiotas quando se viaja de avião!

O pior foi mesmo quando os pais o quiseram obrigar a comer cereais com leite. Tudo tinha um sabor horrível, nada igual a Portugal. Ainda por cima queriam convencê-lo de que o leite tinha vindo dos Açores e que aquele sabor era da longa viagem que tinha feito. Ainda bem que os pais foram juntos à casa-de-banho. A irmã mais velha comeu aquilo tudo enquanto o diabo esfrega um olho. Em troca, deu-lhe um pacote de bolachas de chocolate que tinha trazido de casa.

Enquanto devorava aquele manjar o mais rápido que podia para não ser apanhado pelos pais, Iuri só pensava que os pais tinham ficado doidos com aquela viagem. Andam sempre agarrados, vão à casa-de-banho ao mesmo tempo, mal falam e querem obrigá-lo a fazer tudo sem dar explicações em troca.

Demorassem os pais mais um bocado a chegar à sala do hotel e Iuri pensaria que todos os males do mundo vinham das viagens de avião. Ainda por cima as férias mal tinham começado.

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