segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Preconceito

Há uma linha que separa duas partes do mundo, uma linha que separa o Inverno do Verão, uma linha que separa o meu coração. É para lá do Equador que está o destino deste avião em que entro. Se pudesse mudar o passado nada seria assim, porque  tinha evitado entrar em conflito com a minha nora, tinha tentado anular os meus preconceitos, tinha sabido gerir melhor a forma de exprimir as minhas convicções. Tinha mudado as minhas convicções até.

Hoje tenho que admitir que me sinto um lixo por ter julgado ser superior à minha nora só por ser branco e rico e ela negra e pobre. Posso culpar a minha educação retrógrada numa quinta do Douro vinhateiro, onde nunca me faltou nada, onde já nasci com estatuto social. Nunca tive que lutar para ter nada. Só foi preciso o trabalho diário para manter o património da família. Mas a verdade é que não devo culpar ninguém. A minha mulher teve uma educação semelhante e sempre me disse que eu devia aceitar a mulher que o nosso filho escolheu. Mesmo sendo amarela, vermelha ou azul às riscas.


Eu nunca consegui aceitar. Lembro agora o que sofri com isso. As zangas com o meu filho, a pessoa que mais amo no mundo. Os amuos da minha mulher. Os sermões dos meus irmãos. E depois lembro o casamento do Henrique.


Depois das discussões com a minha mulher e de eu não aceitar que o casamento fosse na nossa quinta, recusei até ir ao casamento. Ninguém me conseguiu demover. Não dormi nada nessa noite. Mas levantei-me tarde. 


Quando cheguei ao rés-do-chão já estavam várias malas do meu filho prontas para ele sair de casa. O Henrique tinha avisado que, se eu não fosse ao casamento, ele não voltava a pôr os pés em casa. Ao ver as malas perguntei-lhe se se queria mesmo casar com aquela mulher. Veio mais uma discussão que só terminou quando ele me disse que a partir daquele dia não era mais meu filho. A minha mulher chorava e suplicava por um entendimento. Em vão. Na altura eu achava que tinha toda a razão do mundo. Deserdei o meu filho, prometi não lhe dar um tostão, apesar de ser filho único. E fi-lo.

Hoje vejo como fui cruel, teimoso, estúpido. Hoje vejo como estava errado e como aquele erro me tirou tudo na vida. O meu casamento azedou até que a minha mulher me deixou. Eu desinteressei-me do trabalho e passei a dedicar o tempo a embebedar-me e a jogar em casinos clandestinos. Comecei a perder dinheiro de tal maneira que a quinta foi penhorada. Fiquei sem ela e ao fim de um tempo já não tinha dinheiro para alugar um quarto sequer. 


Passei uma noite ao relento. Foi quando me arrependi de todo o mal que fiz na vida. De manhã fui pedir ajuda à quinta do meu irmão. Pedi trabalho, comida, dormida. Qual filho pródigo, fui aceite com um abraço fraterno. Soube então que o meu filho tinha tido um grave acidente em Angola e que estava numa cadeira de rodas. A mulher e a família dela é que cuidam dele com todo o cuidado, disse a minha cunhada com um tom de censura na voz. Censura ao meu racismo que durante todo o tempo não me deixou ver as coisas como são. Chorei como um bebé naquele momento.

Agora que passaram dois anos e consegui reerguer a minha vida, vou sentar-me neste avião para Luanda na esperança de abraçar o meu filho, na esperança de que ele e a minha nora me perdoem, na esperança de que a família dela me aceite. Espero conhecer os meus três netos, abraçá-los e beijá-los. 


Vou por duas semanas, mas não sei o que me espera. Levo apenas esta mala com roupa, os bilhetes de avião, a reserva do hotel. E acompanha-me a vergonha de ter sido quem fui, mais a certeza de nunca voltar a cometer o erro de fazer julgamentos prévios.

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