segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Melro

Olhou para o relógio. Eram quase cinco da tarde e ainda não tinha escrito nada de jeito. Não tardaria o telefone iria tocar e ela teria que inventar uma desculpa para ainda não ter pronta a coluna para o semanário da região.

Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.


Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.


Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.


Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.

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