Há uma linha que separa duas partes do mundo, uma linha que separa o
Inverno do Verão, uma linha que separa o meu coração. É para lá do
Equador que está o destino deste avião em que entro. Se pudesse mudar o
passado nada seria assim, porque tinha evitado entrar em conflito com a
minha nora, tinha tentado anular os meus preconceitos, tinha sabido
gerir melhor a forma de exprimir as minhas convicções. Tinha mudado as minhas convicções até.
Hoje tenho que admitir que me sinto um lixo por ter julgado ser superior
à minha nora só por ser branco e rico e ela negra e pobre. Posso culpar
a minha educação retrógrada numa quinta do Douro vinhateiro, onde nunca
me faltou nada, onde já nasci com estatuto social. Nunca tive que lutar
para ter nada. Só foi preciso o trabalho diário para manter o
património da família. Mas a verdade é que não devo culpar ninguém. A
minha mulher teve uma educação semelhante e sempre me disse que eu devia
aceitar a mulher que o nosso filho escolheu. Mesmo sendo amarela,
vermelha ou azul às riscas.
Eu nunca consegui aceitar. Lembro agora o que sofri com isso. As zangas
com o meu filho, a pessoa que mais amo no mundo. Os amuos da minha
mulher. Os sermões dos meus irmãos. E depois lembro o casamento do
Henrique.
Depois das discussões com a minha mulher e de eu não aceitar que o
casamento fosse na nossa quinta, recusei até ir ao casamento. Ninguém
me conseguiu demover. Não dormi nada nessa noite. Mas levantei-me
tarde.
Quando cheguei ao rés-do-chão já estavam várias malas do meu
filho prontas para ele sair de casa. O Henrique tinha avisado que, se eu
não fosse ao casamento, ele não voltava a pôr os pés em casa. Ao ver as
malas perguntei-lhe se se queria mesmo casar com aquela mulher. Veio
mais uma discussão que só terminou quando ele me disse que a partir
daquele dia não era mais meu filho. A minha mulher chorava e suplicava
por um entendimento. Em vão. Na altura eu achava que tinha toda a razão
do mundo. Deserdei o meu filho, prometi não lhe dar um tostão, apesar de
ser filho único. E fi-lo.
Hoje vejo como fui cruel, teimoso, estúpido. Hoje vejo como estava
errado e como aquele erro me tirou tudo na vida. O meu casamento azedou
até que a minha mulher me deixou. Eu desinteressei-me do trabalho e
passei a dedicar o tempo a embebedar-me e a jogar em casinos
clandestinos. Comecei a perder dinheiro de tal maneira que a quinta foi
penhorada. Fiquei sem ela e ao fim de um tempo já não tinha dinheiro
para alugar um quarto sequer.
Passei uma noite ao relento. Foi quando me
arrependi de todo o mal que fiz na vida. De manhã fui pedir ajuda à
quinta do meu irmão. Pedi trabalho, comida, dormida. Qual filho pródigo,
fui aceite com um abraço fraterno. Soube então que o meu filho tinha
tido um grave acidente em Angola e que estava numa cadeira de rodas. A
mulher e a família dela é que cuidam dele com todo o cuidado, disse a
minha cunhada com um tom de censura na voz. Censura ao meu racismo que durante todo o tempo
não me deixou ver as coisas como são. Chorei como um bebé naquele
momento.
Agora que passaram dois anos e consegui reerguer a minha vida, vou
sentar-me neste avião para Luanda na esperança de abraçar o meu filho,
na esperança de que ele e a minha nora me perdoem, na esperança de que a
família dela me aceite. Espero conhecer os meus três netos, abraçá-los e
beijá-los.
Vou por duas semanas, mas não sei o que me espera. Levo
apenas esta mala com roupa, os bilhetes de avião, a reserva do hotel. E
acompanha-me a vergonha de ter sido quem fui, mais a certeza de nunca
voltar a cometer o erro de fazer julgamentos prévios.
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