Olhou para o relógio. Eram quase cinco da tarde e ainda não tinha
escrito nada de jeito. Não tardaria o telefone iria tocar e ela teria
que inventar uma desculpa para ainda não ter pronta a coluna para o
semanário da região.
Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento
desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder
voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar
de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse.
Assim a vida haveria de valer a pena.
Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou
num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos
retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.
Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe,
porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe
que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade
era uma caricatura.
Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele
não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe
restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela
voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia
imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a
caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e
com a cara dela.
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