segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sonhar pelos outros

Etelvina queria uma nora que soubesse bordar e coser para fazer companhia à lareira nas noites de inverno. Ajudar a cuidar da horta, limpar a casa e fazer a comida. Dar-lhe netos e criá-los. Que mais podia uma mulher querer da vida senão viver assim ao lado da sogra?
Na casa ao lado, Juventino queria um genro que soubesse pegar num tractor, lavrar a terra, rachar lenha e roçar mato. Beber um litro de vinho ao jantar, palitar os dentes, comer moelas na taberna e jogar cartas. Um genro assim era um sonho.


Um e outro eram viúvos e acreditavam que os filhos iriam casar com pessoas assim e lhes dariam netos para atenuar a solidão da velhice.


Só que aconteceu o que nenhum dos dois esperava. O filho de Etelvina e a filha de Juventino caíram de amores um pelo outro, depois de umas relações fugazes de que os pais não tinham tido conhecimento sequer. Vera e João conheciam-se desde sempre, mas só agora a paixão despertara. Mas nem um, nem outro correspondiam ao perfil de genro e nora de sonho.


Vera era engenheira e queria consolidar uma carreira antes de pensar em casar e ter filhos. João era enfermeiro e queria voltar a estudar para chegar a médico.


A paixão repentina, a relação arrebatadora em poucos meses não estavam nos planos. Nem este envolvimento estava nos planos dos pais de ambos. Viúvos e vizinhos, tinham estima um pelo outro, mas o que menos queriam era que os filhos se envolvessem. Não era isso que tinham sonhado para os filhos, simplesmente porque nem sequer sonhavam que os filhos fossem para a universidade. Sempre desejaram que tivessem um percurso como o seu, que não seguissem os estudos. E que lhes dessem netos rapidamente. Por isso, opuseram-se fortemente àquele namoro.


Etelvina e Juventino decidiram lutar juntos contra a relação dos filhos. Todos os dias juntavam-se para planear formas de sabotar o namoro. Inventavam mentiras aos filhos para denegrir a imagem de Vera aos olhos de João e vice-versa, arranjavam mil e um esquemas e até encontraram o genro e a nora perfeita para cada um, tentando atirá-los para os braços dos filhos.


Nada resultou. Quanto mais os tentavam afastar, mais eles se aproximavam. Chegou a um ponto em que Vera e João já não suportavam Etelvina e Juventino, os seus esquemas e mentiras. Em segredo arranjaram trabalho na Suíça, compraram os bilhetes e fizeram as malas. Os pais só souberam de tudo no dia da viagem.


Etelvina e Juventino perderam os filhos para sempre. Magoados com os pais, Vera e João nunca mais voltaram a Portugal. Etelvina e Juventino não chegaram a conhecer os netos, não viram João tornar-se médico e Vera dona de uma empresa de sucesso.


Apesar de tudo, Etelvina e Juventino sempre acharam que os filhos é que estavam errados e teriam que arrepender-se pelo que fizeram. E tanto se apoiaram um ao outro que acabaram por se envolver. E aos 53 anos Etelvina engravidou e Juventino voltou a ser pai.

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