segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Noite de patrulha

A noite começava a embalar os mais incautos quando um grito atravessou o céu. Uma voz de mulher. Um pedido de ajuda lancinante. Mas de onde viria? Não parecia ser muito longe.

Em duas décadas de profissão Ana não se cansava de ser polícia e era nestas alturas que mais gostava de envergar esta farda. Aquelas patrulhas simples e rotineiras podem tornar-se numa missão importante. Seria este o caso? Só umas horas mais tarde viria a descobrir.


Com um dedo em frente aos lábios, Ana fez sinal ao colega para que se calasse, e, acto contínuo, saiu do carro. Deixou a porta aberta e pôs-se à escuta, mas nada mais se ouviu. O breu estava fechado e o silêncio pesava sobre o arvoredo à volta. O caminho de terra batida mal se via. A lua em quarto minguante não ajudava a alumiar a estrada secundária.


Estática por uns minutos, Ana esperava ouvir mais alguma coisa. Em vão. Voltou a entrar no carro. Fez sinal ao novato que guiava e puseram-se lentamente em marcha. Nada de significativo se via, nada se ouvia para além de um ou outro grilo. Foi então que decidiu seguir o instinto ou sexto sentido ou a voz da experiência. Seria melhor esperar para reagir. Aqui havia gato, pensava. E nem lhe passava pela cabeça ir patrulhar para outro lado.



Ficariam estacionados do lado de fora da estrada, de forma a que o carro ficasse escondido pelos arbustos e não fosse visto por quem passasse por ali. Assim permaneceram uns três quartos de hora até que viram uns faróis a cortar lentamente a escuridão ao longe. Ana saiu do carro e ficou numa posição em que veria bem o veículo. Era uma carrinha de sete ou nove lugares preta e de vidros fumados. A matrícula era portuguesa. 


Começava a confirmar as suas suspeitas de que alguma coisa de anormal se passava. Lembrou-se de repente de que não muito longe dali havia um grande armazém abandonado. Seria para lá que ia a carrinha? Seria de lá que tinha vindo o grito de mulher? Decidiu ir até lá a corta-mato. E deixar o colega no carro.

Conhecia bem a zona desde criança. Gostava de brincar com os irmãos por ali, porque era nesse mesmo armazém que na altura estavam os produtos de mercearia que depois iriam ser distribuídos pelos minimercados da região. Às vezes os empregados davam um chocolate ou uns rebuçados aos miúdos que se empoleiravam nas árvores para espreitar o que lá havia através das magras janelas do espaço . No mesmo sítio, 40 anos depois, Ana pensou em voltar a subir ao carvalho que sempre fora o seu preferido por ter a melhor vista para dentro do armazém.


Um grupo de homens altos, musculosos e mal-encarados estava atentamente a ouvir um sujeito franzino de óculos que lhes parecia dar ordens. Gesticulava e abria muito os olhos. De quando em quando apontava para um dos cantos, onde estava sentada no chão uma mulher com uma venda nos olhos e com fita-cola na boca. Estava amarrada por cordas fortes a um jipe. Os pés e as mãos estavam completamente imobilizados. Ana reconheceu na vítima a mulher do dono da fábrica de calçado que tinha sido raptada num concelho vizinho há algumas semanas. 


Pensou estar perante o grande caso da sua carreira ao mesmo tempo que se lembrava que o caso estava entregue a colegas de outra força policial. Que passo vou dar primeiro, questionava-se. Porém, não precisou de pensar muito porque não precisou de mexer um dedo. 

Sem saber como, quando deu por si Ana estava a ver outros colegas a entrar no armazém e a deter os raptores. A refém foi libertada. Parecia precisar de assistência médica. Combalida e pálida, a mulher mal conseguia andar. Teve que ser amparada até à viatura descaracterizada em que os agentes se deslocavam.

Ana estava contente pelo desfecho feliz e por ter assistido a tudo, embora estivesse desolada por não ter ajudado. Fez rapidamente o caminho para o carro de patrulha, mesmo sem se preocupar se o mato lhe rasgava a carne dos braços desprotegidos pelas mangas arregaçadas. Estava indiferente à dor por causa da raiva que agora sentia face à sua própria impotência. Quando chegou ao carro encontrou o colega a dormir ao volante. E só desejou poder ser tão irracional quanto ele.

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