terça-feira, 6 de maio de 2014

A casa

Na minha rua havia uma casa com muitas janelas e com um ar fantasmagórico. Um dia em que estava parado no semáforo em frente contei no segundo andar cinco janelas do lado da rua principal e mais sete do lado da minha rua. Todas alinhadas com outras tantas janelas no primeiro andar e no rés-do-chão. Porém, em seis anos que lá vivi nunca vi vivalma em qualquer uma daquelas aberturas para o exterior. E as portadas estavam sempre fechadas. 

Sempre que parava no semáforo e não tinha a minha mulher a buzinar-me aos ouvidos, nem os putos a discutir um com o outro, eu punha-me a imaginar as histórias que aquela casa poderia guardar. Mas sem nunca saber o que esconderia.

Até ao dia em que o meu filho mais novo, na altura com sete anos, chegou a casa esbaforido. Andava de bicicleta com os amigos num final de tarde quando se lembraram de abrir o portão e entrar. Tal como toda a gente adulta que vivia naquela rua, também as crianças tinham curiosidade em relação ao casarão desabitado. Só que eles decidiram entrar na casa. 


Rodaram a chave de ferro e os trincos chiaram na fechadura enferrujada. Foram entrando em silêncio pelo pátio e encontraram uma das portas encostadas. Entraram os cinco, pé ante pé, fazendo o soalho gritar e os copos nos armários tinitar. O pó fez com que um dos miúdos espirrasse e foi nessa altura que ouviram uma voz forte gritar.

- Quem está aí? Quem ousa perturbar o meu descanso eterno?


Foi nesta altura que os miúdos desataram a correr para a rua com quanta velocidade podiam. Quando chegaram à estrada repararam que faltava um deles, mas nenhum tinha coragem de voltar atrás.


Ficaram uns minutos em suspenso sem saber o que fazer até que o meu Dudu se lembrou de que o pai - portanto eu - era polícia. O fantasma que prendeu o Cajó iria certamente obedecer-lhe e libertar o amigo. Ao ouvir isto olhei para a minha mulher, que me encorajou a ir ao casarão. Calcei-me rapidamente e saí.


Já era de noite quando cheguei ao portão. Os miúdos ainda estavam na estrada quase em estado de choque. E eu, que repetia de mim para mim que ia correr tudo bem, entrei no pátio sem pinga de sangue. Olhei mais uma vez para trás e senti-me impelido a seguir em frente com a minha lanterna na mão.


Bati à porta. Uma, duas, três vezes. Chamei "ó da casa", bati palmas, gritei a avisar que iria entrar. Até que empurrei o rectângulo de madeira envelhecida e apontei com a luz para dentro.


- Cajó? Estás aí?


Nada de resposta. Entrei no escuro.


Ouvi um interruptor e logo se fez luz. 


À minha direita estava um homem em cadeira de rodas. Parecia ter mais de cem anos. Tinha um ar grave e triste, mas notava-se que estava assustado e surpreendido com a minha presença. O rosto era-me familiar.

Na mesma fracção de segundos em que percebi quem era, o Cajó saiu de trás de um sofá à minha esquerda e veio agarrar-se às minhas pernas.


- Eduardo Miguel, podes explicar-me o que se passa? Quem é esse miúdo e o que estão a fazer na minha casa?


O velho era o meu padrinho, que não via há mais de vinte anos. Quando a minha madrinha morreu ele quase enlouqueceu e deixou o nosso Algarve. Nunca disse a ninguém aonde ia. Nunca mais deu notícias.


Como já na altura tinha uns 80 anos, toda a gente achou que teria morrido daí a algum tempo. E pensar que foi preciso a polícia me colocar aqui em Tomar e que foi preciso a audácia dos miúdos para que nos viéssemos a reencontrar. 

Ainda fomos vizinhos durante mais dois anos. Voltei agora à cidade e vi que o casarão tinha sido restaurado e transformado numa pousada. À entrada está a placa com o nome "Pousada O Velho".

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