Há quem diga que sempre chegamos onde nos esperam, mas às
vezes chegamos onde não somos esperados.
Passei 54 anos da minha vida sem saber quem era o meu pai. Vivi como a vida quis que vivesse, com a calma dos dias na minha ilha do Fogo.
A minha mãe e os meus irmãos sempre me acarinharam, apesar
de eu ser diferente deles. Eu sou um homem branco como o papel, ruivo como as
cenouras, sardento como um peixe é escamudo. Eles são morenos.
Mas numa família a sério não interessa a cor que se tem. Só
conta o coração. A minha mãe nunca me quis contar quem foi o branco que me fez,
e sempre carreguei com essa dúvida no peito. Até ao dia em que o vulcão
acordou.
O vulcão acordou e a minha mãe começou a ficar com febre e a
delirar com outros tempos e a falar em histórias passadas da destruição pela
lava ardente.
Enquanto ela ardia em febre chamou-me, dizendo que me iria
contar quem era o meu pai. E o que me contou foi uma história de amor que lhe
valeu o suicídio do marido, pai dos outros filhos.
Eu pensei na altura que ela delirava por causa da febre, mas
ela insistia que o português lhe tinha deixado o contacto sem saber sequer que
ela engravidara. Apontou para a gaveta da cómoda velha e deu um gemido. A febre
aumentou e acabou por morrer passadas umas horas.
Ainda resisti umas semanas, até que a minha filha me convenceu
a procurar as minhas raízes desconhecidas. E agora cá estou eu no aeroporto Sá
Carneiro, a pegar na minha mala e a apanhar um táxi para Rio Tinto.
Onde quer que essa terra fique, é lá que vive a família do
meu pai. Aliás, tenho que lhes telefonar para dizer que já vou a caminho.
Segundo o que me disseram, sempre souberam que tinham um irmão em Cabo Verde e
sempre esperaram que eu chegasse.
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