terça-feira, 20 de maio de 2014

Pedreiro telúrico

Ele tinha uma força telúrica que se explicava com o simples facto de ter nascido em Trás-os-Montes. Só que ali ninguém sabia nada do seu passado.

Quem olhava para ele via uma fraca figura. Franzino, baixinho, de pulso fino, a cabeça  também pequena e redonda. No cimo do esférico viam-se apenas alguns fios pretos a voar.

No novo trabalho os colegas olhavam de lado para ele naquele primeiro dia. Interrogavam-se como podia um homem daqueles ter força suficiente para erguer sacos de cimento às costas, arrastar baldes de massa e acartar enormes pedras mármores.

Que coisa estranha, era o pensamento que ia em todas as 17 cabeças que ali estavam. Ainda que o patrão o contratasse como pintor ou canalizador compreenderiam. Mas contratá-lo como pedreiro? Que coisa estranha. Que falta faria o Júlio pedreiro, que estava de baixa por causa do cancro  que lhe apareceu. Que coisa estranha. Em tempo de crise haveria tanto homem forte desempregado e que gostaria de ser contratado como pedreiro. Que coisa estranha. Ainda por cima um homem que tinha acabado de chegar ao Algarve e que ninguém conhecia na vila. Mesmo estranho.

Estavam todos nestes pensamentos quando o patrão gritou perguntando de que estavam todos à espera para ir trabalhar e se ficariam ali toda a manhã especados. O transmontano apertou a mão ao chefe e ainda ouviu um "bom trabalho".

Foi então que começaram as conversas em surdina enquanto se dirigiam para as carrinhas. A caminho das obras e durante todo o dia não se comentaria outra coisa senão aquela estranha contratação e o cumprimento nada habitual do patrão.

A exepção foi mesmo a carrinha onde ia o transmontano. Quatro homens ali iam e nem uma mosca se ouvia. Até que o pequenito rasgou o silêncio e apresentou-se aos colegas, explicando que acabara de chegar de Lisboa, onde trabalhara desde que se fez homem. 

Nascido e criado em Trás-os-Montes, não conhecia outro trabalho que não as obras ou a agricultura num pequeno terreno que tinha em Lisboa. Agora que a mulher morreu e ficou sozinho na capital, decidiu ir ter com a filha, o genro e os netos ao Algarve. Não podia estar mais feliz, porque encontrou um grande amigo de infância assim que lá chegou e ele ofereceu-lhe emprego como pedreiro.

Nessa altura as outras três cabeças ficaram a pensar que estava explicada a contratação. E se é amigo do patrão, o melhor é tratá-lo bem.

No final do dia não se falou outra coisa na vila. São amigos. Veio de Trás-os-Montes. É viúvo. Está a viver em casa da filha. E logo as bocas se abriam de espanto.

A parte em que ninguém acreditava nos três homens  era quando diziam que afinal o transmontano não era tão fraco como se pensava. Naquele primeiro dia ele arrastava baldes de cimento dos serventes, assentava tijolo, pegava no prumo com mestria, acartava sacos de cimento para junto à betoneira. Um verdadeiro pedreiro. Só que ninguém queria acreditar nisto.

Os dias passaram e o transmontano continuava o bom trabalho. Já tinha conquistado a confiança dos colegas, mas na vila ninguém acreditava. Achavam que era apenas medo de serem denunciados ao patrão pelo novato. Quando souberam que na semana seguinte o transmontano iria trabalhar nas obras da igreja da vila as viúvas da vila traçaram um plano.

Na segunda-feira às oito da manhã lá estavam todas à volta da igreja com o pretexto de que precisavam de acompanhar as obras para ver se tudo estava bem com os santos ou se os homens precisavam que elas fossem chamar o padre para dar alguma indicação. Os homens estranharam, mas encolheram os ombros e puseram mãos à obra.

Bastaram algumas horas para ficarem todas apaixonadas por aquele transmontano franzino de força inesperada. Era vê-las com os calores em pleno mês de janeiro, a abanarem-se com as mãos como se fosse agosto. E a partir daquela altura era vê-las à luta para conquistar o coração do pedreiro inusitado.

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