Os ponteiros indicavam cinco e meia da tarde. Ao ver as horas, os grandes olhos negros espelhavam preocupação. A testa sulcada mostrava que o passar dos anos tinha deixado as suas marcas naquele rosto pálido. O corpo franzino abanava-se com a inquietação de quem está pressionado pelo tempo. As mãos ossudas - que não condiziam com o resto do seu dono pela dimensão desmesurada que tinham - pegaram no telemóvel preto que estava no bolso das calças de ganga.
- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.
- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.
- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.
Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.
Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.
- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.
Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.
- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.
- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.
No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.
Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.
Sem comentários:
Enviar um comentário