segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

República meritocrática

"Era uma vez uma República onde não havia reis, nem rainhas, nem princesas, nem príncipes. O que faz sentido, tendo em conta que a Monarquia tinha sido enterrada. Não havendo reis ou príncipes, não havia privilegiados em função do nascimento. Era uma verdadeira Meritocracia e só quem merecia é que era beneficiado."

- Ó mãe, mas onde é que tu foste desencantar este livro?


- Deixa-me continuar a ler! Cala-te e ouve.


"Estas regras fizeram com que muitas pessoas tivessem decidido abandonar o país, emigrando para um país quente onde as leis eram diferentes e onde as contas bancárias não eram passadas a pente fino. Outra medida que estava em vigor desde o primeiro dia era a redução de impostos. Como não havia fuga ao fisco e todos cumpriam as suas obrigações, havia margem para essas medidas."


- Ó mãe, olha que isto é muito complicado para uma miúda de dez anos. Achas que a Su está a perceber alguma coisa? Isto não é para a idade dela!


- Mãezinha, deixa a vó ler a história! Estou a perceber tudinho!


Empertigada, de dedinho em riste, Su esticava-se para parecer maior e mostrar à mãe que percebia toda a história que a avó estava a ler naquele livro.


Desde que viu a avó a entrar em casa com ele, Su tinha ficado curiosa. Era um livro de tamanho A4 com uma capa cheia de desenhos coloridos. O título parecia ser de um conto: "Numa República distante". Logo na altura, pediu à avó para lhe deixar ver o livro, só que ela respondeu que preferia ser ela a ler-lho em voz alta para que ela pudesse aprender o que era um país a sério. Su ficou intrigada e franziu a pequena e branca testa. O que quereria a avó dizer com aquilo? A pequena ainda tentou ser esclarecida, mas a avó fez um gesto largo com a mão rechonchuda dando a entender que não iria mudar de ideias.


Por isso, quando a avó lhe começou a ler o livro, Su sentou-se na carpete felpuda da sala preparadíssima para descobrir o que estaria escrito naquele livro. De olhos muito arregalados, a miúda ouvia atentamente a história com os cotovelos apoiados nas pernas cruzadas. Com as mãozitas brancas ia tapando e destapando os lábios consoante abria ou fechava a boça. Ao fim de dez páginas, Su estava a bocejar e acabaria por adormecer passadas outras dez páginas.


A avó teve que dar o braço a torcer e admitir que a filha tinha razão quando disse que o livro não era adequado à idade da Su. Porém, os adultos estavam a gostar daquela história e não deixaram a D. Idália terminar por ali. Só faltavam umas 15 páginas e queriam saber como os autores tinham imaginado o desfecho daquele país tão longínquo do seu.

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