segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

OVNI

A noite de Dezembro era escura e fria, mas dentro do carro a invernia não se sentia. Como era habitual nas longas viagens dos quatro amigos, jogavam a um daqueles passatempos em que se tem que adivinhar algo. Mas o jogo foi interrompido por um grito de admiração do condutor, que apontava para o céu à frente. Parou o carro. O silêncio instalou-se enquanto os oito olhos seguiam o que viam do lado de fora do vidro.

A uns 250 metros, a escuridão da estrada rural era cortada por um objecto brilhante que viajava em sentido descendente, seguindo a trajetória que um avião faz ao aterrar. Daquelas quatro bocas não saía sequer um som ao verem o objecto desaparecer atrás de um velho muro de pedras.


Assim que o objecto aterrou começou a especulação em relação ao que tinham visto. O condutor - Tomé - disse que já tinha visto ao longe a luz, mas pensava ser uma estrela cadente. Na altura em que se apercebeu que não poderia ser, avisou os amigos. 


No banco de trás, Zé censurou-o, pois deveria ter avisado mais cedo para verem com mais detalhe de que se tratava. Zélia dizia que bem tinha visto que era um objecto com uma luz azul-esverdeada e com uma cauda deixando um rasto com a mesma cor.  Joana alegava que no banco da frente tinha visto melhor e que o que vira era uma luz verde-amarelada que depois foi ficando mais azul. Do tamanho de um microondas, mas mais achatado, garantia. 

Ao mesmo tempo que se discutia o que se tinha passado, Tomé tentava o interromper a confusão de vozes, até que deu um grito para perguntar se queriam ir embora ou ficar ali toda a vida. Zé respondeu logo que queria ir lá ver o que era, mas a namorada dizia que ele era louco e o melhor seria seguir viagem. "E perder a oportunidade de ver os extraterrestres a sair do OVNI?", perguntou retoricamente enquanto desapertava o cinto de segurança e saía a correr pela picada de terra batida.

Tomé ficou a ajuizar que podia ser um drone russo que tinham enviado para espiar Portugal, ou então uma pequena nave tripulada por elementos de um grupo jiadista que vinham infiltrar-se no país para iniciar um plano de conquista de Portugal. A namorada abanava a cabeça no banco da frente e dizia que deveria haver uma explicação científica para o fenómeno atmosférico, porque era isso apenas que tinham visto. Dito isto, saiu da viatura e foi à procura do amigo para o convencer a seguir viagem. Dentro do veículo ficaram apenas dois medricas arrepiados a matutar no que tinham visto.


Quando Joana saltou o muro de pedra pelo lado mais baixo achou estranho não ver nada. Nem o amigo, nem sequer rasto do objecto brilhante. Ligou a lanterna do telemóvel e apontou em frente, mas só via um campo de erva. Ao centro havia um buraco sem vegetação, do exacto tamanho do objecto que vira. 


Subitamente sentiu uma respiração ofegante na nuca e deu um salto. Era o amigo Zé, que lhe agarrou na mão e a puxou para o outro lado do muro, avançando decididamente em direcção ao carro. Sem falar, Zé ia numa passada mecânica e quase lhe esmagava o pulso. Ela bem perguntava o que se passava e o que ele tinha visto, só que nem uma palavra lhe arrancou.

Apenas quando entraram dentro do automóvel, Zé quebrou o silêncio e suplicou para se irem embora rapidamente. Tomé, que estava branco que nem um papel, executou logo a ordem. Optou por regressar à estrada principal e assim seguiram viagem até Coimbra, sempre em silêncio. E, até hoje, Zé continua sem contar a ninguém o que viu naquela noite no descampado.

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