"Era uma vez uma República onde não havia reis, nem rainhas, nem
princesas, nem príncipes. O que faz sentido, tendo em conta que a
Monarquia tinha sido enterrada. Não havendo reis ou príncipes, não havia
privilegiados em função do nascimento. Era uma verdadeira Meritocracia e
só quem merecia é que era beneficiado."
- Ó mãe, mas onde é que tu foste desencantar este livro?
- Deixa-me continuar a ler! Cala-te e ouve.
"Estas regras fizeram com que muitas pessoas tivessem decidido abandonar
o país, emigrando para um país quente onde as leis eram diferentes e
onde as contas bancárias não eram passadas a pente fino. Outra medida
que estava em vigor desde o primeiro dia era a redução de impostos. Como
não havia fuga ao fisco e todos cumpriam as suas obrigações, havia
margem para essas medidas."
- Ó mãe, olha que isto é muito complicado para uma miúda de dez anos.
Achas que a Su está a perceber alguma coisa? Isto não é para a idade
dela!
- Mãezinha, deixa a vó ler a história! Estou a perceber tudinho!
Empertigada, de dedinho em riste, Su esticava-se para parecer maior e
mostrar à mãe que percebia toda a história que a avó estava a ler
naquele livro.
Desde que viu a avó a entrar em casa com ele, Su tinha ficado curiosa.
Era um livro de tamanho A4 com uma capa cheia de desenhos coloridos. O
título parecia ser de um conto: "Numa República distante". Logo na
altura, pediu à avó para lhe deixar ver o livro, só que ela respondeu
que preferia ser ela a ler-lho em voz alta para que ela pudesse aprender
o que era um país a sério. Su ficou intrigada e franziu a pequena e
branca testa. O que quereria a avó dizer com aquilo? A pequena ainda
tentou ser esclarecida, mas a avó fez um gesto largo com a mão
rechonchuda dando a entender que não iria mudar de ideias.
Por isso, quando a avó lhe começou a ler o livro, Su sentou-se na
carpete felpuda da sala preparadíssima para descobrir o que estaria
escrito naquele livro. De olhos muito arregalados, a miúda ouvia
atentamente a história com os cotovelos apoiados nas pernas cruzadas.
Com as mãozitas brancas ia tapando e destapando os lábios consoante
abria ou fechava a boça. Ao fim de dez páginas, Su estava a bocejar e
acabaria por adormecer passadas outras dez páginas.
A avó teve que dar o braço a torcer e admitir que a filha tinha razão
quando disse que o livro não era adequado à idade da Su. Porém, os
adultos estavam a gostar daquela história e não deixaram a D. Idália
terminar por ali. Só faltavam umas 15 páginas e queriam saber como os
autores tinham imaginado o desfecho daquele país tão longínquo do seu.
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