Na paragem de autocarro no centro da cidade só se viam caras fechadas.
Pessoas cansadas ao fim de mais um dia de trabalho, pensando nos seus
problemas ou apenas organizando mentalmente o que teriam ainda para
fazer quando chegassem a casa. Havia mesmo quem estivesse com vontade de
chorar por não ter nada para comer em casa, excepto bolachas. E
o fim do mês que nunca mais chega, lamentava.
Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos
abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a
orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de
supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os
olhos de ambos irradiavam felicidade.
- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente
que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.
A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar
para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem
tem dinheiro para ir ao supermercado.
O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro
acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz
assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no
país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com
esta velha, só pode.
Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda
tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres
roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela
maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz,
não tem razões para sorrir assim, estava convencido.
O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a
saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários
que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital
onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O
pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.
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