Na minha rua havia uma casa com muitas janelas e com um ar
fantasmagórico. Um dia em que estava parado no semáforo em frente contei
no segundo andar cinco janelas do lado da rua principal e mais sete do
lado da minha rua. Todas alinhadas com outras tantas janelas no primeiro
andar e no rés-do-chão. Porém, em seis anos que lá vivi nunca vi
vivalma em qualquer uma daquelas aberturas para o exterior. E as
portadas estavam sempre fechadas.
Sempre que parava no semáforo e não
tinha a minha mulher a buzinar-me aos ouvidos, nem os putos a discutir
um com o outro, eu punha-me a imaginar as histórias que aquela casa
poderia guardar. Mas sem nunca saber o que esconderia.
Até ao dia em que o meu filho mais novo, na altura com sete anos, chegou
a casa esbaforido. Andava de bicicleta com os amigos num final de tarde quando se lembraram de abrir o portão e entrar. Tal como toda a gente adulta
que vivia naquela rua, também as crianças tinham curiosidade em relação
ao casarão desabitado. Só que eles decidiram entrar na casa.
Rodaram a
chave de ferro e os trincos chiaram na fechadura enferrujada. Foram
entrando em silêncio pelo pátio e encontraram uma das portas encostadas.
Entraram os cinco, pé ante pé, fazendo o soalho gritar e os copos nos
armários tinitar. O pó fez com que um dos miúdos espirrasse e foi nessa
altura que ouviram uma voz forte gritar.
- Quem está aí? Quem ousa perturbar o meu descanso eterno?
Foi nesta altura que os miúdos desataram a correr para a rua com quanta
velocidade podiam. Quando chegaram à estrada repararam que faltava um
deles, mas nenhum tinha coragem de voltar atrás.
Ficaram uns minutos em suspenso sem saber o que fazer até que o meu Dudu
se lembrou de que o pai - portanto eu - era polícia. O fantasma que prendeu o Cajó iria
certamente obedecer-lhe e libertar o amigo. Ao ouvir isto olhei para a
minha mulher, que me encorajou a ir ao casarão. Calcei-me rapidamente e saí.
Já era de noite quando cheguei ao portão. Os miúdos ainda estavam na
estrada quase em estado de choque. E eu, que repetia de mim para mim que
ia correr tudo bem, entrei no pátio sem pinga de sangue. Olhei mais uma
vez para trás e senti-me impelido a seguir em frente com a minha
lanterna na mão.
Bati à porta. Uma, duas, três vezes. Chamei "ó da casa", bati palmas,
gritei a avisar que iria entrar. Até que empurrei o rectângulo de madeira
envelhecida e apontei com a luz para dentro.
- Cajó? Estás aí?
Nada de resposta. Entrei no escuro.
Ouvi um interruptor e logo se fez luz.
À minha direita estava um homem
em cadeira de rodas. Parecia ter mais de cem anos. Tinha um ar grave e
triste, mas notava-se que estava assustado e surpreendido com a minha
presença. O rosto era-me familiar.
Na mesma fracção de segundos em que percebi quem era, o Cajó saiu de trás de
um sofá à minha esquerda e veio agarrar-se às minhas pernas.
- Eduardo Miguel, podes explicar-me o que se passa? Quem é esse miúdo e o que estão a fazer na minha casa?
O velho era o meu padrinho, que não via há mais de vinte anos. Quando a minha madrinha morreu ele quase enlouqueceu e deixou o nosso Algarve. Nunca disse a ninguém
aonde ia. Nunca mais deu notícias.
Como já na altura tinha uns 80 anos,
toda a gente achou que teria morrido daí a algum tempo. E pensar que foi
preciso a polícia me colocar aqui em Tomar e que foi preciso a audácia
dos miúdos para que nos viéssemos a reencontrar.
Ainda fomos vizinhos durante mais dois anos. Voltei agora à cidade e vi que o casarão tinha sido restaurado e transformado numa pousada. À entrada está a placa com o nome "Pousada O Velho".
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