Hermenegildo viveu todos os seus 38 anos submetido ao peso do nome,
do qual, aliás, nunca gostou. Na escola sempre fizeram troça dele, mais tarde as
raparigas não queriam nada com ele quando lhes dizia como se chamava, e até chegou a perder alguns empregos por causa disso. Ninguém
queria um empregado de mesa com aquele nome.
Muitas vezes resolvia todos os problemas dizendo que se chamava João,
mas havia alturas em que não podia mentir. Era por isso que a pessoa que
mais detestava no mundo era o seu padrinho. Ao menos se quem lhe deu o
nome se chamasse Vítor ou Pedro - ou até António - a vida dele seria melhor.
Nunca entendeu a estupidez de dar aos afilhados o nome dos padrinhos. E
neste caso foi algo que o marcou para sempre.
Uma vez disseram-lhe que poderia mudar de nome aos 18 anos, mas o
problema é que nessa altura já tinha mais dois anos e o prazo já tinha
passado. Agora, farto deste estigma que lhe desenhou a vida em negativo,
Hermenegildo decidiu escrever uma carta aos mais altos representantes
do país a pedir autorização para mudar de nome.
Direcção do Notariado a
nível nacional, ministro da tutela, primeiro-ministro, Presidente da
República, presidente da Assembleia da República e até ao provedor de
Justiça. Pelo sim, pelo não escreveu também uma missiva em estilo de
lamento para os programas da tarde dos canais generalistas de televisão.
Passaram-se semanas e semanas sem qualquer resposta. E sem que nada
mudasse na sua vida. Até que num dia de outono bem depressiv, em que
Hermenegildo só pensava em se suicidar por toda a sua desgraça de não
ter mulher, filhos, amigos, nem emprego, até que nesse dia em que a
chuva caía a potes e o frio entrava pelas frestas da casita mal
amanhada, até que então bateram à porta.
Pensou serem os miúdos que gostavam
de gozar com ele e só queriam que abrisse para lhe atirarem pedrinhas e
fazerem piadas com o seu nome. Mas logo depois lembrou-se de que àquela
hora os miúdos estavam todos na escola. Voltaram a bater à porta.
Levantou-se do pequeno e velho sofá. Pé ante pé foi até à porta. Não
ouvia nada do outro lado. Só a chuva a bater na calçada. Decidiu rodar a
maçaneta.
Do outro lado estava uma mulher baixa e gorda, de faces rosadas e
cabelos da cor do trigo em fim de Verão. Os olhos eram grandes, vivos,
verdes como a erva dos campos primaveris. Hermenegildo pensou que estava
a sonhar. Estava perante a mulher dos seus sonhos. Ela interrompeu o
silêncio que se fizera durante alguns segundos.
- Hermenegildo? És mesmo tu?
Uma interrogação esboçou-se-lhe nos olhos. Começou a balbuciar sílabas
incompreensíveis, meio a gaguejar. Não sabia o que dizer. Nem sabia quem ela era, nem porque ela o conhecia. Só a cabeça
acenava afirmativamente. Ela pegou-lhe na mão robusta que tremia
encostada à porta.
- Não me conheces? Sou a Tina, andámos juntos na escola. Lembras-te?
Toda a gente gozava com os nossos nomes. Nunca gostei de me chamar
Juventina. Bem, mas o que interessa é que voltei à aldeia e queria
ver-te! Não me convidas para entrar?
Hermenegildo nunca confessara a ninguém, mas sempre teve inveja dela.
Pelo menos o nome dava para abreviar e ela sempre podia responder aos
outros miúdos que se chamava Tina. Só ele é que nunca conseguia
responder às provocações e nada tinha para ripostar. Agora estava
espantado por ela o ter vindo procurar. E por ela se ter transformado naquela mulherona.
A verdade é que ela sempre
gostara dele desde miúdos, só nunca o admitira. Recentemente, tinha tido um
grave acidente de carro, no qual morreu o marido e o filho. Ficou sem
emprego e sem casa. Teve que deixar a cidade grande e voltar a casa dos
pais. Repensou a vida e decidiu rever o seu amor secreto.
Quando Hermenegildo abriu a porta ela viu o homem dos seus sonhos.
Alguns centímetros mais alto do que ela, anafado, com uma barba de três
dias, cabelo encaracolado ruivo e uns olhos que lembravam a terra
acabada de lavrar. A camisa aos quadrados e o colete de caçador exalavam
um cheiro a homem, bem diferente do do falecido marido gerente de banco.
Juventina estava perante o seu príncipe encantado. A sua gaguez e
timidez inicial só serviam para dar a Tina um frémito, um arrepio na
pele que a deixava hirta.
Assim que entraram em casa bastou uma meia-hora de conversa para se
entenderem. Em dois meses estariam casados. Em dois anos teriam um filho
e outro a caminho. Ambos fizeram candidaturas a subsídios para
agricultores e agora viviam do que a terra dava, felizes na casita agora mais bem arranjada.
Ele já nem se lembrava da vida
antiga e da carta que escrevera para várias direcções quando a vizinha
da frente lhe bateu à porta num dia de Verão levando o filho preso por uma orelha. O
miúdo trazia as mãos cheias de envelopes e uma expressão de dor no rosto. A
orelha estava tão vermelha como uma papoila.
A vizinha contou a
Hermenegildo que encontrara no quarto do filho uma caixa com os
envelopes e ele acabara por confessar do que se tratava. Há mais de dois
anos o vizinho tinha pedido ao miúdo que pusesse as cartas no correio,
porque estava naqueles dias depressivos em que não lhe apetecia sair de
casa. Deu-lhe uns trocos para comprar rebuçados e ficou descansado,
porque o miúdo era atinado.
O problema foi que os outros miúdos que
costumavam bater à porta para fazer troça de Hermenegildo estavam à
espreita e ameaçaram o miúdo para que não pusesse as cartas no correio.
Chegaram mesmo a dar-lhe uma bofetada que o atirou com os envelopes pela
calçada fora. Cheio de medo, foi para casa, pôs as cartas numa caixa em
cima do guarda-fatos e acabaria por esquecê-las.
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