Eu não merecia ser tão mal tratada pela vida.
O meu homem trocou-me por uma gaiata uns anos mais nova e está a viver
em casa dela. Ele estava em minha casa há um ano. Dava-lhe da pouca
comida que tinha, lavava-lhe a roupa, passava-a a ferro, e o pior de
tudo é que entregava-lhe a minha vida, o meu coração. Partilhei a minha
vida com ele em tudo.
Zanguei-me com os meus quatro filhos por causa dele. Eles não queriam
que eu vivesse com um homem que tinha sido drogado, que bebia vinho ao
pequeno-almoço, que vivia do rendimento mínimo. Mas eu não quis saber.
Sempre estive habituada a apanhar porrada. Primeiro foi do pai deles. Eu
punha o prato quente de comida na mesa e levava com ele na cara ou pelo
chão acabado de limpar.
Apanhava de manhã porque estava a chover, ou à
noite porque tinha feito sol. Apanhava todos os dias de todas as formas e
feitios. Com o cinto, a colher de pau, a vassoura, o jarro de vinho, a
travessa da comida, ou o que estivesse mais à mão. Eu achava que era
normal.
Foram trinta anos a apanhar até que ele decidiu trocar-me por
uma com idade para ser nossa filha. Foram viver juntos para a rua de
baixo. E eu fiquei sozinha e com saudades dele. Pelo menos havia alguém
que se lembrava que eu existia. Mesmo que também me batesse de vez em quando.
Os meus filhos diziam que não iam lá a casa enquanto eu não mandasse o
pai embora, que eu não podia deixar que ele me batesse. Mas quando ele
foi embora também não me vieram ver. Nunca. Fiquei sozinha. Eu e o meu
trabalho de lavar escadas e obedecer a patroas de nariz empinado que
acham que sou propriedade delas. Fiquei sozinha. Só sabia dos meus filhos quando lhes
telefonava nos anos e no Natal.
Quando já estava amarfanhada pela solidão veio ele. O meu homem. Tinha
um passado forte, mas gostava de mim. Ao princípio dava-me carinho,
depois dava-me porrada. E eu que vivi tanto tempo sozinha achei que era
este o meu destino e que era assim que eu era feliz. Porque sozinha
também não era feliz.
Mas agora ele deixou-me. Trocou-me pela outra. É a segunda vez que isto
me acontece. Acham que eu merecia tanto sofrimento nesta vida? Eu acho
que não. E é por isso que vou acabar com ela. Nem sequer o meu nome
condiz comigo.
A quem encontrar esta carta peço uma coisa que eu nunca tive coragem,
nem saber para fazer. Dizer a toda a gente que uma mulher, um ser
humano, não pode aceitar ser agredido pelo marido, namorado, mulher ou
namorada.
Ninguém é de ninguém. Se se gosta de alguém tem que se ter
respeito por essa pessoa. Na realidade, acho que só agora vejo isso com a
clareza de quem está à beira do abismo. Espero que outras e outros
vejam isso mais cedo. Quem gosta não trai. Quem gosta não bate. Quem
gosta não maltrata. Nunca se esqueçam disso.
O meu nome é Felisbela e tinha 63 anos.
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