terça-feira, 27 de maio de 2014

Vi-te e não precisei do Facebook

Agora há umas páginas de Féizebuqui - ou lá como isso se diz - que servem para encontrar pessoas na Interneti que se viram num sítio e que podiam ser almas gémeas.  Vi-te no comboio, Vi-te no autocarro, Vi-te no metro. Se calhar até há páginas Vi-te no hospital e Vi-te na fila da Loja do Cidadão. Não sei, porque não me entendo com essas traquitanas dos computadores. Tenho mais de 80 anos e já não estou para isso. Os meus netos é que estão sempre a falar dessas geringonças. Se calhar a senhora enfermeira também percebe disso, porque ainda é nova.

No meu tempo não era preciso nada disso. Quando era nova não precisei dessas coisas para encontrar o avô deles. É bem verdade que na altura em que o conheci não me aquecia nem arrefecia. Mas ele não desistiu de mim desde que nos vimos pela primeira vez.

Ele trabalhava na loja de tecidos onde eu ia comprar os materiais quando andava a aprender costura, só que nunca o vi lá porque ele andava a fazer entregas em casa das pessoas. Só mais de um ano depois de começar a ir lá é que nós encontrámos.

Fui um dia com a minha amiga Adelaide ao mercado fazer compras para as nossas mães quando um rapaz que ia a sair apressado chocou de frente com ela. Pediu desculpa e ofereceu-se para pagar as duas dúzias de ovos que tinha partido. Eu afinei com ele e disse que era mesmo bom que pagasse, porque era o culpado do acidente. 

Dezenas de anos mais tarde, senhora enfermeira, ele confessou-me que eu ficava mais bonita quando me irritava e foi por eu ser uma rapariga decidida que começou a gostar de mim. Na altura, depois do meu ralhete, ele voltou a pedir desculpa, disse que estava com pressa, e daí a dois dias voltaria para pagar os ovos. À mesma hora e no mesmo sítio.

Que insolência, protestei eu. Que bonito rapaz, suspirou a Adelaide, é pena já ter namorado. Eu não tinha e estava-me nas tintas para isso. Dois dias depois ela estava adoentada e a mãe não a deixou sair de casa. Mas eu não podia deixar de ir só para exigir o dinheiro ao outro.

Quando cheguei ao mercado já lá estava ele com os ovos dentro de um cesto. Trocámos algumas palavras. Já nem me lembro muito bem o que era. Sei que fiquei a saber que ele trabalhava para a tal loja e que ele ficou a saber em que dias e horas eu costumava ir lá. Muito cordial e cavalheiro afinal, pensei eu na altura, é pena a Adelaide não estar cá hoje. 

A verdade é que ela entretanto casou-se e eu fiquei amiga do rapaz, que acabou por me conquistar pelos seus dotes de costura. Sim, que eu detestava aquilo. Depois de casarmos fui trabalhar para a loja de chá em frente aos tecidos e em nossa casa era sempre ele a fazer toda a costura. Um dia conto-lhe o resto da história, porque a senhora enfermeira deve ter mais doentes para ver aqui no hospital.

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