"Era uma vez uma República onde não havia reis, nem rainhas, nem
princesas, nem príncipes. O que faz sentido, tendo em conta que a
Monarquia tinha sido enterrada. Não havendo reis ou príncipes, não havia
privilegiados em função do nascimento. Era uma verdadeira Meritocracia e
só quem merecia é que era beneficiado."
- Ó mãe, mas onde é que tu foste desencantar este livro?
- Deixa-me continuar a ler! Cala-te e ouve.
"Estas regras fizeram com que muitas pessoas tivessem decidido abandonar
o país, emigrando para um país quente onde as leis eram diferentes e
onde as contas bancárias não eram passadas a pente fino. Outra medida
que estava em vigor desde o primeiro dia era a redução de impostos. Como
não havia fuga ao fisco e todos cumpriam as suas obrigações, havia
margem para essas medidas."
- Ó mãe, olha que isto é muito complicado para uma miúda de dez anos.
Achas que a Su está a perceber alguma coisa? Isto não é para a idade
dela!
- Mãezinha, deixa a vó ler a história! Estou a perceber tudinho!
Empertigada, de dedinho em riste, Su esticava-se para parecer maior e
mostrar à mãe que percebia toda a história que a avó estava a ler
naquele livro.
Desde que viu a avó a entrar em casa com ele, Su tinha ficado curiosa.
Era um livro de tamanho A4 com uma capa cheia de desenhos coloridos. O
título parecia ser de um conto: "Numa República distante". Logo na
altura, pediu à avó para lhe deixar ver o livro, só que ela respondeu
que preferia ser ela a ler-lho em voz alta para que ela pudesse aprender
o que era um país a sério. Su ficou intrigada e franziu a pequena e
branca testa. O que quereria a avó dizer com aquilo? A pequena ainda
tentou ser esclarecida, mas a avó fez um gesto largo com a mão
rechonchuda dando a entender que não iria mudar de ideias.
Por isso, quando a avó lhe começou a ler o livro, Su sentou-se na
carpete felpuda da sala preparadíssima para descobrir o que estaria
escrito naquele livro. De olhos muito arregalados, a miúda ouvia
atentamente a história com os cotovelos apoiados nas pernas cruzadas.
Com as mãozitas brancas ia tapando e destapando os lábios consoante
abria ou fechava a boça. Ao fim de dez páginas, Su estava a bocejar e
acabaria por adormecer passadas outras dez páginas.
A avó teve que dar o braço a torcer e admitir que a filha tinha razão
quando disse que o livro não era adequado à idade da Su. Porém, os
adultos estavam a gostar daquela história e não deixaram a D. Idália
terminar por ali. Só faltavam umas 15 páginas e queriam saber como os
autores tinham imaginado o desfecho daquele país tão longínquo do seu.
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
O vulcão
Há quem diga que sempre chegamos onde nos esperam, mas às
vezes chegamos onde não somos esperados.
Passei 54 anos da minha vida sem saber quem era o meu pai. Vivi como a vida quis que vivesse, com a calma dos dias na minha ilha do Fogo.
A minha mãe e os meus irmãos sempre me acarinharam, apesar
de eu ser diferente deles. Eu sou um homem branco como o papel, ruivo como as
cenouras, sardento como um peixe é escamudo. Eles são morenos.
Mas numa família a sério não interessa a cor que se tem. Só
conta o coração. A minha mãe nunca me quis contar quem foi o branco que me fez,
e sempre carreguei com essa dúvida no peito. Até ao dia em que o vulcão
acordou.
O vulcão acordou e a minha mãe começou a ficar com febre e a
delirar com outros tempos e a falar em histórias passadas da destruição pela
lava ardente.
Enquanto ela ardia em febre chamou-me, dizendo que me iria
contar quem era o meu pai. E o que me contou foi uma história de amor que lhe
valeu o suicídio do marido, pai dos outros filhos.
Eu pensei na altura que ela delirava por causa da febre, mas
ela insistia que o português lhe tinha deixado o contacto sem saber sequer que
ela engravidara. Apontou para a gaveta da cómoda velha e deu um gemido. A febre
aumentou e acabou por morrer passadas umas horas.
Ainda resisti umas semanas, até que a minha filha me convenceu
a procurar as minhas raízes desconhecidas. E agora cá estou eu no aeroporto Sá
Carneiro, a pegar na minha mala e a apanhar um táxi para Rio Tinto.
Onde quer que essa terra fique, é lá que vive a família do
meu pai. Aliás, tenho que lhes telefonar para dizer que já vou a caminho.
Segundo o que me disseram, sempre souberam que tinham um irmão em Cabo Verde e
sempre esperaram que eu chegasse.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
OVNI
A noite de Dezembro era escura e fria, mas dentro do carro a invernia
não se sentia. Como era habitual nas longas viagens dos quatro amigos,
jogavam a um daqueles passatempos em que se tem que adivinhar algo. Mas o jogo foi interrompido por um grito de admiração do condutor, que apontava para o céu à frente. Parou o
carro. O silêncio instalou-se enquanto os oito olhos seguiam o que viam
do lado de fora do vidro.
A uns 250 metros, a escuridão da estrada rural era cortada por um objecto brilhante que viajava em sentido descendente, seguindo a trajetória que um avião faz ao aterrar. Daquelas quatro bocas não saía sequer um som ao verem o objecto desaparecer atrás de um velho muro de pedras.
Assim que o objecto aterrou começou a especulação em relação ao que tinham visto. O condutor - Tomé - disse que já tinha visto ao longe a luz, mas pensava ser uma estrela cadente. Na altura em que se apercebeu que não poderia ser, avisou os amigos.
No banco de trás, Zé censurou-o, pois deveria ter avisado mais cedo para verem com mais detalhe de que se tratava. Zélia dizia que bem tinha visto que era um objecto com uma luz azul-esverdeada e com uma cauda deixando um rasto com a mesma cor. Joana alegava que no banco da frente tinha visto melhor e que o que vira era uma luz verde-amarelada que depois foi ficando mais azul. Do tamanho de um microondas, mas mais achatado, garantia.
Ao mesmo tempo que se discutia o que se tinha passado, Tomé tentava o interromper a confusão de vozes, até que deu um grito para perguntar se queriam ir embora ou ficar ali toda a vida. Zé respondeu logo que queria ir lá ver o que era, mas a namorada dizia que ele era louco e o melhor seria seguir viagem. "E perder a oportunidade de ver os extraterrestres a sair do OVNI?", perguntou retoricamente enquanto desapertava o cinto de segurança e saía a correr pela picada de terra batida.
Tomé ficou a ajuizar que podia ser um drone russo que tinham enviado para espiar Portugal, ou então uma pequena nave tripulada por elementos de um grupo jiadista que vinham infiltrar-se no país para iniciar um plano de conquista de Portugal. A namorada abanava a cabeça no banco da frente e dizia que deveria haver uma explicação científica para o fenómeno atmosférico, porque era isso apenas que tinham visto. Dito isto, saiu da viatura e foi à procura do amigo para o convencer a seguir viagem. Dentro do veículo ficaram apenas dois medricas arrepiados a matutar no que tinham visto.
Quando Joana saltou o muro de pedra pelo lado mais baixo achou estranho não ver nada. Nem o amigo, nem sequer rasto do objecto brilhante. Ligou a lanterna do telemóvel e apontou em frente, mas só via um campo de erva. Ao centro havia um buraco sem vegetação, do exacto tamanho do objecto que vira.
Subitamente sentiu uma respiração ofegante na nuca e deu um salto. Era o amigo Zé, que lhe agarrou na mão e a puxou para o outro lado do muro, avançando decididamente em direcção ao carro. Sem falar, Zé ia numa passada mecânica e quase lhe esmagava o pulso. Ela bem perguntava o que se passava e o que ele tinha visto, só que nem uma palavra lhe arrancou.
Apenas quando entraram dentro do automóvel, Zé quebrou o silêncio e suplicou para se irem embora rapidamente. Tomé, que estava branco que nem um papel, executou logo a ordem. Optou por regressar à estrada principal e assim seguiram viagem até Coimbra, sempre em silêncio. E, até hoje, Zé continua sem contar a ninguém o que viu naquela noite no descampado.
A uns 250 metros, a escuridão da estrada rural era cortada por um objecto brilhante que viajava em sentido descendente, seguindo a trajetória que um avião faz ao aterrar. Daquelas quatro bocas não saía sequer um som ao verem o objecto desaparecer atrás de um velho muro de pedras.
Assim que o objecto aterrou começou a especulação em relação ao que tinham visto. O condutor - Tomé - disse que já tinha visto ao longe a luz, mas pensava ser uma estrela cadente. Na altura em que se apercebeu que não poderia ser, avisou os amigos.
No banco de trás, Zé censurou-o, pois deveria ter avisado mais cedo para verem com mais detalhe de que se tratava. Zélia dizia que bem tinha visto que era um objecto com uma luz azul-esverdeada e com uma cauda deixando um rasto com a mesma cor. Joana alegava que no banco da frente tinha visto melhor e que o que vira era uma luz verde-amarelada que depois foi ficando mais azul. Do tamanho de um microondas, mas mais achatado, garantia.
Ao mesmo tempo que se discutia o que se tinha passado, Tomé tentava o interromper a confusão de vozes, até que deu um grito para perguntar se queriam ir embora ou ficar ali toda a vida. Zé respondeu logo que queria ir lá ver o que era, mas a namorada dizia que ele era louco e o melhor seria seguir viagem. "E perder a oportunidade de ver os extraterrestres a sair do OVNI?", perguntou retoricamente enquanto desapertava o cinto de segurança e saía a correr pela picada de terra batida.
Tomé ficou a ajuizar que podia ser um drone russo que tinham enviado para espiar Portugal, ou então uma pequena nave tripulada por elementos de um grupo jiadista que vinham infiltrar-se no país para iniciar um plano de conquista de Portugal. A namorada abanava a cabeça no banco da frente e dizia que deveria haver uma explicação científica para o fenómeno atmosférico, porque era isso apenas que tinham visto. Dito isto, saiu da viatura e foi à procura do amigo para o convencer a seguir viagem. Dentro do veículo ficaram apenas dois medricas arrepiados a matutar no que tinham visto.
Quando Joana saltou o muro de pedra pelo lado mais baixo achou estranho não ver nada. Nem o amigo, nem sequer rasto do objecto brilhante. Ligou a lanterna do telemóvel e apontou em frente, mas só via um campo de erva. Ao centro havia um buraco sem vegetação, do exacto tamanho do objecto que vira.
Subitamente sentiu uma respiração ofegante na nuca e deu um salto. Era o amigo Zé, que lhe agarrou na mão e a puxou para o outro lado do muro, avançando decididamente em direcção ao carro. Sem falar, Zé ia numa passada mecânica e quase lhe esmagava o pulso. Ela bem perguntava o que se passava e o que ele tinha visto, só que nem uma palavra lhe arrancou.
Apenas quando entraram dentro do automóvel, Zé quebrou o silêncio e suplicou para se irem embora rapidamente. Tomé, que estava branco que nem um papel, executou logo a ordem. Optou por regressar à estrada principal e assim seguiram viagem até Coimbra, sempre em silêncio. E, até hoje, Zé continua sem contar a ninguém o que viu naquela noite no descampado.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Roleta russa
Na televisão começava o telejornal quando a campainha tocou. Vasco foi abrir e entraram pela sala adentro dois sujeitos musculosos e mal-encarados. Sem sequer abrirem a boca, estenderam um envelope ao dono da casa. Encolhido a um canto, a tremer que nem varas verdes, Vasco esticou o braço e recebeu a encomenda.
Assim que rodaram calcanhares e entraram no elevador, Vasco rodou a chave e trancou o ferrolho. Sentou-se no sofá e abriu a missiva. Enquanto pegava num lenço para limpar o suor da testa, o peito apertou-se-lhe com um mau pressentimento. Passou os olhos por cima das letras recortadas de revista uma vez e outra e outra. Não havia escapatória possível. "Ou pagas amanhã ou morres."
Que bela forma de se refrescar a memória, pensou. Esta parecia ser a derradeira ameaça e desta feita não haveria mais adiamentos ou prazos. Tinha menos de 24 horas até pagar seis milhões de euros. Seis milhões de euros, uma dívida acumulada em noites e noites de jogo na roleta russa naquele maldito casino clandestino a que se somaram os juros usurários daquele verme que se escondia atrás de capangas disformes.
Vasco voltou aos pensamentos que o consumiam nos últimos dias. Já não tinha carro, tinha vendido a casa e agora vivia num apartamento emprestado. Tinha sido despedido por justa causa e agora passava os dias a contar os tostões que a mãe lhe dava para viver.
O que fazer para pagar o dinheiro? Havia muitas hipóteses e nenhuma viável. Assaltar um banco, sequestrar um milionário, roubar as jóias centenárias da avó Maria de Lourdes, por exemplo. Nada lhe parecia exequível. Era chegado a este ponto do raciocínio que Vasco pensava em matar-se. Sempre seria melhor do que ser morto.
E então lembrava-se de que os monstros que foram lá a casa poderiam esmagá-lo com um dedo. Como seria que iriam matá-lo? Poderiam queimá-lo vivo, enforcá-lo, esfaqueá-lo ou então dar-lhe veneno para que se consumisse lentamente. Sim, - convencia-se Vasco - se por acaso o chefe do casino clandestino fosse uma mulher, seria esta a morte escolhida para quem lhe deve tanto dinheiro. As mulheres poderosas preferem assassínios requintados, lembou-se de um dia ouvir dizer num filme policial norte-americano.
E então lembrava-se de que os monstros que foram lá a casa poderiam esmagá-lo com um dedo. Como seria que iriam matá-lo? Poderiam queimá-lo vivo, enforcá-lo, esfaqueá-lo ou então dar-lhe veneno para que se consumisse lentamente. Sim, - convencia-se Vasco - se por acaso o chefe do casino clandestino fosse uma mulher, seria esta a morte escolhida para quem lhe deve tanto dinheiro. As mulheres poderosas preferem assassínios requintados, lembou-se de um dia ouvir dizer num filme policial norte-americano.
Esta sucessão de pensamentos foi subitamente interrompida pelo som que saía do televisor. Uma apresentadora super maquilhada lembrava que era sexta-feira e anunciava a extração de um conhecido jogo. Por momentos, Vasco distraiu-se do turbilhão de emoções que o ocupavam e concentrou-se nos números que iam surgindo no ecrã. Foi apalpar os bolsos do casaco até encontrar o talão da aposta. À medida que ia conferindo os algarismos, o coração batia cada vez mais rápido. Nem queria acreditar que tinha vencido 15 milhões de euros!
Saltou, bateu palmas, correu de uma ponta à outra da casa, dançou e cantou. Estava livre e a vida estava garantida! Mas havia um problema. Como é que iria fazer para ter o dinheiro do prémio em menos de 24 horas?
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Sida
Hoje é o dia que não quero lembrar, mas é também o dia que não posso esquecer. Há 18 anos o meu filho morreu. Tinha Sida. Hoje já se vive muitos anos com a doença. Na altura ele não conseguiu.
As lágrimas rolam-me indomáveis pela face enquanto escrevo estas linhas. Tenho saudades da voz dele, do sorriso e do cheiro dele. A perda de um filho é a maior que uma mãe pode ter. É uma provação. Nunca se recupera.
Mas só consegui manter-me viva para lutar contra os preconceitos em relação aos doentes com Sida. Para lutar pelo direito à vida destas pessoas e uma vida normal. Têm direito ao trabalho e aos cuidados de saúde. Têm direito a não serem discriminadas. Têm direito às mesmas coisas do que as pessoas saudáveis.
Hoje continua a doer muito a partida do meu filho, como se tivesse morrido um pedaço de mim, da mãe Ana. Só que dói mais saber que ainda há muitas pessoas discriminadas e sem acesso aos cuidados de saúde adequados.
Onde quer que estejas, meu menino, não duvides nem por um segundo que continuarei por aqui a lutar para que outros não sofram o que sofreste.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Preconceito
Há uma linha que separa duas partes do mundo, uma linha que separa o
Inverno do Verão, uma linha que separa o meu coração. É para lá do
Equador que está o destino deste avião em que entro. Se pudesse mudar o
passado nada seria assim, porque tinha evitado entrar em conflito com a
minha nora, tinha tentado anular os meus preconceitos, tinha sabido
gerir melhor a forma de exprimir as minhas convicções. Tinha mudado as minhas convicções até.
Hoje tenho que admitir que me sinto um lixo por ter julgado ser superior à minha nora só por ser branco e rico e ela negra e pobre. Posso culpar a minha educação retrógrada numa quinta do Douro vinhateiro, onde nunca me faltou nada, onde já nasci com estatuto social. Nunca tive que lutar para ter nada. Só foi preciso o trabalho diário para manter o património da família. Mas a verdade é que não devo culpar ninguém. A minha mulher teve uma educação semelhante e sempre me disse que eu devia aceitar a mulher que o nosso filho escolheu. Mesmo sendo amarela, vermelha ou azul às riscas.
Eu nunca consegui aceitar. Lembro agora o que sofri com isso. As zangas com o meu filho, a pessoa que mais amo no mundo. Os amuos da minha mulher. Os sermões dos meus irmãos. E depois lembro o casamento do Henrique.
Depois das discussões com a minha mulher e de eu não aceitar que o casamento fosse na nossa quinta, recusei até ir ao casamento. Ninguém me conseguiu demover. Não dormi nada nessa noite. Mas levantei-me tarde.
Quando cheguei ao rés-do-chão já estavam várias malas do meu filho prontas para ele sair de casa. O Henrique tinha avisado que, se eu não fosse ao casamento, ele não voltava a pôr os pés em casa. Ao ver as malas perguntei-lhe se se queria mesmo casar com aquela mulher. Veio mais uma discussão que só terminou quando ele me disse que a partir daquele dia não era mais meu filho. A minha mulher chorava e suplicava por um entendimento. Em vão. Na altura eu achava que tinha toda a razão do mundo. Deserdei o meu filho, prometi não lhe dar um tostão, apesar de ser filho único. E fi-lo.
Hoje vejo como fui cruel, teimoso, estúpido. Hoje vejo como estava errado e como aquele erro me tirou tudo na vida. O meu casamento azedou até que a minha mulher me deixou. Eu desinteressei-me do trabalho e passei a dedicar o tempo a embebedar-me e a jogar em casinos clandestinos. Comecei a perder dinheiro de tal maneira que a quinta foi penhorada. Fiquei sem ela e ao fim de um tempo já não tinha dinheiro para alugar um quarto sequer.
Passei uma noite ao relento. Foi quando me arrependi de todo o mal que fiz na vida. De manhã fui pedir ajuda à quinta do meu irmão. Pedi trabalho, comida, dormida. Qual filho pródigo, fui aceite com um abraço fraterno. Soube então que o meu filho tinha tido um grave acidente em Angola e que estava numa cadeira de rodas. A mulher e a família dela é que cuidam dele com todo o cuidado, disse a minha cunhada com um tom de censura na voz. Censura ao meu racismo que durante todo o tempo não me deixou ver as coisas como são. Chorei como um bebé naquele momento.
Agora que passaram dois anos e consegui reerguer a minha vida, vou sentar-me neste avião para Luanda na esperança de abraçar o meu filho, na esperança de que ele e a minha nora me perdoem, na esperança de que a família dela me aceite. Espero conhecer os meus três netos, abraçá-los e beijá-los.
Vou por duas semanas, mas não sei o que me espera. Levo apenas esta mala com roupa, os bilhetes de avião, a reserva do hotel. E acompanha-me a vergonha de ter sido quem fui, mais a certeza de nunca voltar a cometer o erro de fazer julgamentos prévios.
Hoje tenho que admitir que me sinto um lixo por ter julgado ser superior à minha nora só por ser branco e rico e ela negra e pobre. Posso culpar a minha educação retrógrada numa quinta do Douro vinhateiro, onde nunca me faltou nada, onde já nasci com estatuto social. Nunca tive que lutar para ter nada. Só foi preciso o trabalho diário para manter o património da família. Mas a verdade é que não devo culpar ninguém. A minha mulher teve uma educação semelhante e sempre me disse que eu devia aceitar a mulher que o nosso filho escolheu. Mesmo sendo amarela, vermelha ou azul às riscas.
Eu nunca consegui aceitar. Lembro agora o que sofri com isso. As zangas com o meu filho, a pessoa que mais amo no mundo. Os amuos da minha mulher. Os sermões dos meus irmãos. E depois lembro o casamento do Henrique.
Depois das discussões com a minha mulher e de eu não aceitar que o casamento fosse na nossa quinta, recusei até ir ao casamento. Ninguém me conseguiu demover. Não dormi nada nessa noite. Mas levantei-me tarde.
Quando cheguei ao rés-do-chão já estavam várias malas do meu filho prontas para ele sair de casa. O Henrique tinha avisado que, se eu não fosse ao casamento, ele não voltava a pôr os pés em casa. Ao ver as malas perguntei-lhe se se queria mesmo casar com aquela mulher. Veio mais uma discussão que só terminou quando ele me disse que a partir daquele dia não era mais meu filho. A minha mulher chorava e suplicava por um entendimento. Em vão. Na altura eu achava que tinha toda a razão do mundo. Deserdei o meu filho, prometi não lhe dar um tostão, apesar de ser filho único. E fi-lo.
Hoje vejo como fui cruel, teimoso, estúpido. Hoje vejo como estava errado e como aquele erro me tirou tudo na vida. O meu casamento azedou até que a minha mulher me deixou. Eu desinteressei-me do trabalho e passei a dedicar o tempo a embebedar-me e a jogar em casinos clandestinos. Comecei a perder dinheiro de tal maneira que a quinta foi penhorada. Fiquei sem ela e ao fim de um tempo já não tinha dinheiro para alugar um quarto sequer.
Passei uma noite ao relento. Foi quando me arrependi de todo o mal que fiz na vida. De manhã fui pedir ajuda à quinta do meu irmão. Pedi trabalho, comida, dormida. Qual filho pródigo, fui aceite com um abraço fraterno. Soube então que o meu filho tinha tido um grave acidente em Angola e que estava numa cadeira de rodas. A mulher e a família dela é que cuidam dele com todo o cuidado, disse a minha cunhada com um tom de censura na voz. Censura ao meu racismo que durante todo o tempo não me deixou ver as coisas como são. Chorei como um bebé naquele momento.
Agora que passaram dois anos e consegui reerguer a minha vida, vou sentar-me neste avião para Luanda na esperança de abraçar o meu filho, na esperança de que ele e a minha nora me perdoem, na esperança de que a família dela me aceite. Espero conhecer os meus três netos, abraçá-los e beijá-los.
Vou por duas semanas, mas não sei o que me espera. Levo apenas esta mala com roupa, os bilhetes de avião, a reserva do hotel. E acompanha-me a vergonha de ter sido quem fui, mais a certeza de nunca voltar a cometer o erro de fazer julgamentos prévios.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Hermenegildo ou o peso de um nome
Hermenegildo viveu todos os seus 38 anos submetido ao peso do nome,
do qual, aliás, nunca gostou. Na escola sempre fizeram troça dele, mais tarde as
raparigas não queriam nada com ele quando lhes dizia como se chamava, e até chegou a perder alguns empregos por causa disso. Ninguém
queria um empregado de mesa com aquele nome.
Muitas vezes resolvia todos os problemas dizendo que se chamava João, mas havia alturas em que não podia mentir. Era por isso que a pessoa que mais detestava no mundo era o seu padrinho. Ao menos se quem lhe deu o nome se chamasse Vítor ou Pedro - ou até António - a vida dele seria melhor. Nunca entendeu a estupidez de dar aos afilhados o nome dos padrinhos. E neste caso foi algo que o marcou para sempre.
Uma vez disseram-lhe que poderia mudar de nome aos 18 anos, mas o problema é que nessa altura já tinha mais dois anos e o prazo já tinha passado. Agora, farto deste estigma que lhe desenhou a vida em negativo, Hermenegildo decidiu escrever uma carta aos mais altos representantes do país a pedir autorização para mudar de nome.
Direcção do Notariado a nível nacional, ministro da tutela, primeiro-ministro, Presidente da República, presidente da Assembleia da República e até ao provedor de Justiça. Pelo sim, pelo não escreveu também uma missiva em estilo de lamento para os programas da tarde dos canais generalistas de televisão.
Passaram-se semanas e semanas sem qualquer resposta. E sem que nada mudasse na sua vida. Até que num dia de outono bem depressiv, em que Hermenegildo só pensava em se suicidar por toda a sua desgraça de não ter mulher, filhos, amigos, nem emprego, até que nesse dia em que a chuva caía a potes e o frio entrava pelas frestas da casita mal amanhada, até que então bateram à porta.
Pensou serem os miúdos que gostavam de gozar com ele e só queriam que abrisse para lhe atirarem pedrinhas e fazerem piadas com o seu nome. Mas logo depois lembrou-se de que àquela hora os miúdos estavam todos na escola. Voltaram a bater à porta. Levantou-se do pequeno e velho sofá. Pé ante pé foi até à porta. Não ouvia nada do outro lado. Só a chuva a bater na calçada. Decidiu rodar a maçaneta.
Do outro lado estava uma mulher baixa e gorda, de faces rosadas e cabelos da cor do trigo em fim de Verão. Os olhos eram grandes, vivos, verdes como a erva dos campos primaveris. Hermenegildo pensou que estava a sonhar. Estava perante a mulher dos seus sonhos. Ela interrompeu o silêncio que se fizera durante alguns segundos.
- Hermenegildo? És mesmo tu?
Uma interrogação esboçou-se-lhe nos olhos. Começou a balbuciar sílabas incompreensíveis, meio a gaguejar. Não sabia o que dizer. Nem sabia quem ela era, nem porque ela o conhecia. Só a cabeça acenava afirmativamente. Ela pegou-lhe na mão robusta que tremia encostada à porta.
- Não me conheces? Sou a Tina, andámos juntos na escola. Lembras-te? Toda a gente gozava com os nossos nomes. Nunca gostei de me chamar Juventina. Bem, mas o que interessa é que voltei à aldeia e queria ver-te! Não me convidas para entrar?
Hermenegildo nunca confessara a ninguém, mas sempre teve inveja dela. Pelo menos o nome dava para abreviar e ela sempre podia responder aos outros miúdos que se chamava Tina. Só ele é que nunca conseguia responder às provocações e nada tinha para ripostar. Agora estava espantado por ela o ter vindo procurar. E por ela se ter transformado naquela mulherona.
A verdade é que ela sempre gostara dele desde miúdos, só nunca o admitira. Recentemente, tinha tido um grave acidente de carro, no qual morreu o marido e o filho. Ficou sem emprego e sem casa. Teve que deixar a cidade grande e voltar a casa dos pais. Repensou a vida e decidiu rever o seu amor secreto.
Quando Hermenegildo abriu a porta ela viu o homem dos seus sonhos. Alguns centímetros mais alto do que ela, anafado, com uma barba de três dias, cabelo encaracolado ruivo e uns olhos que lembravam a terra acabada de lavrar. A camisa aos quadrados e o colete de caçador exalavam um cheiro a homem, bem diferente do do falecido marido gerente de banco. Juventina estava perante o seu príncipe encantado. A sua gaguez e timidez inicial só serviam para dar a Tina um frémito, um arrepio na pele que a deixava hirta.
Assim que entraram em casa bastou uma meia-hora de conversa para se entenderem. Em dois meses estariam casados. Em dois anos teriam um filho e outro a caminho. Ambos fizeram candidaturas a subsídios para agricultores e agora viviam do que a terra dava, felizes na casita agora mais bem arranjada.
Ele já nem se lembrava da vida antiga e da carta que escrevera para várias direcções quando a vizinha da frente lhe bateu à porta num dia de Verão levando o filho preso por uma orelha. O miúdo trazia as mãos cheias de envelopes e uma expressão de dor no rosto. A orelha estava tão vermelha como uma papoila.
A vizinha contou a Hermenegildo que encontrara no quarto do filho uma caixa com os envelopes e ele acabara por confessar do que se tratava. Há mais de dois anos o vizinho tinha pedido ao miúdo que pusesse as cartas no correio, porque estava naqueles dias depressivos em que não lhe apetecia sair de casa. Deu-lhe uns trocos para comprar rebuçados e ficou descansado, porque o miúdo era atinado.
O problema foi que os outros miúdos que costumavam bater à porta para fazer troça de Hermenegildo estavam à espreita e ameaçaram o miúdo para que não pusesse as cartas no correio. Chegaram mesmo a dar-lhe uma bofetada que o atirou com os envelopes pela calçada fora. Cheio de medo, foi para casa, pôs as cartas numa caixa em cima do guarda-fatos e acabaria por esquecê-las.
Muitas vezes resolvia todos os problemas dizendo que se chamava João, mas havia alturas em que não podia mentir. Era por isso que a pessoa que mais detestava no mundo era o seu padrinho. Ao menos se quem lhe deu o nome se chamasse Vítor ou Pedro - ou até António - a vida dele seria melhor. Nunca entendeu a estupidez de dar aos afilhados o nome dos padrinhos. E neste caso foi algo que o marcou para sempre.
Uma vez disseram-lhe que poderia mudar de nome aos 18 anos, mas o problema é que nessa altura já tinha mais dois anos e o prazo já tinha passado. Agora, farto deste estigma que lhe desenhou a vida em negativo, Hermenegildo decidiu escrever uma carta aos mais altos representantes do país a pedir autorização para mudar de nome.
Direcção do Notariado a nível nacional, ministro da tutela, primeiro-ministro, Presidente da República, presidente da Assembleia da República e até ao provedor de Justiça. Pelo sim, pelo não escreveu também uma missiva em estilo de lamento para os programas da tarde dos canais generalistas de televisão.
Passaram-se semanas e semanas sem qualquer resposta. E sem que nada mudasse na sua vida. Até que num dia de outono bem depressiv, em que Hermenegildo só pensava em se suicidar por toda a sua desgraça de não ter mulher, filhos, amigos, nem emprego, até que nesse dia em que a chuva caía a potes e o frio entrava pelas frestas da casita mal amanhada, até que então bateram à porta.
Pensou serem os miúdos que gostavam de gozar com ele e só queriam que abrisse para lhe atirarem pedrinhas e fazerem piadas com o seu nome. Mas logo depois lembrou-se de que àquela hora os miúdos estavam todos na escola. Voltaram a bater à porta. Levantou-se do pequeno e velho sofá. Pé ante pé foi até à porta. Não ouvia nada do outro lado. Só a chuva a bater na calçada. Decidiu rodar a maçaneta.
Do outro lado estava uma mulher baixa e gorda, de faces rosadas e cabelos da cor do trigo em fim de Verão. Os olhos eram grandes, vivos, verdes como a erva dos campos primaveris. Hermenegildo pensou que estava a sonhar. Estava perante a mulher dos seus sonhos. Ela interrompeu o silêncio que se fizera durante alguns segundos.
- Hermenegildo? És mesmo tu?
Uma interrogação esboçou-se-lhe nos olhos. Começou a balbuciar sílabas incompreensíveis, meio a gaguejar. Não sabia o que dizer. Nem sabia quem ela era, nem porque ela o conhecia. Só a cabeça acenava afirmativamente. Ela pegou-lhe na mão robusta que tremia encostada à porta.
- Não me conheces? Sou a Tina, andámos juntos na escola. Lembras-te? Toda a gente gozava com os nossos nomes. Nunca gostei de me chamar Juventina. Bem, mas o que interessa é que voltei à aldeia e queria ver-te! Não me convidas para entrar?
Hermenegildo nunca confessara a ninguém, mas sempre teve inveja dela. Pelo menos o nome dava para abreviar e ela sempre podia responder aos outros miúdos que se chamava Tina. Só ele é que nunca conseguia responder às provocações e nada tinha para ripostar. Agora estava espantado por ela o ter vindo procurar. E por ela se ter transformado naquela mulherona.
A verdade é que ela sempre gostara dele desde miúdos, só nunca o admitira. Recentemente, tinha tido um grave acidente de carro, no qual morreu o marido e o filho. Ficou sem emprego e sem casa. Teve que deixar a cidade grande e voltar a casa dos pais. Repensou a vida e decidiu rever o seu amor secreto.
Quando Hermenegildo abriu a porta ela viu o homem dos seus sonhos. Alguns centímetros mais alto do que ela, anafado, com uma barba de três dias, cabelo encaracolado ruivo e uns olhos que lembravam a terra acabada de lavrar. A camisa aos quadrados e o colete de caçador exalavam um cheiro a homem, bem diferente do do falecido marido gerente de banco. Juventina estava perante o seu príncipe encantado. A sua gaguez e timidez inicial só serviam para dar a Tina um frémito, um arrepio na pele que a deixava hirta.
Assim que entraram em casa bastou uma meia-hora de conversa para se entenderem. Em dois meses estariam casados. Em dois anos teriam um filho e outro a caminho. Ambos fizeram candidaturas a subsídios para agricultores e agora viviam do que a terra dava, felizes na casita agora mais bem arranjada.
Ele já nem se lembrava da vida antiga e da carta que escrevera para várias direcções quando a vizinha da frente lhe bateu à porta num dia de Verão levando o filho preso por uma orelha. O miúdo trazia as mãos cheias de envelopes e uma expressão de dor no rosto. A orelha estava tão vermelha como uma papoila.
A vizinha contou a Hermenegildo que encontrara no quarto do filho uma caixa com os envelopes e ele acabara por confessar do que se tratava. Há mais de dois anos o vizinho tinha pedido ao miúdo que pusesse as cartas no correio, porque estava naqueles dias depressivos em que não lhe apetecia sair de casa. Deu-lhe uns trocos para comprar rebuçados e ficou descansado, porque o miúdo era atinado.
O problema foi que os outros miúdos que costumavam bater à porta para fazer troça de Hermenegildo estavam à espreita e ameaçaram o miúdo para que não pusesse as cartas no correio. Chegaram mesmo a dar-lhe uma bofetada que o atirou com os envelopes pela calçada fora. Cheio de medo, foi para casa, pôs as cartas numa caixa em cima do guarda-fatos e acabaria por esquecê-las.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Solidão
Um quarto de hotel é sempre o expoente máximo da solidão para mim. Estou sozinho entre quatro paredes. E a minha vida é feita de solidão. Dizem que um casamento consiste numa solidão que ampara outra solidão. Neste caso eu não consigo amparar a solidão da minha mulher.
Eu estou sempre longe de casa. O trabalho leva-me todas as semanas a cidades diferentes, a escritórios diferentes e a quartos de hotel diferentes. Mas para mim é tudo igual. O avião é a minha segunda casa. É onde me sinto mais amparado e mais feliz quando estou longe da minha verdadeira casa.
Pergunta-me o espelho se sou feliz. Não sei o que responder. Enquanto trabalho e viajo pareço estar feliz, sinto-me realizado. O problema é mesmo quando chego ao quarto de hotel e fico a sós com a minha solidão.
A solidão mata e corrói-nos por dentro aos poucos. Leva-nos a tranquilidade, a harmonia, a esperança, leva-nos até a fala. Em troca traz-nos o medo, a insegurança, a intranquilidade. Ficamos ensimesmados, indiferentes aos outros, tornamo-nos bichos-do-mato. E já não estranhamos quando nos sentimos sozinhos no meio de uma multidão.
O meu melhor amigo diz que ninguém nos pode tirar a nossa solidão. Cabe-nos a nós próprios lutar para sair dela, reinventarmo-nos, deixarmos os caminhos antigos, ir ao encontro dos outros e reaprender a sorrir com a alegria de quem vê uma coisa linda pela primeira vez. Viver cada momento como se fosse o último, porque amanhã pode ser tarde.
Só que eu não consigo ser tão optimista. Ou pelo menos não tenho forças para lutar contra as minhas fraquezas. Esse amigo aconselha-me muitas vezes a matar a solidão com mulheres. Já experimentei. Mas sinto-me sozinho na mesma e ainda por cima sinto-me sujo. Quando olho para a minha mulher sinto-me um lixo, um cobarde, que para além de não a ajudar a criar os nossos filhos ainda anda a viajar e a traí-la. Eu não posso fazer mais isso. Eu não quero.
A solução é aprender a viver com a minha solidão. Ainda que demore tempo. Ou então, como me segreda a minha mãe de cada vez que a vejo, o melhor é mudar de trabalho. Posso ganhar muito menos dinheiro mas pelo menos tenho a felicidade de adormecer e acordar todos os dias ao lado da mulher que eu amo. De fazer torradas pela manhã enquanto ela me agarra pela cintura. De parar uma batalha de cereais entre os miúdos. De ver os sorrisos deles sempre que os levo à escola. De lhes dar banho à noite. Há coisas que não têm preço. A minha mãe tem razão. Está decidido. Amanhã vou falar com o meu chefe e vou à procura da minha felicidade. Adeus solidão.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Noite de patrulha
A noite começava a embalar os mais incautos quando um grito atravessou o
céu. Uma voz de mulher. Um pedido de ajuda lancinante. Mas de onde
viria? Não parecia ser muito longe.
Em duas décadas de profissão Ana não se cansava de ser polícia e era nestas alturas que mais gostava de envergar esta farda. Aquelas patrulhas simples e rotineiras podem tornar-se numa missão importante. Seria este o caso? Só umas horas mais tarde viria a descobrir.
Com um dedo em frente aos lábios, Ana fez sinal ao colega para que se calasse, e, acto contínuo, saiu do carro. Deixou a porta aberta e pôs-se à escuta, mas nada mais se ouviu. O breu estava fechado e o silêncio pesava sobre o arvoredo à volta. O caminho de terra batida mal se via. A lua em quarto minguante não ajudava a alumiar a estrada secundária.
Estática por uns minutos, Ana esperava ouvir mais alguma coisa. Em vão. Voltou a entrar no carro. Fez sinal ao novato que guiava e puseram-se lentamente em marcha. Nada de significativo se via, nada se ouvia para além de um ou outro grilo. Foi então que decidiu seguir o instinto ou sexto sentido ou a voz da experiência. Seria melhor esperar para reagir. Aqui havia gato, pensava. E nem lhe passava pela cabeça ir patrulhar para outro lado.
Ficariam estacionados do lado de fora da estrada, de forma a que o carro ficasse escondido pelos arbustos e não fosse visto por quem passasse por ali. Assim permaneceram uns três quartos de hora até que viram uns faróis a cortar lentamente a escuridão ao longe. Ana saiu do carro e ficou numa posição em que veria bem o veículo. Era uma carrinha de sete ou nove lugares preta e de vidros fumados. A matrícula era portuguesa.
Começava a confirmar as suas suspeitas de que alguma coisa de anormal se passava. Lembrou-se de repente de que não muito longe dali havia um grande armazém abandonado. Seria para lá que ia a carrinha? Seria de lá que tinha vindo o grito de mulher? Decidiu ir até lá a corta-mato. E deixar o colega no carro.
Conhecia bem a zona desde criança. Gostava de brincar com os irmãos por ali, porque era nesse mesmo armazém que na altura estavam os produtos de mercearia que depois iriam ser distribuídos pelos minimercados da região. Às vezes os empregados davam um chocolate ou uns rebuçados aos miúdos que se empoleiravam nas árvores para espreitar o que lá havia através das magras janelas do espaço . No mesmo sítio, 40 anos depois, Ana pensou em voltar a subir ao carvalho que sempre fora o seu preferido por ter a melhor vista para dentro do armazém.
Um grupo de homens altos, musculosos e mal-encarados estava atentamente a ouvir um sujeito franzino de óculos que lhes parecia dar ordens. Gesticulava e abria muito os olhos. De quando em quando apontava para um dos cantos, onde estava sentada no chão uma mulher com uma venda nos olhos e com fita-cola na boca. Estava amarrada por cordas fortes a um jipe. Os pés e as mãos estavam completamente imobilizados. Ana reconheceu na vítima a mulher do dono da fábrica de calçado que tinha sido raptada num concelho vizinho há algumas semanas.
Pensou estar perante o grande caso da sua carreira ao mesmo tempo que se lembrava que o caso estava entregue a colegas de outra força policial. Que passo vou dar primeiro, questionava-se. Porém, não precisou de pensar muito porque não precisou de mexer um dedo.
Sem saber como, quando deu por si Ana estava a ver outros colegas a entrar no armazém e a deter os raptores. A refém foi libertada. Parecia precisar de assistência médica. Combalida e pálida, a mulher mal conseguia andar. Teve que ser amparada até à viatura descaracterizada em que os agentes se deslocavam.
Ana estava contente pelo desfecho feliz e por ter assistido a tudo, embora estivesse desolada por não ter ajudado. Fez rapidamente o caminho para o carro de patrulha, mesmo sem se preocupar se o mato lhe rasgava a carne dos braços desprotegidos pelas mangas arregaçadas. Estava indiferente à dor por causa da raiva que agora sentia face à sua própria impotência. Quando chegou ao carro encontrou o colega a dormir ao volante. E só desejou poder ser tão irracional quanto ele.
Em duas décadas de profissão Ana não se cansava de ser polícia e era nestas alturas que mais gostava de envergar esta farda. Aquelas patrulhas simples e rotineiras podem tornar-se numa missão importante. Seria este o caso? Só umas horas mais tarde viria a descobrir.
Com um dedo em frente aos lábios, Ana fez sinal ao colega para que se calasse, e, acto contínuo, saiu do carro. Deixou a porta aberta e pôs-se à escuta, mas nada mais se ouviu. O breu estava fechado e o silêncio pesava sobre o arvoredo à volta. O caminho de terra batida mal se via. A lua em quarto minguante não ajudava a alumiar a estrada secundária.
Estática por uns minutos, Ana esperava ouvir mais alguma coisa. Em vão. Voltou a entrar no carro. Fez sinal ao novato que guiava e puseram-se lentamente em marcha. Nada de significativo se via, nada se ouvia para além de um ou outro grilo. Foi então que decidiu seguir o instinto ou sexto sentido ou a voz da experiência. Seria melhor esperar para reagir. Aqui havia gato, pensava. E nem lhe passava pela cabeça ir patrulhar para outro lado.
Ficariam estacionados do lado de fora da estrada, de forma a que o carro ficasse escondido pelos arbustos e não fosse visto por quem passasse por ali. Assim permaneceram uns três quartos de hora até que viram uns faróis a cortar lentamente a escuridão ao longe. Ana saiu do carro e ficou numa posição em que veria bem o veículo. Era uma carrinha de sete ou nove lugares preta e de vidros fumados. A matrícula era portuguesa.
Começava a confirmar as suas suspeitas de que alguma coisa de anormal se passava. Lembrou-se de repente de que não muito longe dali havia um grande armazém abandonado. Seria para lá que ia a carrinha? Seria de lá que tinha vindo o grito de mulher? Decidiu ir até lá a corta-mato. E deixar o colega no carro.
Conhecia bem a zona desde criança. Gostava de brincar com os irmãos por ali, porque era nesse mesmo armazém que na altura estavam os produtos de mercearia que depois iriam ser distribuídos pelos minimercados da região. Às vezes os empregados davam um chocolate ou uns rebuçados aos miúdos que se empoleiravam nas árvores para espreitar o que lá havia através das magras janelas do espaço . No mesmo sítio, 40 anos depois, Ana pensou em voltar a subir ao carvalho que sempre fora o seu preferido por ter a melhor vista para dentro do armazém.
Um grupo de homens altos, musculosos e mal-encarados estava atentamente a ouvir um sujeito franzino de óculos que lhes parecia dar ordens. Gesticulava e abria muito os olhos. De quando em quando apontava para um dos cantos, onde estava sentada no chão uma mulher com uma venda nos olhos e com fita-cola na boca. Estava amarrada por cordas fortes a um jipe. Os pés e as mãos estavam completamente imobilizados. Ana reconheceu na vítima a mulher do dono da fábrica de calçado que tinha sido raptada num concelho vizinho há algumas semanas.
Pensou estar perante o grande caso da sua carreira ao mesmo tempo que se lembrava que o caso estava entregue a colegas de outra força policial. Que passo vou dar primeiro, questionava-se. Porém, não precisou de pensar muito porque não precisou de mexer um dedo.
Sem saber como, quando deu por si Ana estava a ver outros colegas a entrar no armazém e a deter os raptores. A refém foi libertada. Parecia precisar de assistência médica. Combalida e pálida, a mulher mal conseguia andar. Teve que ser amparada até à viatura descaracterizada em que os agentes se deslocavam.
Ana estava contente pelo desfecho feliz e por ter assistido a tudo, embora estivesse desolada por não ter ajudado. Fez rapidamente o caminho para o carro de patrulha, mesmo sem se preocupar se o mato lhe rasgava a carne dos braços desprotegidos pelas mangas arregaçadas. Estava indiferente à dor por causa da raiva que agora sentia face à sua própria impotência. Quando chegou ao carro encontrou o colega a dormir ao volante. E só desejou poder ser tão irracional quanto ele.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Enquanto esperamos
Na paragem de autocarro no centro da cidade só se viam caras fechadas.
Pessoas cansadas ao fim de mais um dia de trabalho, pensando nos seus
problemas ou apenas organizando mentalmente o que teriam ainda para
fazer quando chegassem a casa. Havia mesmo quem estivesse com vontade de
chorar por não ter nada para comer em casa, excepto bolachas. E
o fim do mês que nunca mais chega, lamentava.
Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os olhos de ambos irradiavam felicidade.
- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.
A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem tem dinheiro para ir ao supermercado.
O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com esta velha, só pode.
Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz, não tem razões para sorrir assim, estava convencido.
O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.
Foi nessa altura que chegou um casal que destoava entre os rostos abatidos. Um homem e uma mulher de mãos dadas, com um sorriso de orelha a orelha. Deviam ter mais de 70 anos. Ela trazia na mão um saco de supermercado com pouca coisa dentro. Ele trazia na mão uma pequena pasta. Os olhos de ambos irradiavam felicidade.
- Que sorriso parvo, só podem estar apaixonados - pensava a adolescente que olhava com estranheza para o casal que roubava as atenções de todos.
A mulher que só tinha bolachas em casa mordia os lábios a olhar para a felicidade de quem tem alguém para partilhar a vida - e de quem tem dinheiro para ir ao supermercado.
O homem de meia-idade encostado ao canto da paragem de autocarro acreditava que deveriam ter fugido do manicómio. Ninguém pode ser feliz assim, muito menos nesta altura da vida e com a crise que para aí vai no país, matutava. Ou então o velho anda a meter os palitos à mulher com esta velha, só pode.
Na outra ponta da paragem o rapaz que saíra há pouco do trabalho - e ainda tinha no braço marcas de óleo da oficina - olhava demoradamente para as pobres roupas do casal idoso. Estranhava que gente pobre sorrisse daquela maneira. Quem conta os trocos de uma parca reforma não pode ser feliz, não tem razões para sorrir assim, estava convencido.
O que toda a gente ignorava naquela paragem de autocarro e nunca chegou a saber foi o verdadeiro motivo da felicidade daqueles septuagenários que agora entravam no eléctrico rumo a casa. Acabavam de sair do hospital onde lhes foi dito que a mulher estava curada do cancro. O pesadelo acabara finalmente. Só havia motivos para sorrir.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Rapto
Os ponteiros indicavam cinco e meia da tarde. Ao ver as horas, os grandes olhos negros espelhavam preocupação. A testa sulcada mostrava que o passar dos anos tinha deixado as suas marcas naquele rosto pálido. O corpo franzino abanava-se com a inquietação de quem está pressionado pelo tempo. As mãos ossudas - que não condiziam com o resto do seu dono pela dimensão desmesurada que tinham - pegaram no telemóvel preto que estava no bolso das calças de ganga.
- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.
- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.
- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.
Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.
Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.
- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.
Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.
- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.
- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.
No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.
Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.
- Estou? Aqui Alfa, escuto. - sussurrou o homem. Do outro lado terá vindo uma resposta que o levou a prosseguir a conversa noutro tom e em voz alta.
- Como é? Esse resgate demora muito ou faz serão? Já estamos a ficar atrasados. O plano está feito ao pormenor. Não pode haver deslizes, muito menos de tempo. Toca a pressionar. - gritou, para de seguida prosseguir com segurança.
- Aqui está tudo calmo. A presa está aqui quietinha à minha frente como uma linda menina que é! - exclamou ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada sonora.
Desligando o aparelho rectangular fez menção de o devolver ao bolso, mas, arrependendo-se, apontou-o ao rosto assustado da rapariga que tinha à frente.
Não teria mais de vinte anos. A pele clara e lisa era apenas pontuada por algumas manchas encarnadas nas maçãs do rosto. Os lábios apertavam uma tira de pano que a impedia de abrir a boca. O cabelo em desalinho era comprido e ruivo. Os caracóis caiam pelo peito e costas. O corpo magro mal era escondido por um fato de ballet branco um pouco rasgado e praticamente todo sujo de terra e manchas de óleo de carros. As sapatilhas estavam imundas, quase da cor do barro.
- Queres comer, bailarina? - perguntou a besta, apontando para uma tigela que enchia com comida de lata para cão. - Não comes tu, há mais quem coma. Vilão, cão mau, anda ao dono.
Logo veio a correr um canídeo de grande porte com as orelhas pontiagudas e escuras no ar. A cauda curta abanava de satisfação ao mesmo tempo que abria a boca pondo a língua de fora e mostrando os enormes dentes amarelados e afiados. Ao ver o Vilão a correr na sua direcção a rapariga encolheu-se no chão, no seu canto junto a um carro velho. Mas o cão foi direitinho ao coxo cheio. A rapariga suspirou de alívio, o que levou a mais uma gargalhada estridente do raptor.
- Pois é minha querida. Nunca sonhaste tu que um dia ias estar à minha mercê nesta situação. Eu que era teu vizinho, mas que sempre sonhou vir a ser teu namorado e mais tarde marido. Desde o tempo da escola que eu te desejava para mim. E quando te via dançar no palco repetia mentalmente que um dia ias ser minha. Como foste nestes últimos dias - acrescentou, enquanto passeava os dedos pelo peito da rapariga assustada. Após uma pequena pausa, continuou num tom rancoroso.
- Mas tu nunca me ligaste e ainda por cima anunciaste que vais casar com o banana do maestrozinho. Por isso este meu plano de te raptar e ainda pedir um resgate milionário que o teu querido noivo deve estar prestes a pagar. Quando ele te vir de novo já eu vou estar muito longe e rico. Vou viver uma vida à grande, deixando tudo para trás. A minha família, a minha velha mãe, nunca vai acreditar que eu te raptei. Ela pensa que eu fui trabalhar para Inglaterra há um mês. Mas olha princesa - acrescentou, fazendo uma longa pausa - se quiseres vir ser feliz comigo noutra vida, se estes belos dias comigo te fizeram mudar de ideias, ainda estás a tempo. Agarramos no dinheiro do resgate e voamos para bem longe. Que me dizes? Tens uns cinco minutos para pensar - exclamou, passando a mão suja ao longo do corpo frágil. A reacção dela foi um esgar de repulsa.
No momento em que o raptor se preparava para voltar a vestir o papel de violador e já estava com as cuecas aos pés ouviu-se um estrondo do lado da entrada do armazém. O portão estava a abrir-se e ele, que estava de costas e entretido na sua fantasia, nem deu por nada. Quando finalmente ouviu passos de corrida e começou a procurar a arma pelo chão já estava cercado. Estava rodeado de agentes da polícia de rosto tapado que o tinham observado através das pequenas janelas há longos minutos sem ele saber. Facilmente o agarraram e terminaram a operação de resgate da vítima com sucesso.
Depois de vários meses em prisão preventiva o tribunal ditou que vivesse por uns bons anos atrás das grades. E hoje é num pequeno televisor da cadeia que acompanha a carreira da famosa bailarina, sonhando todas as noites com o regresso àquela pele aveludada e àquele cabelo macio.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Tenda
A noite escura era alumiada por um pequeno ponto branco. Não havia luar,
não havia luz eléctrica à vista, não havia lanternas. Só uma estrela
solitária no céu brilhava. Parecia um cenário romântico: estávamos
acampados no meio do campo, com os grilos por companhia. Só nós os dois e
mais ninguém no mundo. Mas eu já estou velha demais para 'romantiquices'.
Cheia de frio, com dores nos ossos, dificuldade em dormir em cima daquele chão de pedra, tinha vontade de beber o meu leite quente, queria ver televisão antes de adormecer, e até tinha saudades da minha sanita... Não podia estar mais a detestar o cenário.
Mas nada podia dizer. Só me passavam pela cabeça mil e um pensamentos. Quem me mandou apaixonar-me por um romântico incurável, um eterno sonhador, sempre com a mania que ainda podemos mudar o mundo...
Se os nossos filhos e netos sonhassem que era ali a noite romântica para comemorar o meu aniversário!
Ainda por cima não conseguia dormir só a pensar que podia a qualquer momento vir um javali pela tenda adentro. Já me imaginava a rebolar pela serra abaixo à frente de um focinho escuro e espinhoso. Já via a família de javalis à nossa volta a cozinhar-nos dentro de um caldeirão junto com umas espigas de milho.
E a seguir lembrava-me que não tinha tirado a maquilhagem, o que daria direito a mais umas quantas rugas. E que não tinha regado as plantas, nem dado comida ao peixe. Nem arrumado a cozinha antes de sair de casa.
Depois de horas em pensamentos que tais acabei por adormecer e fui apenas acordada pelos primeiros raios de sol. Saímos da tenda e ficámos em silêncio a apreciar o cenário idílico. Os nossos braços enlaçaram-se, as nossas bocas reencontraram-se, as nossas respirações sincronizaram-se e era como se o nosso casamento de há 53 anos tivesse sido ontem.
Afinal valeu o sacrifício que tinha passado durante a noite. Se bem que gostava de ver assim um nascer do sol de novo, já disse ao meu marido que para a próxima dormimos num hotel e vamos para a serra pouco antes do nascer do dia.
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Viúva
Apeteceu-me pegar-te na mão, pousar o teu telemóvel ao lado do hambúrguer e carregar num botão para tirar o som todo à nossa volta. Queria fazer parar toda a gente naquela área de restauração de centro comercial, tirá-los dali.
É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.
Mas nada disso aconteceu.
No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.
O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.
O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.
Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.
O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.
Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.
A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.
É como se o resto do mundo não existisse e fossemos só nós a estar ali. E então poderíamos ficar eternamente em silêncio a olharmo-nos nos olhos, a descobrir o que está por dentro desta capa que nos cobre. Como se a partir do momento em que os teus olhos se cruzam com os meus passasse a haver um "nós" por toda a eternidade e só por isso todo o mundo parasse em suspenso.
Mas nada disso aconteceu.
No momento a seguir olhaste para o meu marido, a meu lado, e eu olhei para a tua mulher, sentada à tua frente. E o mundo desordenou-se.
O teu bebé atirou com a colher de papa ao ar e foi cair dentro da sopa da mulher que estava sentada na mesa ao lado. A sopa saltou em várias direções e acertou na gravata e na camisa do bancário que almoçava com a mulher.
O meu filho mais novo tropeçou no boneco que trazia nos braços e espalhou-se aos pés de um adolescente, que por sua vez desequilibrou-se e deixou cair o tabuleiro de comida. Uma das fatias de piza foi atingir em cheio a cara de um velho de bengala que vinha na direcção contrária.
Com a confusão várias pessoas gritavam e gesticulavam. O meu marido, que tinha sido operado ao coração e não podia exaltar-se começou a sentir-se mal. Perguntei se alguém me podia ajudar, algum médico ou enfermeiro. Por sorte tu, tu mesmo, levantaste-te e disseste que a mulher que eu pensava que era a tua mulher -e afinal era a tua irmã - era médica. Enquanto ela tentava reanimar o meu marido tu chamaste uma ambulância. Fomos para o hospital e a tua irmã ficou com os meus filhos.
O meu marido acabou por morrer. Se não fosse a tua presença no hospital não sei como teria suportado sozinha a dor da perda.
Eu sempre amei o meu marido. Eu sempre fui fiel. Excepto no momento em que te vi naquela área de restauração de centro comercial. E é como se esse simples momento de devaneio tivesse sido tão grave que tivesse provocado a morte do meu marido. Nos últimos meses culpei-me da morte dele, mas hoje sei que era um disparate. Foi o que tinha que ser.
A partir de hoje não vou mais afastar-te, querer-te só como amigo. Hoje confesso-te que te quero como uma mulher quer um homem que ama. Porque sei que o que senti quando te vi pela primeira vez foi um presente divino. É como se estivesse prevista a morte do meu marido e Deus tivesse decidido pôr-te no meu caminho para superar a perda e seguir em frente. Dá-me a mão finalmente e vamos construir uma nova vida, o nosso mundo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Temor de terra
Acordou sobressaltado com a sensação de que o coração lhe iria saltar
pela boca. Olhou à volta, viu que estava no quarto, e concluiu que teria
apenas tido um pesadelo. Mas não foi. Na verdade, foi um tremor de terra
que o acordou.
O relógio marcava quatro e dez da manhã. Os primeiros raios de sol já entravam pelo quarto, o que o fez pensar que nunca se conseguiria habituar à duração dos dias nos países nórdicos. E agora nem era a altura do ano em que a claridade chega mais cedo. Depois destes primeiros pensamentos é que olhou à volta e viu os livros no chão e tudo desordenado no quarto. Sentiu então a cama a abanar novamente e deu-se conta de que era um sismo.
Agora é que não percebia nada. Um tremor de terra assim não era nada comum nos países nórdicos. Só então se lembrou que o melhor seria proteger-se, mas por mais que puxasse pela cabeça não se conseguia lembrar de nenhuma das regras básicas de segurança.
Pelo contrário, só lhe ocorria saltar pela janela. Já estava a abri-la quando raciocinou que não seria uma boa ideia saltar do 15.º andar. Voltou para dentro. Fechou a janela.
Um novo tremor abalou o quarto. Foi pôr-se debaixo da cama bem quietinho à espera que tudo passasse. Fechou os olhos e imaginou que a mãe o abraçava, como quando em criança acordava com pesadelos e tinha medo de fantasmas. A terra não parava de tremer e o temor dele crescia.
Subitamente a maçaneta rodou e ouviu passos. Uma mulher chamou pelo seu nome. Saiu e pôs-se em pé. À sua frente estava a mãe. A mesma que tinha morrido há quase vinte anos. Ele piscou os olhos e esfregou-os sem perceber o que se passava.
- Amor, vim buscar-te para irmos para o céu. Morreste, mas não tenhas medo. A mãe está aqui para te abraçar.
O relógio marcava quatro e dez da manhã. Os primeiros raios de sol já entravam pelo quarto, o que o fez pensar que nunca se conseguiria habituar à duração dos dias nos países nórdicos. E agora nem era a altura do ano em que a claridade chega mais cedo. Depois destes primeiros pensamentos é que olhou à volta e viu os livros no chão e tudo desordenado no quarto. Sentiu então a cama a abanar novamente e deu-se conta de que era um sismo.
Agora é que não percebia nada. Um tremor de terra assim não era nada comum nos países nórdicos. Só então se lembrou que o melhor seria proteger-se, mas por mais que puxasse pela cabeça não se conseguia lembrar de nenhuma das regras básicas de segurança.
Pelo contrário, só lhe ocorria saltar pela janela. Já estava a abri-la quando raciocinou que não seria uma boa ideia saltar do 15.º andar. Voltou para dentro. Fechou a janela.
Um novo tremor abalou o quarto. Foi pôr-se debaixo da cama bem quietinho à espera que tudo passasse. Fechou os olhos e imaginou que a mãe o abraçava, como quando em criança acordava com pesadelos e tinha medo de fantasmas. A terra não parava de tremer e o temor dele crescia.
Subitamente a maçaneta rodou e ouviu passos. Uma mulher chamou pelo seu nome. Saiu e pôs-se em pé. À sua frente estava a mãe. A mesma que tinha morrido há quase vinte anos. Ele piscou os olhos e esfregou-os sem perceber o que se passava.
- Amor, vim buscar-te para irmos para o céu. Morreste, mas não tenhas medo. A mãe está aqui para te abraçar.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Sonhos autopsiados
- Triste de quem tem sonhos e nunca os realiza. Triste de quem tem sonhos e
nunca faz nada para os realizar. -atirou Manel, batendo a mão no tampo
da mesa onde jazia um corpo pálido.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
- Mas tu acreditas mesmo nisso? Achas que o Heitor fez bem em concretizar o sonho dele e passar os meses seguintes com fome? - questionou Alice com o sobrolho franzido e a serra na mão direita.
- O Heitor tinha o sonho de ter um Ferrari amarelo. Que mal tem conduzir um carrão quando se tem a barriga vazia? O que conta são as aparências! Pensas que ele teve poucas namoradas à custa do carro, Alice?
- Disso até nem duvido, Manel. Mas só o facto de ter de viver em casa dos pais depois dos 40 anos só para poder juntar dinheiro para comprar o carro... E depois fazer um empréstimo para pagar o restante e ficar à míngua quando os pais morreram no desastre de avião. Não me convences de que ele era feliz.
- Minha querida, pelo menos seria feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo.
- Seria talvez, meu querido - atirou Alice num tom irónico. Mas essa é unicamente uma felicidade vã, que se esvai à medida que o objeto da nossa felicidade se afasta de nós e deixa de ser uma fonte inesgotável de prazer imediato.
- Sim, senhor. Estamos muito filosóficos hoje. Então diz-me lá, cara colega, se achas que há felicidade eterna, perene.
- Certamente que não se pode ser feliz 24 horas por dia, 365 dias por ano, mas pode ser-se feliz tendo aquela felicidade que se mistura com a tranquiilidade e a segurança de quem está em paz consigo próprio, com os outros à sua volta e com o mundo.
- Então concordas afinal que o Heitor era feliz enquanto conduzia o Ferrari amarelo?
- Em parte sim. Até admito que fosse feliz quando o conduzia a uma velocidade estonteante e se despistou na auto-estrada. Apesar de estar na miséria, ainda teve dinheiro para derreter em gasolina e se matar a si próprio. Manel, acredito piamente que o Heitor era feliz no momento em que morreu, apenas porque cumpria o seu grande sonho.
- Sabes Alice, estou é a ficar atrasado. A seguir tenho que ir dar uma aula de Medicina Legal ali na faculdade. Mas quando morrermos podemos esclarecer tudo isto. O que é certo é que a autópsia está feita e eu preciso de um café. Anda daí, hoje pago eu, que estou transitoriamente feliz.
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
Melro
Olhou para o relógio. Eram quase cinco da tarde e ainda não tinha
escrito nada de jeito. Não tardaria o telefone iria tocar e ela teria
que inventar uma desculpa para ainda não ter pronta a coluna para o
semanário da região.
Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.
Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.
Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.
Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.
Olhou para a rua através da janela. Viu um melro e naquele momento desejou ter assim um fato de penas pretas e um bico alaranjado. Poder voar para longe e só fazer o que lhe apetecesse. Andar à chuva, saltar de árvore em árvore, urinar em cima das pessoas de que não gostasse. Assim a vida haveria de valer a pena.
Olhou para o computador. A folha de texto ainda estava em branco. Pegou num lápis e num papel. Em vez de palavras, saiu-lhe um desenho. Os dedos retrataram espontaneamente um pássaro, mais precisamente um melro.
Olhou para o telemóvel. O chefe de redação estava a telefonar-lhe, porque já tinha passado o prazo de entregar o texto. Atendeu e disse-lhe que esta semana tinha uma coisa diferente. Um desenho que na realidade era uma caricatura.
Fez-se um silêncio do outro lado do telefone. Ele não sabia o que responder. Texto era o que ele precisava, mas nada lhe restava senão aceitar o desenho, pois tinha o espaço para preencher. Ela voltou a perguntar-lhe se o podia enviar e ele assentiu. Mal podia imaginar o ataque de fúria que lhe iria dar ao abrir o e-mail e ver que a caricatura era na realidade o desenho de um animal com corpo de melro e com a cara dela.
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