segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Temor de terra

Acordou sobressaltado com a sensação de que o coração lhe iria saltar pela boca. Olhou à volta, viu que estava no quarto, e concluiu que teria apenas tido um pesadelo. Mas não foi. Na verdade, foi um tremor de terra que o acordou.

O relógio marcava quatro e dez da manhã. Os primeiros raios de sol já entravam pelo quarto, o que o fez pensar que nunca se conseguiria habituar à duração dos dias nos países nórdicos. E agora nem era a altura do ano em que a claridade chega mais cedo. Depois destes primeiros pensamentos é que olhou à volta e viu os livros no chão e tudo desordenado no quarto. Sentiu então a cama a abanar novamente e deu-se conta de que era um sismo.


Agora é que não percebia nada. Um tremor de terra assim não era nada comum nos países nórdicos. Só então se lembrou que o melhor seria proteger-se, mas por mais que puxasse pela cabeça não se conseguia lembrar de nenhuma das regras básicas de segurança.


Pelo contrário, só lhe ocorria saltar pela janela. Já estava a abri-la quando raciocinou que não seria uma boa ideia saltar do 15.º andar. Voltou para dentro. Fechou a janela. 


Um novo tremor abalou o quarto. Foi pôr-se debaixo da cama bem quietinho à espera que tudo passasse. Fechou os olhos e imaginou que a mãe o abraçava, como quando em criança acordava com pesadelos e tinha medo de fantasmas. A terra não parava de tremer e o temor dele crescia.

Subitamente a maçaneta rodou e ouviu passos. Uma mulher chamou pelo seu nome. Saiu e pôs-se em pé. À sua frente estava a mãe. A mesma que tinha morrido há quase vinte anos. Ele piscou os olhos e esfregou-os sem perceber o que se passava.


- Amor, vim buscar-te para irmos para o céu. Morreste, mas não tenhas medo. A mãe está aqui para te abraçar.

Sem comentários:

Enviar um comentário