segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Roleta russa

Na televisão começava o telejornal quando a campainha tocou. Vasco foi abrir e entraram pela sala adentro dois sujeitos musculosos e mal-encarados. Sem sequer abrirem a boca, estenderam um envelope ao dono da casa. Encolhido a um canto, a tremer que nem varas verdes, Vasco esticou o braço e recebeu a encomenda. 

Assim que rodaram calcanhares e entraram no elevador, Vasco rodou a chave e trancou o ferrolho. Sentou-se no sofá e abriu a missiva. Enquanto pegava num lenço para limpar o suor da testa, o peito apertou-se-lhe com um mau pressentimento. Passou os olhos por cima das letras recortadas de revista uma vez e outra e outra. Não havia escapatória possível. "Ou pagas amanhã ou morres."

Que bela forma de se refrescar a memória, pensou. Esta parecia ser a derradeira ameaça e desta feita não haveria mais adiamentos ou prazos. Tinha menos de 24 horas até pagar seis milhões de euros. Seis milhões de euros, uma dívida acumulada em noites e noites de jogo na roleta russa naquele maldito casino clandestino a que se somaram os juros usurários daquele verme que se escondia atrás de capangas disformes.

Vasco voltou aos pensamentos que o consumiam nos últimos dias. Já não tinha carro, tinha vendido a casa e agora vivia num apartamento emprestado. Tinha sido despedido por justa causa e agora passava os dias a contar os tostões que a mãe lhe dava para viver.

O que fazer para pagar o dinheiro? Havia muitas hipóteses e nenhuma viável. Assaltar um banco, sequestrar um milionário, roubar as jóias centenárias  da avó Maria de Lourdes, por exemplo. Nada lhe parecia exequível. Era chegado a este ponto do raciocínio que Vasco pensava em matar-se. Sempre seria melhor do que ser morto. 

E então lembrava-se de que os monstros que foram lá a casa poderiam esmagá-lo com um dedo. Como seria que iriam matá-lo? Poderiam queimá-lo vivo, enforcá-lo, esfaqueá-lo ou então dar-lhe veneno para que se consumisse lentamente. Sim, - convencia-se Vasco - se por acaso o chefe do casino clandestino fosse uma mulher, seria esta a morte escolhida para quem lhe deve tanto dinheiro. As mulheres poderosas preferem assassínios requintados, lembou-se de um dia ouvir dizer num filme policial norte-americano.

Esta sucessão de pensamentos foi subitamente interrompida pelo som que saía do televisor. Uma apresentadora super maquilhada lembrava que era sexta-feira e anunciava a extração de um conhecido jogo. Por momentos, Vasco distraiu-se do turbilhão de emoções que o ocupavam e concentrou-se nos números que iam surgindo no ecrã. Foi apalpar os bolsos do casaco até encontrar o talão da aposta. À medida que ia conferindo os algarismos, o coração batia cada vez mais rápido. Nem queria acreditar que tinha vencido 15 milhões de euros!

Saltou, bateu palmas, correu de uma ponta à outra da casa, dançou e cantou. Estava livre e a vida estava garantida! Mas havia um problema. Como é que iria fazer para ter o dinheiro do prémio em menos de 24 horas? 

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