Apeteceu-me pegar-te na mão, pousar o teu telemóvel ao lado do hambúrguer e carregar num botão para tirar o som todo à nossa volta. Queria fazer parar toda a gente naquela área de restauração de centro comercial, tirá-los dali.
É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.
Mas nada disso aconteceu.
No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.
O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.
O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.
Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.
O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.
Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.
A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.
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