segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O vulcão



Há quem diga que sempre chegamos onde nos esperam, mas às vezes chegamos onde não somos esperados.

Passei  54 anos da minha vida sem saber quem era o meu pai. Vivi como a vida quis que vivesse, com a calma dos dias na minha ilha do Fogo. 

A minha mãe e os meus irmãos sempre me acarinharam, apesar de eu ser diferente deles. Eu sou um homem branco como o papel, ruivo como as cenouras, sardento como um peixe é escamudo. Eles são morenos.

Mas numa família a sério não interessa a cor que se tem. Só conta o coração. A minha mãe nunca me quis contar quem foi o branco que me fez, e sempre carreguei com essa dúvida no peito. Até ao dia em que o vulcão acordou.

O vulcão acordou e a minha mãe começou a ficar com febre e a delirar com outros tempos e a falar em histórias passadas da destruição pela lava ardente.

Enquanto ela ardia em febre chamou-me, dizendo que me iria contar quem era o meu pai. E o que me contou foi uma história de amor que lhe valeu o suicídio do marido, pai dos outros filhos. 

Eu pensei na altura que ela delirava por causa da febre, mas ela insistia que o português lhe tinha deixado o contacto sem saber sequer que ela engravidara. Apontou para a gaveta da cómoda velha e deu um gemido. A febre aumentou e acabou por morrer passadas umas horas.

Ainda resisti umas semanas, até que a minha filha me convenceu a procurar as minhas raízes desconhecidas. E agora cá estou eu no aeroporto Sá Carneiro, a pegar na minha mala e a apanhar um táxi para Rio Tinto. 

Onde quer que essa terra fique, é lá que vive a família do meu pai. Aliás, tenho que lhes telefonar para dizer que já vou a caminho. Segundo o que me disseram, sempre souberam que tinham um irmão em Cabo Verde e sempre esperaram que eu chegasse.

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